“Amado” *

Mulher sentada olhando o mar quadroA janela da sala de jantar, fechada às pressas, protegia o ambiente das gotas que caíam sem cessar.

Era final de tarde, entretanto, ela já usava pijamas. Estava de folga, mas havia trabalho em casa na pilha ao lado. Intacta.

A mente palpitava e o coração não parava de pensar. Tudo em desalinho. Havia alguma coisa errada.

Nem pensar em meditar. Porque era tarde de folga e porque era chuva, fez um chocolate quente, prendeu os cabelos em um coque desgrenhado e deixou a louça sem lavar. Às vezes há coisas mais urgentes, dentro.

A busca pelo CD de relaxamento levou ao álbum da única música daquela época que, esquecida, ainda não havia sido esgotada ou mesmo substituída. Só porque ela havia encarado seus medos e saído vitoriosa, lembrou-se com surpresa da única foto não rasgada, escondida no fundo de uma carteira já guardada.

O som deslizava aos ouvidos à medida que os olhos percorriam aquela imagem, a única, tão visitada, admirada. Ausência de reconhecimento. E lágrimas.

Lágrimas? Sim, poucas e contidas, porém, ainda o impacto da hecatombe à qual sobrevivera. A dor – que de tão fraca e cicatrizada seria quase gostosa – não mais pela pessoa que partira, e sim pelo elo que se formaria. E não se fez.

Para onde vão os “nós” que se desfazem ou que poderiam ter sido? Se “remisturam-se” ao nosso todo, formando quem somos agora, vez ou outra afloram, lembrando o que eram. Se desprendem-se de nós e são guardados em uma “caixa do sentimento”, como ela pensava quando menina, vez ou outra nos fazem uma visita.

Quando é cedo, voltam e nos atormentam. Quando já superados, apenas nos testam e colocam sua natureza para fora. Um amor não vivido traz as lágrimas por tudo de bom que poderia ter sido. Somente quando puro e realmente marca. E este tinha sido.

Contraditório, todavia, olhar aquela imagem manchada – certamente das abundantes lágrimas de outrora – e lembrar apenas com a memória o impacto que ela fazia. Ter outras fotos para olhar e perceber que eram elas que, de fato, a atraíam. Que, além das músicas novas e das antigas que antes da história de amor, eram dela (cujos cabelos desgrenhados caíam) e haviam sido apenas transferidas, até esta música, tão específica, também se fora. Para o todo que ela, a de pijamas, era, ou para a caixinha de sentimentos terminados, que em algum lugar do espaço jazia.

Qual a diferença entre esperar o tempo certo das coisas, deixar tudo ocorrer naturalmente, ou não ter atitude e perder (outra vez!) as oportunidades? Se a vida havia guiado a moça para aquela história do passado, como ela simplesmente poderia não ter acontecido (e, assim, como confiar novamente)? Como pode ser tão bonita a ponto de aceitar ficar guardada para deixar brotar outra, se for para ser útil e mesmo igualmente bela?

E o mais curioso é reconhecer que podemos estar com outra pessoa de corpo e alma, contudo, ainda assim, somos todos esta mistura.

Nem em uma vida inteira, ela dizia, conseguiria entender. E por mais emocional e ansiosa que estivesse, por já ter sofrido e aprendido, resolveu discordar de sua teimosia e fazer tudo diferente.

Com o chocolate quente em punho, o pijama confortável e o coque desgrenhado novamente montado, deixou as histórias no passado e no futuro, em seu tempo cada uma, e, já de noite, lá de cima, olhou os carros passarem não tão rápido, perdeu-se nas expectativas ou esperanças que sempre ocorrem quando observamos as luzes de uma cidade grande, decidindo buscar uma nova dieta, escovar os dentes, ouvir música agradável  e adiantar o trabalho. O melhor que podia fazer por ela (sua única companhia constante), agora.

* – O título deste texto é inspirado na música de Vanessa da Mata, “Amado”.

Fonte imagem: euindoevindo.blogspot.com

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Orgulho de Ser Brasileira*

 

bandeira brasil

“As coisas nem sempre são como a gente quer”. Ontem 200 milhões de pessoas foram contrariadas, dentro de sua própria casa. E hoje, ainda por cima, a “visita indesejada” conta vantagem. Só falta vencer o mundial. Pois é, difícil de engolir…

Acostumados a ter uma estrutura de vida precária, o brasileiro coloca toda sua energia onde consegue (conseguia) ser sublime: no esporte.

Acontece que tudo o que sobe, desce; tudo muda; ciclos têm seu fim, cada um deve ter a sua vez e por aí, vai. A hegemonia do Brasil no futebol, por enquanto, acabou. Não em essência (não perco a fé), mas em momento (ter fé não significa ausência de lucidez).

As derrotas fazem parte da vida, embora nós, “crianças mimadas” quando o assunto é este esporte, não estávamos assim tão acostumados a sair da mansão de mármore e “dormir na rua”. No máximo, mudar para uma confortável moradia em condomínio fechado de classe média, com pelo menos uma empregada. Acontece que o pior, infelizmente, aconteceu: perdemos de lavada. Pior que uma pelada. Saímos da Copa. Não faremos a festa em nossa casa. Ficamos sem teto da alegria nacional.

Apesar do absurdo, do grosseiro, a aceitação é começo do fim de sofrimentos: perdemos. É preciso saber perder. Pois isso é saber viver. Amadurecer.

Quem me conhece, sabe que eu sou sensível e uma mulher cor-de-rosa. Contudo, quando o assunto é futebol da seleção – sou corinthiana por osmose, mal acompanho, só a cada quatro anos me transformo – meu lado masculino aflora e eu lembro da música da Maria Rita: “sou mais macho que muito homem”. Nem eu me reconheço, eu realmente vivo a competição. Por alguns momentos, naquele turbilhão de emoções, parece que o esporte é tudo.

Minha reação no jogo Brasil x Alemanha, ontem, foi xingar e falar alguns palavrões, mesmo em público. E ficar com raiva do “inimigo”. Claro, com aquele conjunto de gols, com o tempo, fui obrigada a reconhecer a decência e competência da seleção alemã e fui praticando a arte de perder. Ri da desgraça para conter as lágrimas, reconheci a falha. Todavia, nunca, jamais, voltei-me contra os meus.

Nossa seleção errou? SIM! E muito! Não estou passando a mão na cabeça nem dizendo que é normal. Aquilo foi um filme de terror no formato bola. Contudo, deixo as reflexões táticas e técnicas, extremamente pertinentes, para quem entende de esporte. Eu entendo de gente.

Sai o esporte e entra a vida do indivíduo. E em nosso dia-a-dia, a reação saudável em um convívio afetivo é estar ao lado “na alegria e na tristeza”, não apenas quando nos convém. Se, quando estivermos infelizes por nós mesmos, depositarmos nos próximo o pesado fardo da nossa felicidade, estaremos criando expectativas e frustrando-nos diariamente. Então, é assim: quando não mais agradar, abandonaremos o outro? “Um campeão se mostra na derrota”, diz a frase. Espero que joguem de cabeça erguida. E nós? Que tipo de plateia somos: aquela que apenas considera o título, ou a que valoriza a superação, o recomeço?

Torcedores, vamos discutir a relação: é justo torcer e dar apoio moral, somente quando o time vai bem? Brasileiros, pensemos: nosso país tem tantos problemas de vida real que o futebol virou a válvula de escape. Aí, quando este falha, como um vulcão regurgitando, surgem a decepção, raiva, a revolta. E o abandono à nossa seleção. Que, no fundo, é apenas o abandono que já praticamos há tanto tempo, a nós mesmos, porque depositamos num time a responsabilidade de fazer plenamente feliz uma nação.

Por que devemos comemorar muito o terceiro lugar, se vier? Porque, para nós, é só um jogo e nossa vida, mesmo, segue normalmente. Coloquemos os valores em real escala. Para eles, contudo, é a carreira, é o que fazem, é um mal momento da vida; e porque, se eles ganharem, mostrarão com fatos, ainda que esportivos, a capacidade que o ser humano tem de não desistir e de se refazer. Se um dia nos deram tanto, ao longo dos anos, que tal a retribuição? Aí, seria demonstrada também a força da união.

Penso que esta catástrofe no entretenimento de competição, dedicação e superação, da qual eu ainda não me recuperei (confesso), aconteceu como instrumento de uma mudança para o bem. Tal qual aqueles choques que muitas vezes acontecem individualmente, nas histórias mundo afora, para fazer o indivíduo crescer: estamos, por ora, sem o nosso futebol. O que restou? Corrupção extirpando cada possibilidade de dignidade, de respeito, de estruturada de vida, de civilidade; desorganização, burocracia e “jeitinho” atrasando o pouco que conseguimos; cidadãos sem educação, manipuláveis e anestesiados por qualquer festa que exista. Fome, miséria, mortes injustas, violência, sufoco, desespero, dor. Etc.

Estas são as nossas feridas, nosso vício social. Tal qual um viciado comum, só se educa um vício aceitando-o, entendendo-o e contornando-o. Falar de tudo o que sofremos com esta linha de pensamento é necessário. O que não suporto é a crítica destrutiva, o deboche/desdém e o pessimismo.

Porque coisas boas e ruins existem em todos os lugares de mundo, em qualquer categoria: em todos os países, em todas as profissões, em todas as religiões etc. E só se transforma o mal em bem quando se alimenta do que é bom e se reconhece o que é mal. Olhar o mal e anular o bem apenas eleva o mal. Faz o mal não apenas quem o pratica, mas aquele que envenena a chance de bem ao esfacelar perseveranças, esperanças e esforços com pensamentos e palavras negativas.

E nós, apesar deste sofrimento de vida estrutural, temos não apenas um país de belas paisagens, sem muitos transtornos climáticos e infinitos recursos naturais (dignos de abastecer o mundo): temos esta riqueza humana, esta força, esta união, este élan que nos une, talvez em um primeiro momento da evolução social brasileira, pelo futebol, algo que exige bem menos esforços e tempo para ser bem-sucedido e gerar frutos (apenas algumas décadas) mas que, uma vez com dificuldades sérias, talvez nos desperte para uma causa mais cotidiana, profunda e de resultados lentos (séculos), que exige esforço de todos: o respeito por esta terra que nos abriga, por este povo irmão de lutas, que nos acompanha.

Está na hora de sermos dignos de amadurecermos nossa cidadania e usarmos o sentimento de patriotismo, que tanto já experimentamos, porém, não mais para extravasar apenas no formato de paixão nacional, e sim, cada um não mais torcedor, mas cidadão, repensar seu voto, sua vida social e demonstrar toda esta energia no tímido, contudo, verdadeiro, amor pela nação!

No próximo sábado eu vou vestir o verde e o amarelo, vou continuar reunindo os amigos e vou estar com eles – jogadores – para o que der e vier. Afinal, sou muito mais “onze” vencedores que 200 milhões de perdedores. E, movida não apenas pela minha consciência, mas também pelo choque sofrido ontem, despertarei para a importância de cantar o hino com uma só voz, de abraçar alguém só porque veste as mesmas cores ao sentir-me parte de um todo – e um todo tão bonito! -, pesquisando mais sobre meus candidatos, debatendo para angariar idéias – não impor opinião – e realmente votando de forma consciente, a fim de que vençam aqueles que, de fato, vão trabalhar melhor na tática do time, estabelecer uma excelente defesa, fazer uma goleada e trazer não o hexa, ainda, mas o primeiro título no quesito “dignidade brasileira” para nossa população!

 

Seleção Brasileira 2014

Nossos guerreiros do esporte

 

 

 

 

 

 

 

Nossa torcida

Nossa torcida. Guerreiros de outros esportes, saúde, faxina, transporte, arte, finanças, leis, serviços, fábricas etc.

 

 

 

 

 

 

 

 

O símbolo maior de nossas belezas naturais, presentes até na cidade. Nosso paraíso.

O símbolo maior de nossas belezas naturais, presentes até na cidade. Nosso paraíso.

 

 

 

 

 

 

 

 

* – O título deste texto é uma frase comum, contudo, recomendo a procura pelo documentário homônimo de um grande colega de profissão (jornalismo), Adalberto Piotto:

site: http://orgulhodoc.com.br/

Fonte das imagens: google