Aniversário de Morte

mar 1

“Uma mãe nunca deveria enterrar seu filho”. Concordo! Entretanto, esta semana, não apenas minha avó chorava em cima do meu tio: “Meu filho, que dor, no mesmo dia em que Deus me deu você, Deus me tirou”, quanto ele foi o melhor presente de aniversário que esta mãe já teve: seu primogênito. Vai ser difícil querer comemorar outra vez o dia em que ela veio ao mundo…

“A morte é a única certeza da vida”. Certamente. Faz parte de sua dinâmica natural. Todavia, nos abate, nos choca, desola. Atropela. A cada tempo e espaço os grupos constroem hábitos e culturas, entretanto, há certas leis naturais que são comuns a todos os povos, em todos os tempos: fenômenos naturais, nascimentos, doenças, lições de vida, morte… Aquilo que o Homem constrói também contribui para seu próprio crescimento, contudo, em nossa constante inabilidade em encontrar um ponto de equilíbrio, apesar de a própria ciência já explicar que todo nosso corpo busca o meio termo (assim como em breve explicará a mesma necessidade na alma), é comum pendermos para o “lado de cá”. Esquecemos que há uma lei maior, algo que não de todo conhecemos e, quando este “todo” se reapresenta, ficamos momentânea ou permanentemente “acordados”.

“Coitado, era tão bom”, dizem quase sempre sobre um corpo inerte. Retirando a hipocrisia de alguns neste ato, há aqueles que desacreditam nesta postura e, dos sinceros, tiram sarro. Isso é mesmo piegas? É a pessoa que, ao morrer, magicamente vira santa?

Afirmativamente, não.  Mas o nosso “lado santo” que fica iluminado. Porque saímos do torpor do modus operandi deste mundo e dos constantes problemas de agora, para a realidade da alma…

Na origem de tudo, de âmago de cada um, não existe espaço para orgulho, indiferença, raiva, rancor, desprezo, desonestidade, traição, intrigas. Ou, pelo menos, para os já mais libertos das más inclinações de forma geral, existe o desequilíbrio da razão que faz frios por praticidade, não por falta de amor, aqueles que muitas vezes não suprem as necessidades da sociedade moderna e, máquina de cumprir tarefas que são, nunca têm tempo para enviar um cartão, fazer uma visita ou mesmo uma simples mensagem pelo smartphone.

É esta lei natural que nos tira da ilusão momentânea da vida material humana e nos recorda o que realmente importa. E, nesta hora a dor é tão íntima, instintiva e intensa que a barreira que separa as escolhas são milimétricas, dentro de um buraco infinito. Ou você volta para ou passa a acreditar em Deus, reconhecendo que, por mais que o Homem tente fugir e se enganar considerando-se maior que o Universo, há coisas que ele mesmo não controla, estando este submetido a uma vontade maior, a uma lógica da vida e, assim, com fé ou desespero, implora que este “algo maior” seja bom e cuide daquele que se foi com o mesmo amor que você gostaria de cuidar neste exato momento; ou você deixa a dor vencer a queda de braço e se revolta ou desacredita em Deus. Não existe alívio pleno, somente a melhor escolha. Uma dor te acompanha, a outra, devora.

Embora estivesse com as malas prontas, não tive tempo de me despedir do meu tio. Ele foi embora do corpo ainda de noite. No dia seguinte bem cedo, toda a família pegou um congestionamento monstro na entrada de São Paulo e um medo voraz de não vê-lo pela última vez tomou conta de mim. Desespero indescritível.

Por outro lado, mal sabia eu que tentar chegar era tão melhor, pois conseguia me distrair. Eu tinha uma meta. Quando pisei no cemitério, desabei: só havia a perda.

Consegui, enfim, dizer o Adeus. Vi a terra cobrindo o caixão e apenas assenti, como se aceitasse que a partir dali, não podemos mesmo fazer nada. Como ele mesmo disse certa vez, “agora temos que enfrentar”.

O dia em que meu tio foi enterrado estava paradoxalmente lindo. Como o padre que eu não ouvi, falou, que todos acalmassem o coração e vissem aquele dia não como o aniversário e a morte dele, mas um novo aniversário: o do recomeço na vida espiritual. Um dia lindo!

Voltei para casa a fim de não atrapalhar os que sofriam, cumpri meu dever final no trabalho (que violência, eu mal conseguia me concentrar até “pegar no tranco”) até que a esperança de reunir todos apareceu. Foi lindo. Juntos, nos demos mais força, ainda que isso não tenha sido declarado oficialmente. Juntos, até ríamos. Lembrávamos dele. Juntos, não apenas tínhamos uns aos outros, como todos tínhamos em cada um de nós um pouco mais dele…

Na dor das cinzas desta vida, a união da nossa família renasceu. Sentimos necessidade uns dos outros. Dizemos o quanto nos amamos. Eu queria que ele soubesse o quanto eu o amo. Eu queria que ele soubesse como eu me sentiria se um dia como este acontecesse. Queria ter dito com todas as letras, não deixado implícito. Por isso, não deixo mais de dizer aos outros…

Ao fim do encontro com toda a família e no dia seguinte, todavia, a cada um de quem nos despedíamos que ia, parece que o sofrimento ficava mais forte… Porém, era a vida, que seguia…

Meu tio me salvou de um falso incêndio; não me deu uma bronca merecida quando minha irmã e eu apenas perdemos o último ônibus na noite de férias numa cidade litorânea, o que para minha vó e para ele pareceu um sumiço; me ensinou a pescar, embora eu não seja lá tão boa; sempre me deu atenção, me viu crescer; trabalhou muito; gostava do Corinthians; amava pescar, ir para a praia, assim como eu. Era simples, discreto. Forte. Amava os filhos acima de tudo. Ama!

Certamente tem também os defeitos. Todos os temos, ninguém é perfeito, como dizemos. O que ocorre, como já disse, não é um floreamento ou hipocrisia, quando a pessoa não é hipócrita: mas uma necessidade inconsciente de voltar às origens de nós mesmos, ao cerne da consciência e da alma. O equilíbrio respira amor, perdão, esperança, paz. Não há mais espaço para transtornos. Brigas. Mágoas. Nem culpas. Reflexões, nunca culpa. Porque a verdade da vida é grandiosa demais para mágoas, imperfeições e mesquinharias. O amor é o que impera. Ele é a verdadeira realidade da vida. Todo o resto é acessório, é meio para desenvolver outras habilidades e encontrá-lo. E a morte é parte do processo do ato de existir. Não apenas um fardo que assola a humanidade, mas a prova do fato de que estamos nesta Terra de passagem. Necessário se faz honrá-la. Afinal, o que virá após dela?

A morte não é o fim, mas o começo. A continuidade para quem vai, o “fazer diferente” – seja por mudança nas circunstâncias, seja por amadurecimento – para quem fica.

Apesar de falar de sentimentos genéricos com relação à morte e ser direcionado a qualquer pessoa que queira refletir, este texto é carinhosamente dedicado a Antônio Teixeira Lopes Filho, meu tio Toninho. O amado filho da Elza (e do Antônio, que deve estar com ele!). O querido irmão da Beth, do Beto, da Elzinha e do Marcelo. O adorado pai da Paula e do Guilherme. Saudoso ex-marido da Elisete. O estimado tio da Carlinha, da Tatá, da Gabi, do Lucas e da Marcela. O breve “titio” avô da Carolina, que insiste em mandar beijinhos para o céu. O prezado cunhado do Roberto e da Soraia. O amigo querido de todos seus amigos.

Obrigada, tio, por sua presença! Obrigada por ter estado em nossas vidas! Somos nós que pedimos, assim que possível, que nos honre e ilumine com sua visita!

Minha vó me deu um café que era para ser seu, que você gostava, igual ao que eu já comprava. A cada xícara estarei vendo-o em seu chapéu verde e vara de pescar, na beira da nossa praia. Eu o honrarei não apenas por mais ou menos um mês, esperando o pó acabar, mas conhecendo ao menos o nome do técnico do Corinthians, eu, a corinthiana desnaturada que sou (rs) – somos Hexa, né?;  fazendo o que for possível para acalmar e ajudar quem ficou;  demonstrando a eles o amor que eu queria ter feito você conhecer com mais evidência.

Você segue na sua nova vida, passando pelo processo de adaptação necessário para voltar a ser pleno, a ter consciência de si. Nós vamos cumprindo um dia a cada dia, a fim de ter forças para prosseguir.

Neste instante em que escrevo acontecia sua missa. Após fazer uma oração simultânea, esta foi a minha forma de homenagear você, fazendo o que eu faço com o fundo do meu coração, o que move a minha vida: criando.

Não vejo a hora de abrir aquele cafezinho. Porque outra forma de honrar você é, no seu devido tempo, sair da dor e ter uma história linda. Porque a morte nada mais é que um incentivo no sentido contrário para a compreensão da importância da vida. E a sua também continua. Preciso, assim como todos, te deixar tranqüilo e orgulhoso, e cuidar bem da minha!

Eu sei que em uma dessas xícaras você estará geograficamente comigo, ainda que invisível. Mas, certamente, não imperceptível. Neste dia eu vou te contar, ou você vai sentir, que, quando cheguei da segunda viagem,  com um ar solene e respeitoso, guardei o café do Ponto Exportação de 500g na geladeira, esperando por este momento. Não sem antes, confesso, abraçar e beijar interruptamente o pacote, umas quatro vezes, com muito carinho!

Imagem mar: google

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