Carro na Garagem: Sociedade com Motor Fundido

Seguindo a própria noção que os ecologistas têm, ao alertarem um único homem quanto aos danos que suas ações podem causar não apenas para outros seres humanos, mas para todo um grupo de seres vivos e ainda não apenas hoje, mas também nas próximas décadas, o que enaltece, portanto, a importância da manutenção do ecossistema – se for ser levado em conta o padrão ecológico – enalteço eu as feridas de uma sociedade expostas por um dia como este.

O dia Mundial Sem Carro é um movimento “promovido em inúmeros países para que a sociedade possa refletir sobre os enormes problemas causados nas cidades pela excessiva prioridade dada ao transporte individual. Nossas cidades simplesmente não agüentam o aumento crescente de carros que circulam em nossas ruas e avenidas. Somente em São Paulo, são 800 novos carros por dia, todos os dias!”. Para lerem mais, acessem: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/conteudo_306036.shtml

Não restam dúvidas de que todo cuidado que tivermos com a saúde ambiental do planeta será uma ação bem-quista e de extremo valor para o prosseguimento da vida na Terra. Sabemos o quanto o Homem vem denegrindo seu próprio habitat em nome de valores baixos e imediatos, como lucro desgovernado, ganância, consumismo e falta de cuidado com pessoas somente por não pertencerem ao seu círculo de convívio.

Fica evidente que aquele que se preocupa com o bem-estar coletivo está num caminho mais admirável de quem só pensa em si, comete erros e até crimes em nome de suas próprias justificativas, que sempre são maiores que o direito do outro.

Vale ressaltar, porém, que o “Dia Mundial Sem Carro” nasceu na França (http://ambiente.hsw.uol.com.br/dia-mundial-sem-carro1.htm), um país que tem uma estrutura bem mais eficiente de transporte público, com sua capital cortada por uma malha metroviária ampla, fazendo com que seja bem mais fácil estimular o indivíduo a sair um pouco de seu conforto para realizar traslados num meio de transporte menos confortável que o particular.

O problema é que no Brasil o transporte público já está saturado, não funciona. Se as autoridades montam uma estrutura diferente para receber mais gente neste dia, por que não melhorá-la e estimular de maneira definitiva a idéia de usar meios coletivos para locomoção, que em tese são, realmente, a melhor opção?

Ontem assisti a uma reportagem mostrando um grupo que se deslocou em São Paulo na hora do rush de variadas formas. Os ciclistas chegaram em primeiro lugar, seguidos pelos motociclistas, pelo carro, transporte público e por último quem escolheu caminhar.

É fato: deslocar-se de carro, principalmente dentro das grandes cidades, é sinônimo de stress. Quem em sã consciência preferiria lidar com semáforos, cruzamentos, pedestres, retrovisores, motociclistas que passam a mil, velocidade certa para não bater no carro da frente e ao mesmo tempo conseguir mudar de faixa, se pudesse simplesmente se deixar levar por um ônibus de banco razoável, onde pudesse ir sentado lendo, conversando, meditando ou observando a paisagem?

Haveria, claro, o incômodo de pegar fila para comprar passagem, possíveis trocas de estação ou veículo, mas o esforço seria compensado pelo relaxamento de simplesmente ser guiado.

Acontece que quem anda de trem, metrô, ônibus e lotação sabe que o banco na maioria das vezes não é higienizado, o veículo está sempre lotado e não se sabe o que é melhor: estar sentado, com pessoas esbarrando bolsas, sacolas com objetos pontiagudos e até mesmo órgãos genitais em você, ou estar de pé, sacolejando, mal conseguindo segurar seu material de trabalho e manter-se ereto, estando em constante e incômodo contato íntimo com desconhecidos. Isso sem contar quando os motoristas, pressionados pela empresa ou por sua imprudência mesmo, correm como loucos e fazem mesmo alguns passageiros passarem mal, se chegarem ao destino.

Excluídos os meios de transporte motorizados particulares, restaria analisar os individuais não poluentes. Devido às distâncias de longas cidades, o método a pé deve ser desconsiderado. Sobra a bicicleta. Medida extremamente saudável! O único problema é: se de fato a coexistência entre carros, motos, pedestres, ônibus e caminhões já é conturbada, inserir mais um grupo requer muito cuidado. Aí vemos outra ferida: falta educação no trânsito! Fosse só isso, a solução seria reeducação, não evitar a inclusão.

Mas há um inconveniente…  Temos temperaturas tropicais de mais de 35º em dias de calor. Dá para abordar o cliente para realizar uma venda, ou trabalhar por horas com o chefe a meio metro de distância após ter feito trinta minutos de pedalada com terno preto num sol de 30º? A solução para o calor seria haver em empresas e locais públicos um vestiário onde o funcionário pudesse tomar uma ducha e se trocar após fazer o trajeto. Na prática e agora, sofrer este desgaste físico que o veículo motorizado impede que o ser humano sofra, não funciona. “Só por hoje” escolher-se-ia usar o veículo motorizado, devido ao sol, à chuva, ao “frio e estou com a garganta ruim”, etc.

Não, não estou eu contradizendo minhas palavras anteriores e, ao contrário do que fazem os ecologistas – que sabiamente visam o todo -, explicando casos específicos para evitar avanços. Este dia é uma conquista da humanidade! É necessário, entretanto, contextualizar os valores, para que não sejam distorcidos. Já que o Dia Mundial do Carro existe e aponta alguns pontos sensíveis, vamos examiná-los!

Imaginemos, então, um mundo quase sem automóveis particulares. Eles podem ser meros “status” para muitos, mas são, para outros, meios de trabalho, praticidade na vida, segurança em muitos casos e o principal para qualquer Ser: liberdade!

Agora parece mais fácil trocar o carro, mas se ele é bom, só está sendo mal usado, não seria mais construtivo melhorá-lo (o que dá trabalho e leva tempo) em vez de excluí-lo (resolução rápida e fácil do problema)? Será que a solução não estaria em popularizar combustíveis naturais, como a luz, e investir em obras para que as cidades fossem condizentes com o número de habitantes que possuem? Não seria melhor eliminar seu prejuízo (a poluição) e ficar com seus benefícios (proteção às intempéries, não cansar o organismo do homem, se este já tem outro trabalho cansativo a realizar, liberdade em inúmeras áreas da vida)?

Gosto do conceito da antropofagia, manifesto de Oswald de Andrade, à época do Modernismo Literário Brasileiro, que não era radical ou extremamente nacionalista: reconhecia a boa arte que vinha de fora, mas não negava suas raízes e filtrava o que de bom cabia à sua realidade. Misturava os dois extremos! Não resta dúvida que o consumo está exagerado em torno do automóvel particular, mas isso não deve justificar uma imagem negativa do mesmo! O problema está no excesso e no mau uso, não no objeto em si!

A questão é: olhando o ser que faz parte desta sociedade, não é só o valor ecológico que deve ser levado em conta, mas sua existência como um todo. Para seu próprio bem, deve-se sim evoluir em conceitos e deixar hábitos destrutivos para trás, como estes que maltratam a natureza. Porém, educando-o, deve-se levar em conta também seu bem-estar. O homem é o único animal que pode mudar o meio onde vive para seu progresso! Necessário se faz apenas educação desta capacidade, não aniquilamento da mesma!

O que deveríamos fazer? Ao refletirmos, nos convencermos de que não faz parte de nossa realidade abandonar o carro, pensar “pequeno”, “agora” e boicotar um movimento que é nitidamente saudável? De forma alguma! Mas precisamos ver que o mundo está neste movimento. O mundo, ou alguns países, consegue estimular este tipo de abnegação.

Se nós não conseguimos sustentar ações assim ou se, para fazê-lo, pessoas devem ser muitas vezes sacrificadas, nossa estrutura de vida é que deve mudar. Não seria benéfico como cidadãos podermos deixar o carro em casa felizes, animados por realizar a nossa parte e agüentar as pequenas diferenças de rotina, e não o fazendo com má vontade ou deixando de participar, devido às altas cotas de sacrifício que limitações da sociedade que nós mesmos criamos nos trazem?

Ecologistas: parabéns! Estão fazendo seu trabalho, no devido tempo. Não parem! Nós é que agradecemos.

Já às autoridades, de maneira geral – não absoluta!  -, um atestado de vergonha… a consciência coletiva já está despertando para valores além de seu tempo, e eles ainda brigam pela vida fácil do agora, ao usurpar do dinheiro daqueles que trabalham e que são obrigados a, após pagar os impostos, apelarem à iniciativa privada para sair da negligência do estado. Fora os outros que não o podem, mas também pagam impostos e são esquecidos.

Cidadãos esses que, por sua vez, não são vítimas, pois ainda não fazem jus ao termo e escolhem seus governantes de forma frívola. Têm no poder apenas o governante com quem sintonizam.

Quantos mais indivíduos deverão ter a rotina transtornada por ficar um dia sem carro e usar um transporte que não funciona, acarretando prejuízos de variadas ordens em cada vida, ou deixar de participar de um movimento tão enobrecedor, para que tomemos consciência da importância que é escolher um homem público para dirigir o coletivo, que não é um ser a parte, mas nada mais que o conjunto destes vários indivíduos? 

Fonte da imagem: contandohistoria369.blogspot.com

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