“O que os olhos não veem, o coração não sente”

olho coracao

O ser humano é formado de corpo, mente e espírito. Instinto, razão e emoção. Uma leve pincelada na história nos mostra que, no princípio, o que era desenvolvido era o instinto e os trabalhos rudimentares. Posteriormente, os individuos foram vencendo a natureza, vencendo o meio e iniciando o uso da inteligência. E a desenvolveram. A tal ponto que não apenas facilitasse o trabalho braçal, mas, também, resultasse em trabalhos intelectuais.

As cidades surgiram e hoje o que se busca é a possibilidade de poder exercer este tipo de trabalho, que, por questões mil, acaba sendo mais valorizado. Mas este não é o ponto. O que ressalto é que socialmente falando, praticado em larga escala e reconhecido oficialmente pelo meio, há dois tipos de trabalhos regularizados de forma massiva: o braçal e o intelectual.

Adoraria pegar um executivo de uma capital em uma sexta-feira de uma semana comum: cheia de stress e adrenalina, clientes, prazos , metas, medo de cortes etc., e ver sua reação caso um trabalhador de outra área, menos mental e mais manual, desprezasse seu trabalho, não o considerasse como tal, apenas porque o executivo trabalha no ar-condicionado, usa roupa boa e não sua como ele. Como será que reagiria?

Acontece que existem três coisas que nos impelem ao (equivocado) julgamento  alheio: o ego exacerbado do indivíduo que, tanto possibilita a arrogância de se sentir no direito de julgar a outrem, quanto faz com que vejamos o mundo apenas sob o nosso ponto de vista; além de levar em conta apenas nossos moldes e dores, o imediatismo, que nos faz avaliar um trabalho apenas por seu resultado final, ignorando (desvalorizando) todo o processo.

No exemplo hipotético, o trabalhador braçal olhou a grama verde do vizinho e, por julgar pelas aparências, notou apenas o que ele não tem: conforto físico no escritório, roupas bonitas revestindo o corpo e ausência de trabalho por não haver o efeito principal do seu esforço: sudorese. Mas será que este trabalhador teria preparo mental/emocional para lidar com as pressões de um cargo de mais responsabilidade, envolvendo diretamente outros empregos? Por outro lado, será que o executivo compreende o esforço de quem ainda, literalmente, dá o suor, realiza? Certamente que não. Pelos três motivos do parágrafo anterior.

Contudo, como estes dois trabalhos são conhecidos e aceitos em nossa sociedade, há parâmetros para comparação e, principalmente, identificação para quem realiza trabalhos intelectuais, seja qual for a natureza (o executivo, a administração, é só um exemplo). Sabendo que somos formados por corpo, intelecto e sentimentos, será que dá para perceber que falta um terceiro tipo de trabalho a ser desabrochado para a aceitação comum?

Da mesma forma que, um dia, quando as civilizações eram primitivas, só havia o manual/braçal e posteriormente surgiu o intelectual, depois de séculos de prática, experiências e lutas para somente então ser “comum”, é muito “louco” afirmar que existe um tipo de trabalho que ainda não é regulamentado oficialmente nem reconhecido como TRABALHO pelas pessoas de modo geral? Tipo… a arte???? É um trabalho puramente sensível! Existe há séculos!!!! É vital! Eu convido o mundo a ver-se livre de qualquer manifestação artística – casas quadradas, paredes lisas e com cores básicas, nada de música, de filmes, peças de teatro, livros, poesia etc. Como seria?

No texto anterior já embasei a teoria de que a arte é útil à Humanidade, portanto, é trabalho. Apenas um labor ainda não regular, e isso, enfatizo aqui. Refletido o preconceito, vem a hora de mostrar os bastidores.

Quando eu entrei na faculdade de jornalismo, pensava que uma reportagem de um minuto e meio de TV precisasse de mais ou menos uma hora para ser feita; via o preço de um produto em algumas lojas e achava que o custo havia sido R$ 0,50 e cobravam R$ 5,00. Eu precisei levar uma semana, duas, um mês, dependendo da complexidade, para pesquisar a pauta (assunto), entrar em contato com as fontes (os entrevistados), formular as perguntas, deslocar-me até o(s) entrevistado(s), gravar as passagens (quando o repórter aparece narrando a matéria), repetir tudo após os erros, decupar a fita (assistir e anotar o que aparece em cada tempo, para facilitar o trabalho de edição), organizar a ordem de passagens, entrevistas, imagens e colocar efeitos (música, passagens de cenas etc.) para somente então entregar a matéria pronta. E olha que isso foi um resumo.

Quanto ao preço do comerciante, precisei ter uma microempresa, estudar mercado para compreender que 80% do valor de custo, no meu caso, era muito para a margem de “lucro”. Isso para pagar a mercadoria seguinte, o aluguel (que era o dobro do recomendado pelo Sebrae), os custos com luz, água, contador, impostos (sem comentários), salário de duas funcionárias, ainda que sócias-proprietárias, para somente então tirar o lucro. E isso também é um resumo.

Quando algo está pronto, parece que já “veio ao mundo” assim. Esquecemos de que o que veio pronto foi a natureza. Ela mesma, processada, colhida, já é trabalho. Quiçá todo este mundo e o que acontece nele: tudo fruto do esforço de alguém. A internet é um mundo… e para cada site, blog  – para falar apenas  do que chega ao vulgo – há milhões de pessoas trabalhando, profissionalmente ou como hobby. Se não fosse aquele esforço, talvez houvesse apenas os sites de lojas e oficiais, e mais nada!

Quando vemos livros em uma livraria, nos esquecemos do trabalho que deu para CADA UM chegar até ali. Eu, que publiquei um sozinha, tive mais noção da falta que faz uma editora para revisar sem estar envolvido na estória, diagramar, elaborar capa, contatar veículos de comunicação a respeito do lançamento, organizar a festa etc. e uma distribuidora.

Mas parece que o que não faz parte do nosso mundinho do dia a dia não existe e até o trabalho diferente que conseguimos aceitar parece bem mais fácil porque vem pronto. Sofro com esta realidade, mas sem perceber, faço isso também…

Além da ignorância do processo de um trabalho alheio, ninguém enxerga as lágrimas que derramamos de medo, antes da empreitada; de medo, depois, quando as coisas ainda não haviam acontecido; de ansiedade; no meu caso, da sensação de fazer algo incomum e não ter o incentivo mínimo – se eu quisesse lutar por uma faculdade ou por um emprego em voga, certamente até patrocínio eu teria, pois competência e seriedade, quem me conhece sabe que tenho. Não é golpe ou comodismo…

(Existem pessoas preguiçosas que se escondem em causas nobres para fugir do esforço? Claro! Na arte, na caridade e até em cargos de chefia. Mas nem todo artista é vagabundo! Aliás, devido ao mau comportamento de alguns indivíduos, pelo julgamento equivocado alheio, toda uma classe leva a má fama! Não apenas na arte, mas em tudo: profissões, religiões, nações etc. E, devido ao fato da Arte não ser aceita como trabalho, o artista que a executa ou luta por ela geralmente  é enquadrado no grupo dos desocupados… ).

Ninguém vê você levantar às 6h20, tomar café da manhã, sair para caminhar – além da importância de uma vida saudável, é neste movimento que as ideias começam a fluir – tomar uma ducha, colocar roupa para lavar e, pontualmente, às 9h, sentar e escrever. Até às 12h. Sem acessar a internet. Há de ser alguém muito disciplinado, do contrário, o ideal é ter emprego fixo, horário, chefe cobrando, vigiando, site bloqueado, compromisso externo, para conseguir seguir horário. E ter muita autoconfiança, pois é tudo uma projeção, uma possibilidade e uma luta solitária, enquanto toda a estrutura do emprego está ali: o prédio, as pessoas, a função, a responsabilidade (claro que dentro desta estrutura é necessário também o uso de autoconfiança e de outras virtudes. A questão aqui não é denegrir o trabalho alheio, mas equilibrar a balança e lembrar do terceiro. Os TRÊS são necessários!).

Ninguém vê que a renda é curta pois, apesar do trabalho diário, é algo ainda não reconhecido pelo meio, então, há coisas que você mesma precisa fazer para economizar. Como o almoço – mas é sem culpa alguma e com muitas saudades que eu confesso amar este momento! Comer, relaxar por meia hora, lavar toda a louça, limpar tudo e, pontualmente, às 14h, voltar a escrever. E parar às 18h só porque há outras coisas a fazer, mas bem que seria possível continuar. Porque, so sorry, é algo que dá prazer! Embora também “trave”, gere angústia quando você não consegue dar continuidade à estória, deixe-o privado de lazer quando envolvido com o texto ou tenha esforço físico para distrubuir pessoalmente os manuscritos, ou prazos com editora, como qualquer trabalho.

Mas ninguém vê que quando você vai a um encontro com amigos, que contam anedotas sobre o chefe e até encontram marido no trabalho ou pelo menos tem a fiel turminha do hapy hour, enquanto você apenas tem a dizer sobre palavras, histórias fictícias, ideais, revisão e, como é um processo lento, raramente tem uma novidade para divertir o grupo. Ninguém quer saber. E você fica de fora e, ainda que sua personalidade não seja assim e isso incomode, passe a ser o “do contra”. Porque você não tem um crachá, não usa uniforme, embora, talvez, leve muito mais a sério seu trabalho que muitos indivíduos empregados que mais querem encontrar uma forma de enganar o patrão e trabalhar menos. (Não me refiro à exploração do “capitalista” sobre o assalariado. Refiro-me a pessoas irresponsáveis. E que não são todos! Por gentileza, não distorçam minhas palavras! 🙂 ).

Ninguém vê quando você não tem com quem conversar sobre a prática da sua atividade, como um médico tem outro médico e um advogado o seu igual, pois não há uma empresa/escritório/hospital que os una: é um trabalho essencialmente solitário (é preciso mais um esforço para obter algo que ja é natural para outros profissionais). Ninguém vê a viagem que todos fazem, os carros que trocam, os itens de última geração que compram e você, por ser humano e também ter aspirações, gostar de um dia poder viver o mesmo. Mas eles poderão em dez vezes sem juros, amanhã mesmo. Você… um dia… talvez…

(Seguir o prazer no trabalho, em muitos casos, ainda tem um custo… Não são apenas flores!).

Ninguém vê as vezes que o texto te “consome” e você fica até altas horas obedecendo a intuição – que pode vir a qualquer hora. Ninguém vê o trabalho técnico de uma revisão, ou a faxina que você realiza, o mato que você corta, o (“finado”) carro que você mesma limpa, a roupa que você lava, pendura, dobra, passa e guarda, a depilação e a unhas que você mesma cuida. Todavia, se fossem serviços terceirizados, até sindicato para todas as funções haveria. Ou seja: é trabalho!!! Mas porque é você mesma quem faz, não tem valor… Você não faz nada, tem tempo livre”: para fazer favores, para dedicar-se a outras atividades em plena luz do dia, para passear quando há alguém de férias… Algo que ninguém pediria a um tabalhador registrado.

Porque, apesar do compromisso, da seriedade, da cobrança interna e da sensação de inadequação ao não estar trabalhando em pleno dia de semana, como todos, a sensação de improdutividade que ficará caso você não cumpra suas metas diárias, de nada vale para quem não conhece este tipo de trabalho, fazendo com que sua vida e seus valores sejam diminuídos e desconsiderados. A ausência de empatia faz com que ninguém nunca pense sob o seu ponto de vista e entenda o mal que faz à autoestima de quem é um sério trabalhador autônomo ser considerado como “à disposição”, “desocupado”.

Quem faz qualquer coisa em casa – aquelas economias dos serviçoes de terceiros (faixneira, manicure, jardineiro, depiladora), donas de casa e até mesmo a nova modalidade de trabalho para serviços intelectuais, chamada de “home office” – “deve passar o dia vendo TV”, pois estar em casa, para o vulgo, é sinônimo de “não fazer nada”. Fazer algo é estar fora. Ainda que mexendo no Facebook com carteira assinada…

E assim, um livro é só um pedacinho de algo que deve ter levado uma semaninha de esforço; ficar sem o carro para investir no sonho não custa nada: nem o valor monetário, nem o mais importante, a liberdade que um automóvel representa, ao te levar aonde você precisa a qualquer hora, chegando trinta segundos mais tarde se você sair de casa trinta segundos mais tarde (diferente de perder o coletivo e esperar horas ou perder o evento), protegendo-te do frio, do calor, de carregar peso, como vez ou outra pesadas compras de mercado…

Quantos esforços ocultos, em todos os tipos de lutas – esta é apenas a minha –  ao redor do mundo?

Ninguém vê a voz que te chama baixinho e constante não ao pé do ouvido, mas no centro da alma, para que não se desista do que foi feito. Que divulgue mais um pouquinho seu livro e escreva os dois outros que já nasceram dentro de você. Ninguém vê as lágrimas que esta voz derrama quando todos à sua volta espalham alegria e aceitação quando você comunica que, finalmente, vai seguir o fluxo. Sorri até mesmo uma parte de você, que, ao contrário do que a maioria pensa, existia, representou grande esforço interno para prosseguir no caminho e havia sido propositalmente calada – a lógica, prática -, que te impede de ligar o computador, há semanas, para este fim, e apenas preenche balanço financeiro, espalha currículo e sente alívio ao ser “igual a todo mundo”.

(Embora, paradoxalmente, esta parte reconheça seu esforço e te convida a ser tão destemida para provar a si mesma que também é possível entrar na “selva” do acirrado mercado de trabalho, quanto foi ao arriscar, ir contra a lógica e acreditar no sonho…).

Ninguém vê o medo de que essa “eu lógica”, que nos dias de microempresária já “imperou” – foi bitolada e workaholic – nunca mais deixe a essência transparecer. Sendo assim, todos sorriem. Porque, como diria o ditado:  “o que os olhos não veem, o coração não sente”…

Fonte imagem: http://eitanamoda.blogspot.com.br/2009/11/o-que-olhos-nao-veem-o-coracao-nao.html

Texto inspirado pelo “frame” feito para o Facebook:

antes e depois

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