“SUS = Suicídio Única Saída”

recepcao hospital

Hoje eu acordei um pouco mais cedo. Ao invés de preparar o café da manhã e criar ânimo para enfrentar o dia, apenas tomei banho, peguei meu carro e dirigi-me ao laboratório, onde peguei a minha senha, não sem antes receber um sorriso da recepcionista. Em temperatura ambiente, proporcionada pelo ar condicionado, música clássica ao fundo, bem baixinha, eu mal conseguia ler o meu livro, de tanto apreciar os quadros de flores e paisagens suaves ou observar os agradáveis tons pastéis das paredes, excelentes para acalmar quem precisa passar por qualquer tipo de procedimento relacionado à saúde.

Primeiro de abril…

Acordei uma hora e meia mais cedo do que o normal, já que não tenho carro e o local do meu exame é mais longe ainda do meu local de trabalho. Em jejum desde às 18h15 de ontem – depois deste horário ainda poderia comer, mas estava dando aula -, não pude me dar ao luxo nem de tomar o remédio para controlar a dor de estômago, nem de tomar café da manhã. Havia exame de sangue para fazer.

Para ver como reclamamos da vida e não sabemos o quão boa ela já é conosco, nem o direito de esvaziar em paz o meu sistema eu tive: precisei preencher dois potinhos com meus dejetos, sendo eu tão ruim de pontaria. Pelo menos o banho, eu tomei. E saí.

Com o pé esquerdo sem conseguir dobrar e/ou pisar no chão – sim, está assim desde fevereiro e, de vez em quando, agora eu manco – arrastei meu corpo cansado e faminto até o postinho de saúde mais próximo da minha casa.

Chegando lá, reparei que desta vez a luz do hall de entrada ao menos estava acesa, ao contrário de dez dias atrás, quando eu fui ao médico. Pausa: eu havia ido ao médico não tratar de algum problema, apenas respeitar um procedimento extremamente burro do nosso sistema de saúde. Certamente porque a maioria da população não sabe que para cuidar do coração você precisa de um “cardiologista” ou dos olhos, de um “oftalmologista” (ou, talvez, para pagar menos funcionários, não sei), eles nos obrigam a passar por um clínico geral para fazer uma “triagem”. Bem diferente dos tempos em que eu apenas sacava o telefone fixo, consultava a lista de médicos do convênio, escolhia um nome e marcava a consulta.

Não satisfeitos em me fazer faltar ao trabalho à toa, o SUS ainda maltrata o cidadão: em vez de cada um chegar no seu horário marcado para a consulta (como ocorre com o tratamento particular), todos os corpos (não são seres humanos, apenas pedaços de carne da qual eles precisam se libertar e resolver, para preencher estatísticas) são obrigados a pegar, claro, uma fila (não seria brasileiro se não houvesse uma fila!), em pé (teoricamente, há doentes ali!!!!) e esperar a sua vez, onde há limite de atendimento: somente até 7h. Ou seja: o atendimento ocorre das sete ao meio-dia. Se você chegar sete em ponto e for o último da fila, vai esperar até meio-dia como quem chegou seis e meia (sabe-se lá Deus a que horas este infeliz precisou sair de casa, que nem sempre fica perto) e será atendido por volta de oito. Sem bolachinha, sem chá, sem café ou ao menos uma lanchonete… Super digno!

Se você quiser perguntar onde retirar um exame, ou passar mesmo pelo procedimento, pega a fila. Não há ninguém para te orientar, informar nada. A não ser que você fure a linha…

Após a fila, você é encaminhado a um corredor – não é uma sala, mas um corredor escuro – e espera sentado. Se houver lugar. Porque é lotaaaaaaado. E cuidado com o barulho, com as pessoas sem educação ouvindo som alto na “sala de espera”: eles gritam, na verdade, apesar da quantidade de gente, apenas falam mais alto o seu nome. Não há visor com senha, como nos bancos, correios, ou qualquer indício de que você já viva no século XXI.

As paredes são pintadas de cinza.

Eu mergulhei no meu livro. Nele havia um lago e o verde das árvores.

Logo me chamam e eu entro em uma sala. Pergunto se posso fechar a porta, e a mulher, que eu julgava ser a minha médica, é a enfermeira e eu, tolinha, me recordei da outra vez em que precisei usar o SUS, há dois anos, e fui literalmente estuprada pela ginecologista cavala e seu instrumento de trabalho: quem faz todas as perguntas, para quem você relata a maioria dos seus problemas é a enfermeira, e não o/a médico/a. E a sala da enfermeira é aberta, você relata suas intimidades (como naquela horrenda consulta ginecológica) para outros cidadãos, que não têm compromisso algum com o código de ética ou com o sigilo do que é dito em uma consulta médica. Respondendo a minha própria pergunta: claro que a porta permaneceria aberta!

Desta vez eram apenas dores um pouco mais externas, nada muito humilhante. Ainda assim, preferiria relatar a quem vai cuidar de mim diretamente. E eu ouvi dizer que estão querendo humanizar os médicos… (Embora eu não tenha queixas desta médica específica, o sistema que é completamente falho).

Eu contei tudo de novo para ela. Dane-se o tempo. Eu esperei e quero a minha “consulta” – que, mesmo assim, não passou de dez minutos. Ao final da “consulta” para, no meu caso, me dizer o óbvio, eu saio com um monte de papéis nas mãos e volto ao mesmo balcão da entrada. Ouço do funcionário que me atendera, sem me olhar direito, e sem sorrir, o comentário sarcástico: “Check-up geral, hein?”. No que eu, ainda acionando a última gota do lado Pollyana que há em mim, convicta de que sou perdedora para a lei injusta e egoísta dos homens, mas estou crescendo como alma, aos olhos de Deus, e respondo, simpática e sorrindo: “Pois é, faz um tempo que não me cuido”.

Ele me informou que no período de um mês o Posto me liga para marcar os exames.

Como é que é? Quer dizer que, além de eu ficar com este problema em suspenso, apesar de ter mexido na minha atribulada rotina para resolvê-lo, terei que ficar tensa por um mês, grudada no celular, com medo de desligá-lo em horário de trabalho, e perder a consulta ou o exame que eu ralei tanto para ter? E quanto custa cada ligação? Não é mais fácil eu mesma ligar, uma secretária me atender e eu marcar? Meus impostos são gastos para deixar as pessoas tensas, é isso?

Saindo da “pausa” e voltando a hoje: o que eu não me lembrava é que, no final daquele dia, minutos após o comentário sarcástico, ele me devolveu dois dos muitos papéis, e agora eu os esquecera em casa.

Além de ter perdido os quase dez minutos no balcão errado com o mesmo funcionário que mal me olhava há dez dias, o qual, hoje, descaradamente, me ignorava, pegando pronturários e eu precisar deste tempo perdido para descobrir que eu deveria mesmo ter estado em outra mesa, após mais uns quinze minutos de espera, de ter idosos e crianças passados na frente (o que é correto, mas as crianças deste caso já eram bem crescidas e certamente a mãe era dona de casa, então, não sofriam a pressão do horário para entrar no trabalho que eu sofro, e onde eu ainda ficaria por doze horas), descobri que eu havia esquecido o pedido em casa.

Perguntei se não podia tirar o sangue, para não perder o lugar na fila, e deixar as amostras colhidas pela manhã, e eu traria o papel depois. Não foi possível.

Eu sei que é difícil lidar com exceções à regra. Eu sei que há muita gente, que o sistema está lotado. Mas o fato é que certamente havia tudo escrito no meu prontuário e, se havia a necessidade de ter um papel para o envio do exame ao laboratório, por que não me deixar fazer a coleta de sangue enquanto eu podia, me deixar tomar um café da manhã, conseguir chegar no horário no trabalho e depois, no almoço, eu me comprometeria a levar a porcaria do papel, condição pela qual meu exame não seria enviado ao laboratório se eu falhasse?

Se eu fosse cliente de um ambiente particular, certamente haveria possibilidade desta gentileza. Porque há o medo da concorrência, ou, ao menos, porque não está assim tão atolado de trabalho a ponto de não poder fazer uso da sensibilidade e ou bom senso e abrir uma exceção a regra. Regras são criadas para educar pessoas folgadas ou imaturas, não para prejudicar quem não se encaixa no rótulo da situação, mas está de acordo com a essência.

Ainda que hoje o erro tenha sido meu em esquecer o papel, situações onde o paciente tem razão sofrem o mesmo descaso que eu, que, por causa da burocracia, de um mísero pedaço de papel, não realizei meu exame.

Por isso sou contra a queda bruta do capitalismo, de um ano para o outro, num golpe: ele é injusto, mas as pessoas ainda precisam dele para terem motivação. Explique à população que andar de cinto de segurança salva a própria vida ou pode te tornar um assassino, já que em determinada velocidade, o corpo, no impacto, é lançado à frente como um projétil com o peso de uma tonelada, esmagando quem está na frente. É o mesmo que falar com a tecla “mudo” ativa. No entanto, cobre uma multa e desconte pontos na carteira, como nós, professores de crianças, fazemos com os aluninhos: a maioria respeita.

Ameace o emprego de uma pessoa com um profissional melhor preparado ou de toda uma empresa com uma concorrente, estabeleça metas e fale em lucros: não faltará empenho, eficiência e simpatia. E, assim, com a prosperidade, com dinheiro em caixa, fica até possível fazer uma sala de jogos para o funcionário ou agraciá-lo com benefícios, o que, claro, será refletido na produtividade. Na satisfação dos clientes. Contudo, diga a eles que só serão mandados embora em caso de corrupção, faltas, abandono de emprego e etc. Otários passam necessidades básicas sem serem ouvidos. Pessoas não apenas ficam em jejum sem exame, mas morrem nas filas. Ou têm uma cadeira esquecida com a enfermeira dentro da barriga após uma cirurgia.

(Deixando bem claro que me refiro à regra geral, sei que há excelentes funcionários públicos – eu mesma conheço alguns, assim como já tive contato com pessoas da iniciativa privada que não fazem jus ao cartão de ponto).

Claro que eu compreendo o lado do funcionário que me atendeu, que já deve ter visto de tudo um pouco e que também não deve ganhar lá tanto assim a ponto de superar o mínimo necessário. Não deve ser fácil lidar com um público não selecionado e, ainda por cima, doente (embora lidar com pessoas de dinheiro também não seja muito fácil devido à arrogância). Não estou escrevendo contra ele, mas contra o sistema do qual ele também é uma vítima.

Enquanto os homens forem egoístas e mesquinhos por dentro, precisarão do combustível que alimente sua vaidade e ambição (aquela desvairada, não a saudável). Dinheiro. Enquanto este estiver garantido, se o capitalismo cair como num golpe, não apenas hospitais, escolas e órgãos burocráticos, mas tudo, será cinza, sem sorrisos, desumano e ineficiente.

Vi-me diante de um retrocesso, uma situação deprimente. Vi pais com crianças com rostos tão sofridos, muitas vezes não conscientes do quanto são maltratados. Concluí, pela manhã, saindo do Posto direto para a padaria, a fim de tomar um café de rainha, que com este nosso sistema nacional de saúde (meu município nem é dos piores da região e a Prefeitura atual tem feito muuuuitas coisas decentes por esta cidade, sei que há tempo e verba para melhorar tudo cem por cento) mais se cultiva a doença. No Brasil, ou se tem dinheiro para um bom plano ou mesmo para particulares, pois até os planos estão mesquinhos, ou se descobre à base da terapia de choque que, na verdade, tudo está na mente, a força que têm os nossos pensamentos e que todos podemos curar a nós mesmos pela fé, se quisermos ser saudáveis. E praticar, para fugir desta teia depressiva e incompetente.

Enquanto eu escrevia este texto, recebi por e-mail a mensagem da Prefeitura, para a qual escrevi, relatando o inconveniente. Eles me informaram que a proposta desta gestão é adequar todos os postos de saúde ao conceito de saúde da OMS, que é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”, reconhecendo que o ambiente em torno, a estrutura, a humanização no tratamento e não apenas o exame ou consulta em si refletem na saúde dos atendidos. E que meu exame será feito em um novo dia a minha escolha, respeitando meu horário de trabalho e passando na frente só quem for idoso ou criança que esteja emergencialmente doente. E que, de forma pioneira, vão tomar a iniciativa e estão mesmo repensando no modo desumano de agendar as consultas. Que vale muito mais a pena gastar impostos pagando secretários para os setores de exames que em ligações telefônicas. Eu senti-me acolhida, amparada.

Primeiro de abril!

Fonte imagem: http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://www.maededeus.com.br/2010/Files/INST_Imagem/915_Recep%2525C3%2525A7%2525C3%2525A3o%252520Central%2525203%252520-%252520Acesso%2525202.jpg&imgrefurl=http://www.maededeus.com.br/2010/institucional/Sala-Imprensa.aspx&h=3188&w=5000&tbnid=1zT88SihHSofTM:&zoom=1&docid=lMqJ9XZMl5397M&ei=vkAcVaL2FIWgNsTNgKAN&tbm=isch&ved=0CB8QMygEMAQ

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3 thoughts on ““SUS = Suicídio Única Saída”

  1. Strider diz:

    Só uma palavra pra isso tudo: revoltante!

    Esse país tem tanto potencial, tanto… Mas nada ajuda. No fim, a vdd é q nossa sociedade está toda errada. O jeito é se mudar pra Dinamarca ou Suécia. O único preço a se pagar é passar frio rs.

  2. Rodrigo schneider diz:

    Este post é extremamente preconceituoso e egoísta. O sistema de saúde público muitas vezes nos coloca em situações degradantes e humilhantes. Mas seu relato, muito mais do que uma crítica ao sistema, é uma tentativa de colocar as suas vontades acima das regras (que são para TODOS) e humilhar quem age corretamente. Se você já teve acesso a um laboratório chique e não tem mais, não pise em quem só tem a essa realidade… Muito triste de saber que existem pessoas como você, que ainda usam o nome de Deus em um texto prepotente como esse.

    • Não estou defendendo o passar acima da vontade dos outros. O que eu propus foi bem sensato: eu levaria o papel depois ou, pelo menos, não perderia a vez e voltaria mais tarde e, se eu não voltasse, eu é que perderia. Nenhum funcionário precisaria se prejudicar ou burlar o sistema por minha causa. Um coisa é “jeitinho”, outra, bom senso.
      Existe uma coisa em textos chamada “entrelinhas”, a mensagem que não está óbvia. Quem tem sensibilidade/sabedoria enxerga o que o texto quis dizer. Os outros, apenas “calculam” as palavras explícitas.
      O que eu quis foi desabafar quanto à diferença de realidades que eu passei na pele e fazer refletir como a sistema público pode ser melhor.
      Se você teve outra experiência com o SUS, ótimo, eu mesma já tive melhores aqui mesmo nesta cidade, em outro posto, mas na época não escrevi por motivos variados.
      Quem é você para me julgar? O que você sabe da minha vida e do que eu tenho passado? Saiba que quem me conhece não acha triste que eu exista, pois admiram pessoas como eu. É ofensivo ouvir algo assim a seu respeito.
      Uma vez eu era criança e vi um homem numa cadeira de rodas. Eu não sabia a razão pela qual ele estava lá e disse que queria um carrinho como o dele. Ele ouviu, minha mãe, sem graça, pediu desculpas, e ele me falou, sorrindo e passando a mão na minha cabeça: “Espero que você nunca precise passar por isso, querida. Eu não estou aqui porque quero”.
      Espero que você, Rodrigo schinder, não precise passar pelo que eu estou passando para entender a minha mensagem e o faça antes, por inteligência, não por dor.

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