“Amado” *

Mulher sentada olhando o mar quadroA janela da sala de jantar, fechada às pressas, protegia o ambiente das gotas que caíam sem cessar.

Era final de tarde, entretanto, ela já usava pijamas. Estava de folga, mas havia trabalho em casa na pilha ao lado. Intacta.

A mente palpitava e o coração não parava de pensar. Tudo em desalinho. Havia alguma coisa errada.

Nem pensar em meditar. Porque era tarde de folga e porque era chuva, fez um chocolate quente, prendeu os cabelos em um coque desgrenhado e deixou a louça sem lavar. Às vezes há coisas mais urgentes, dentro.

A busca pelo CD de relaxamento levou ao álbum da única música daquela época que, esquecida, ainda não havia sido esgotada ou mesmo substituída. Só porque ela havia encarado seus medos e saído vitoriosa, lembrou-se com surpresa da única foto não rasgada, escondida no fundo de uma carteira já guardada.

O som deslizava aos ouvidos à medida que os olhos percorriam aquela imagem, a única, tão visitada, admirada. Ausência de reconhecimento. E lágrimas.

Lágrimas? Sim, poucas e contidas, porém, ainda o impacto da hecatombe à qual sobrevivera. A dor – que de tão fraca e cicatrizada seria quase gostosa – não mais pela pessoa que partira, e sim pelo elo que se formaria. E não se fez.

Para onde vão os “nós” que se desfazem ou que poderiam ter sido? Se “remisturam-se” ao nosso todo, formando quem somos agora, vez ou outra afloram, lembrando o que eram. Se desprendem-se de nós e são guardados em uma “caixa do sentimento”, como ela pensava quando menina, vez ou outra nos fazem uma visita.

Quando é cedo, voltam e nos atormentam. Quando já superados, apenas nos testam e colocam sua natureza para fora. Um amor não vivido traz as lágrimas por tudo de bom que poderia ter sido. Somente quando puro e realmente marca. E este tinha sido.

Contraditório, todavia, olhar aquela imagem manchada – certamente das abundantes lágrimas de outrora – e lembrar apenas com a memória o impacto que ela fazia. Ter outras fotos para olhar e perceber que eram elas que, de fato, a atraíam. Que, além das músicas novas e das antigas que antes da história de amor, eram dela (cujos cabelos desgrenhados caíam) e haviam sido apenas transferidas, até esta música, tão específica, também se fora. Para o todo que ela, a de pijamas, era, ou para a caixinha de sentimentos terminados, que em algum lugar do espaço jazia.

Qual a diferença entre esperar o tempo certo das coisas, deixar tudo ocorrer naturalmente, ou não ter atitude e perder (outra vez!) as oportunidades? Se a vida havia guiado a moça para aquela história do passado, como ela simplesmente poderia não ter acontecido (e, assim, como confiar novamente)? Como pode ser tão bonita a ponto de aceitar ficar guardada para deixar brotar outra, se for para ser útil e mesmo igualmente bela?

E o mais curioso é reconhecer que podemos estar com outra pessoa de corpo e alma, contudo, ainda assim, somos todos esta mistura.

Nem em uma vida inteira, ela dizia, conseguiria entender. E por mais emocional e ansiosa que estivesse, por já ter sofrido e aprendido, resolveu discordar de sua teimosia e fazer tudo diferente.

Com o chocolate quente em punho, o pijama confortável e o coque desgrenhado novamente montado, deixou as histórias no passado e no futuro, em seu tempo cada uma, e, já de noite, lá de cima, olhou os carros passarem não tão rápido, perdeu-se nas expectativas ou esperanças que sempre ocorrem quando observamos as luzes de uma cidade grande, decidindo buscar uma nova dieta, escovar os dentes, ouvir música agradável  e adiantar o trabalho. O melhor que podia fazer por ela (sua única companhia constante), agora.

* – O título deste texto é inspirado na música de Vanessa da Mata, “Amado”.

Fonte imagem: euindoevindo.blogspot.com

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Tribo Humanidade

Boa tarde, queridos amigos! Apresento a vocês um conto novo, que concorreu ao Prêmio Off-Flip 2011. Espero que os façam filosofar, refletir, elevar os pensamentos…

Com carinho,

Camila

Tribo Humanidade

 O veículo deslizava sutilmente pela via. Por fora a paisagem passava rápida, como um borrão, numa velocidade bem avantajada. Na cabine de passageiros, entretanto, o chá calmante era servido como se o único movimento envolvido fosse o suave toque da água fervente na xícara branca e limpa, que a esbelta mulher de semblante sereno oferecia à criança. Esta indagava, sem descanso:

– Quer dizer, tia, que você vai ficar fora até quando meu irmãozinho pequeno estiver tão grande quanto sou hoje?

– Isso mesmo, querida. É pouco tempo, você mal sentirá minha ausência.

– Eu entendo que de vez em quando façamos viagens a lugares distantes, mas não entendo porque aqui, neste lugar tão afastado. Qual é a sociedade mais próspera e fraterna? Qual o lema deste povo: união? Paz? Amizade? Fé?

– Eles ainda não estão unidos, não possuem um lema, querida.

– Não? – perguntou, curiosa, a menina.

Ainda não, meu bem.

– São um povo servidor, então?

– Também não, querida. Estão num nível ainda muito grosseiro aos nossos olhos. Não há harmonia em suas atividades – explicou, pacientemente, a tia.

Neste momento o veículo foi se aproximando de uma luz intensa. A velocidade foi ficando levemente mais baixa, ainda que a paisagem fora continuasse borrada. Ajeitando um filete de franja caída na delicada flor que ornamentava seu cabelo, a mulher disse:

– Estamos chegando, querida. Precisamos nos concentrar nas coisas pendentes, nosso tempo está acabando.

A menina obedeceu e olhou a tia com respeito e atenção:

– Você irá me visitar, tia?

– Não será possível, meu bem. O tempo de folga aqui é muito curto. Eu até poderia fazer rápidas viagens, mas perderia uma preciosa oportunidade para realizar minha tarefa. Há muito o quê fazer. Preciso aproveitar cada segundo.

Um pouco desapontada, a garotinha sorriu:

– Tudo bem, é por pouco tempo… Pelo menos, estaremos juntas no pensamento…

Segurando o rostinho da sobrinha entre as mãos, ela disse:

– Meu amor, trouxe você comigo nesta viagem para podermos ficar o maior tempo possível juntas antes deste afastamento. Além disso, quero que aprenda um pouco mais sobre a vida, sobre outros povos. Fará com que aceite melhor esta distância temporária. Quando eu entrar na missão, não conseguirei mais manter o pensamento elevado como estamos acostumados.

– Como assim, tia? Essas pessoas não se comunicam?

– Claro, meu bem! Mas de uma maneira um tanto rústica… Estão desenvolvendo todos os tipos de atributo do ser. Uma das frentes de aprendizado é conhecida por eles como “tecnologia”. Graças a ela, realizam com material extraído do meio onde vivem, com invenções criadas por eles, tudo o que já sabem inconscientemente existir dentro de si em capacidades. Mas, por ainda não saberem o exato caminho interno, produzem externamente máquinas que imitam os mecanismos mais sublimados. Há um aparelho chamado telefone, com o qual podem falar com várias pessoas em diferentes pontos.

Para deslocarem-se de um ponto a outro, como ainda são muito densos para simplesmente serem aqui depois lá, constroem veículos de velocidade que, para o ritmo deles, pode ser considerada rápida. Para criações diversas, como uma mente que pensa em tudo, criaram o computador. Para não precisarem usar seus corpos na confecção de tarefas ainda necessárias para sua vida, como lavar roupas, louças, cortar gramas, erguer postes, entre tantas outras coisas, criaram máquinas e assim, vão evoluindo…

– Quer dizer que eles executam as coisas em vez de pensar e realizar?

– Sim, meu amor. Eles ainda não descobriram o poder que têm em sua mente, e a usam de forma desregulada. Não controlam seus pensamentos…

Chocada, a garotinha exclamou:

– Como não?

O veículo diminuiu um pouco mais a velocidade e uma esfera azul foi ficando visível da ampla janela que cercava as duas. A carinhosa tia continuou:

– Feche os olhos. Vou mostrar a você um pouco da vida aqui.

Imagens de famílias, festas, cerimônias, culturas, monumentos, cidades, paisagens, foram passando na tela mental da amável menina:

– Tia, eu não entendo… Como pode haver pessoas tão ornamentadas, exageradas mesmo, e outras tão magras, sem nada… E o lixo nas ruas? Ou casas tão diferentes dentro de um mesmo povoado? Construções feias? Um trânsito tão caótico, como se cada um fosse único, brigas… Meu Deus, o que é isso? Esta sociedade é bárbara! A senhora não pode vir morar aqui!!! – disse, dando um forte abraço na tia, tentando mantê-la consigo.

A sábia mulher tinha razão ao omitir imagens de guerras, bombas atômicas, crimes bárbaros, grandes catástrofes. Desequilíbrio extremo poderia chocar a criança, e este não era o objetivo. Aninhando a cabeça da pequena e acariciando-a, falou:

– Não se assuste. Esta sociedade é como a nossa, apenas em fase de desenvolvimento. Nela os contrastes ainda ensinam; o equilíbrio, em tudo, ainda é uma busca, não uma conquista. Não duvide, há ordem nisso tudo, ainda que a aparência mostre o contrário numa análise mais superficial.

Olhando para a mulher com lágrimas nos olhos, a menina afastou-se, segurando suas mãos, e perguntou:

– Por que aqui? Seu trabalho em nossa casa é tão amplo, tão nobre… Por que lhe enviaram para cá?

– Não fui enviada, querida. Eu pedi para vir.

Aproximando-se de uma coordenada específica do globo, o veículo parou.

– Por que paramos? – perguntou a sobrinha.

– Só podemos vir até este ponto. Daqui ficarei num local de repouso e preparação para a jornada.

Apontando para um ponto longínquo, a plácida mulher sugeriu:

– Feche novamente seus olhos e concentre-se para receber informações. O que vê?

– Um menino brincando com amigos. Eles riem. Agora estão correndo. Ah, meu Deus! Mataram um passarinho com um pedaço de madeira!

Espantada, abriu os olhos e parou de receber cenas em sua mente.

Rindo da diferença de pontos de vista, a compreensiva tia explicou:

– É chamado “estilingue”. Eles ainda se divertem com destruições. Com o tempo, aprenderão. Acalme-se. Feche os olhos…

– Agora o vejo como rapaz, beijando seriamente uma garota. – disse a sobrinha.

– Correto, este é o momento atual.

– Quem é ele, por que vejo tantas imagens de sua vida? – indagou a menina.

– Este é meu amado.

– Como assim? Se é seu companheiro, o que ele faz com outra mulher?

– Aqui eles ainda estão, não são. Vivem mais as sensações, geradores de prazer imediato, que os sentimentos, mais etéreos e construídos. Na condição que ele se encontra, ainda precisa de outras experiências para poder entender o que vai viver.

Nos conhecemos há muitos séculos, mas ele ficou preso nos desvios destas sensações afetivas, além de ter uma forte tendência para o espírito da guerra. Entretanto, já sofreu o suficiente. Está no momento da regeneração. Venho para ajudá-lo.

Admirada, a sobrinha anuiu e disse:

– Quer dizer que você vai fazer tudo isso em nome do amor, tia?

– Sim, querida, sempre o amor. Não será fácil, poderei não suportar a massa de pensamentos negativos como um todo. Aqui eles ainda se unem por outros motivos que confundem com bons sentimentos, mas muitas vezes são apenas carências… Se meu amado souber compreender, poderemos ajudar muitos outros com nosso exemplo, estimulá-los. No começo podem estranhar, por não estarem acostumados. Como o índio que não compreendia o funcionamento do fogo e ficou espantado quando o homem branco o produziu sem a necessidade de gravetos, e achou ser algo sobrenatural…

– Tia, estou admirada com sua coragem para realizar tamanho sacrifício!

Sorrindo humildemente, a mulher retrucou:

– Meu bem, venho em nome do amor, mas meu foco principal é apenas um ser e viver isso também alimentará meu coração. É pessoal.

Uma porta se abriu. A conversa foi interrompida. Tia a sobrinha trocaram um abraço caloroso, disseram doces palavras de incentivo e despediram-se.

Após caminhar por um longo corredor, a mulher não olhou para trás quando o veículo levou embora a sobrinha tão estimada. Continuou firme, olhando a grande massa azul, que se confundia com o olhar do amado, a cada passo mais nítido em sua mente.

Sorrindo abertamente para o amigo que a esperava com um sincero abraço de boas vindas, não segurou as lágrimas que denotaram a emoção do reencontro. Lembrou-se do final da conversa com a sobrinha e pensou:

“Querida, isso realmente não é nada… Venho apenas por um. Conheço alguém que veio de muito mais longe por amor a cada um deles…”

imagem: blog.comunidades.net

Obras na Pista

Olá, pessoal! Estou de volta com mais um conto! Este é curtinho e traz temáticas cotidianas… Quem já não se aborreceu com uma mudança inesperada? Leiam e reflitam…

Abraços,

Camila

“Obras na Pista

O sol nascera há pouco mais de uma hora. As primeiras luzes da manhã contagiavam a alma de Pedro devido à iluminação e conseqüente esperança que aquela visão trazia.

Tudo seguia calmamente. Até que, após uma curva, viu-se num momento de escolha. Na estrada que percorria, a pista da esquerda seria entroncada à direita. Ao som de Chico Buarque, acionou a seta e encaixou-se entre os veículos que já transitavam à direita.

Alguns metros adiante, o barulho constante do motor, estrofe ritmada, já deixando a velocidade constante, emparelhou o veículo entre um caminhão e um carro, que estava há uns seis segundos de distância, visto de seu retrovisor.

Na pista da esquerda que, àquela altura, deveria estar ficando vazia, um borrão prateado, depois vermelho, preto e outro prata, passou. Como se a estrada fosse a mesma de alguns segundos antes.

De repente, grandes luzes vermelhas do enorme veículo à frente e freadas que em nada combinavam com a estrofe ainda equilibrada, fizeram o coração de Pedro bater acelerado. Se tivesse objetos acima do banco do passageiro, certamente teriam voado ao tapete de borracha.

Diminuindo o ritmo, mantendo distância segura, trocou de marcha e já estava na terceira quando ainda via borrões menos borrados, mas ainda acelerados, passarem como se aquilo não fosse com eles.

Até que foi preciso pisar na embreagem a fim de que o carro não morresse, e o terror dos motoristas: “engatar a primeira/ segunda/ pára”, aconteceu. Lembrando-se da quantidade de veículos na pista, calculou que se cada um, assim que visse o aviso, encaixasse-se à direita, causaria apenas uma diminuição na velocidade de todos. Talvez nem uma parada fosse necessária…

 Entretanto, quando os da esquerda aproveitavam até o último segundo e, chegando ao final da linha, faziam com que os da direita cessassem totalmente o movimento para que eles passassem, formavam o congestionamento.

Pedro enfureceu-se. Sua velocidade já era zero quando novos borrões passavam à esquerda, fazendo com que seu tempo de espera aumentasse. Cinco novos vultos automotivos depois, sentiu-se um bobo e quase acionou a seta indicando o abandono da fila. Esta obra já não estava nos planos. Seria justo, ainda por cima, ser prejudicado?

Chegou a acionar o botão, mas viu o carro de trás, o mesmo que antes estivera a seis segundos de distância. Ele continuava ali. Desistiu. Até que o “amigo de ideal”, sem acionar seta alguma, nem para a direita mudou: foi direto para o acostamento, e de lá desapareceu.

Enraiveceu-se. Aquilo já era um ultraje! Isso é sair completamente das leis!

Perdido entre os borrões da direita, que já quase outra fila parada formavam, e os novatos do local onde era proibido transitar, numa “primeira/ segunda/ pára” ganhou distância do caminhão à frente e deixou seu carro metade na faixa atual, metade na dos vândalos que trafegavam no local que fora projetado para parar.

O problema foi ter que lidar não somente com os totalmente fora da lei endiabrados por serem contrariados, mas também precisar recuperar sua vaga por aqueles que não sabiam ficar estáticos e, quando a esquerda parava, na direita queriam se ajeitar.

Lembrando-se de que além dos transgressores, uma ambulância ou a própria Polícia Federal poderiam estar querendo passar e ele, com a desculpa de fazer justiça, estava de fato atrapalhando, endireitou seu carro e deixou a música o levar…

Poderia até ser o quê por fazer aquilo que é correto acabou sendo injustiçado, mas quando deixou à Polícia aplicar (ou não) as multas pelos transeuntes de acostamento e irem embora aqueles que passaram em sua frente, percebeu que, além de tudo, entre a esquerda e o acostamento, estava ele não exatamente na direita, mas no caminho do meio. Como orientam há milênios os orientais…

Ouviu o refrão bem alto e, preocupado simplesmente com o carro da frente e sua lenta marcha, aumentou o som, cantarolou um novo refrão, olhou o céu azul e conseguiu novamente relaxar.”

 Fonte da imagem:  portalbarueri.com

A Viajante

Boa tarde a todos!

Comecei este conto há meses atrás, numa situação que eu julgava ser perto do pior que eu poderia viver.

Terminei-o há pouco tempo com a mesma sensação. Porém, se a segunda existiu, é porque o sentimento da primeira não é verdadeiro, assim como provavelmente o desta vez… Ainda não estamos em lugares absolutos em nossas vidas, então, tudo pode ficar ainda melhor  ou pior, depende de nós.

O conto está registrado, a fonte da imagem está no final… aproveitem! 🙂

E agora é oficial: dia 15/12, quarta-feira, publicarei online, aqui no blog, meu romance “A Menina que Encontrou o Amor”. Ele será publicado aos poucos, a fim de que ao longo de meses tenham terminado sua leitura. Espero que gostem e compartilhem!

Abraços,

Camila

“                        A Viajante

                Numa cidade de porte médio para grande, vida atribulada, vivia uma mulher que beirava os quarenta anos e estava saturada.

                As férias do trabalho enfadonho se aproximavam e Lucy, recém-divorciada, decidiu ultrapassar todas as fronteiras. Fazer as malas e viajar para onde um passaporte levava.

                Comia uma bolachinha com chá no final de mais uma reunião que nenhuma novidade trazia. O grupo, desmotivado, simplesmente seguia. Voltou à sua mesa tão desconsolada que ao receber o link de um post do amigo num blog bem-bolado, ao ler a propaganda decidiu seguir para aquele destino inusitado.

                Menos de duas semanas depois, férias merecidamente conquistadas, Lucy, sem filhos, família distante, tomou as rédeas de seu destino e viajou para o outro lado do oceano com a meta de entender seu próprio mundo interior.

                Chegando lá, novos costumes, tradições, modo de interagir. Pensou em voltar, desistir, mas ainda de malas a desfazer, a sede de conhecer era tanta que fechou o quarto e saiu pela redondeza. No mosteiro, a primeira pessoa que viu foi um senhor plácido, calmo, barbas longas, feição apaziguadora, e que, ao contrário de muitos com quem ela convivia, quando chegou, olhou-a e passou a sorrir:

                – Bom dia, minha filha. Seja bem-vinda. Fico feliz com sua presença!

                Tímida e surpresa por tamanha acolhida, Lucy deu um meio sorriso e apenas respondeu:

                – Bom dia.

                – Você já sabe o que a infelicita?

                Ainda mais confusa com a maneira de se iniciar a conversa com um desconhecido, a mulher no primeiro instante acionou o mecanismo de defesa. No seguinte, entretanto, refletiu, desarmou-se e entregou-se à tamanha gentileza. Ninguém a conhecia ali, por que não viver o momento e deixar a vida fluir?

                – Meu marido me trocou pela melhor amiga, meu emprego é insuportável, minha família mora longe, estou perdendo a fé em mim, meus amigos cobram demais… Eu acho que fiz uma escolha errada ao decidir mudar de cidade, mudar de profissão… então conheci meu ex-marido e deixei talvez alguém que me amasse de verdade. Fiz tudo errado!

                Deixando que ela desabafasse algo que talvez nunca tivesse verbalizado com tamanha sinceridade, o sábio senhor tinha olhos atenciosos, cheios de bondade, mas o rosto sereno, sem se abalar com toda aquela vulnerabilidade.

                Lucy não se sentia acolhida há tanto tempo que não contente em desabafar, deixou também as lágrimas rolarem sem piedade.

                O bondoso senhor fez a sugestão:

                – Você realmente quer mudar?

                – Sim, eu quero. – respondeu a mulher confusa e fragilizada.

                – Há um lugar perto daqui, um vilarejo no coração das montanhas, que é conhecido por nós como “o caminho da felicidade”. Você deseja conhecê-lo?

                Com um novo brilho no olhar, aliviada por finalmente ser entendida por alguém, ela sorriu abertamente ao bondoso senhor e respondeu decididamente:

                – Sim!

                – Seu emocional está abalado. É preciso que conheça melhor a si mesma. Antes que vá, é necessário receber alguns avisos. A estrada nem sempre será reta, haverá caminhos tortuosos. Todos que iniciam esta busca cedo ou tarde conseguem encontrar o local. Mas numa primeira tentativa, nem todos chegam ao destino final. Muitos precisam voltar, renovar as forças para tentar novamente num outro momento. Haverá sempre habitantes do mosteiro que vão ao vilarejo diariamente para ajudar quem ainda vive uma vida de ignorância espiritual. Ajuda não faltará. Dirija-se à gruta da Esperança pela manhã e ao anoitecer para pedir orientação, assim, conseguirá prosseguir. Cuidado, pois todos ali vivem apenas o momento. Não é proibido desfrutar, pois são essas experiências que a farão crescer e trarão o auto-conhecimento. Mas é necessário saber que você não é de lá, procure sempre a causa, não se perca e faça tudo por fazer. A caminhada é longa, mas quando você encontrar o que deseja, perceberá o quanto valeu à pena. Após 07 dias iremos lhe buscar. Sua vida nunca mais será a mesma. Eu sei que você está pronta. Mas preciso perguntar: você deseja ir?

                Eufórica com o resultado final, desesperada para libertar-se de tamanho peso, Lucy preparou-se cheia de entusiasmo para o que haveria de vir. Colheu as informações, agradeceu o humilde senhor, preparou a bagagem para pouco tempo de viagem e no dia seguinte partiu.

                Amanhecia quando ela afastou-se do pequeno vilarejo ao pé da montanha de um país oriental. A bela paisagem, a luz do sol, o canto dos pássaros, toda aquela paz, enfim, fizeram com que Lucy se enchesse de esperança novamente. Tinha certeza de que após tanto sofrer, entender que precisava buscar ajuda e o fazer, finalmente receberia a recompensa. Já tinha consciência, boa vontade… isso seria suficiente.

                Caminhou cheia de vigor. Agradecia a oportunidade e estava disposta a caminhar rapidamente para chegar mais rápido ao destino final. Queria terminar logo com toda a confusão.

                Quase uma hora após o início de jornada, a planície virou morro e Lucy passou a diminuir um pouco os passos e ofegar. Parou para tomar um gole d’água e, cantando, seguiu. O caminho foi ficando sinuoso. A respiração falhava, mas ela insistia em terminar cada canção.

                Horas depois, exausta, suja e faminta, alcançou o vilarejo de beleza sem igual. Orientada pelos guardiões do mosteiro, na casa de uma família simples foi hospedada. A higiene ainda era rudimentar, mas dava para aliviar a sensação de impureza.

                Acostumada a ter uma alimentação equilibrada, ficou tentada com tanta fartura e riqueza. Pratos salgados dos mais cheirosos e suculentos aguçavam seu paladar. Macarrão com molho branco e especiarias; carnes assadas em molhos das mais variadas iguarias; legumes fritos, batatas de todos os jeitos, sucos adocicados, risotos repletos de todos os temperos… negar esses pratos seria, ela justificava, uma indelicadeza.

                No dia seguinte, logo pela manhã, saiu para caminhar. Ficou encantada com a beleza natural. Cachoeiras belíssimas, árvores de variadas espécies disputavam espaço com as construções de barro, as tendas armadas abrigavam viajantes… contendo homens de beleza fenomenal.

                Lembrando-se da orientação do bondoso senhor, desviou o olhar da possível tentação. Após caminhar, dirigiu-se à gruta e, depois de com o guardião conversar, retirou-se em oração.

                Quando chegou à casa que a hospedava pediu a chance de trabalhar, para não deixar a mente com pensamentos vãos. A partir daquele dia, teria as tardes ocupadas. Teria a noite para repousar, refletir, e a manhã para o local explorar e fazer a caminhada.

                Os nativos gostavam muito de quem vinha de fora, achavam-nos excêntricos, um jeito excepcional. Para tudo o que fazia era fartamente elogiada. Já no terceiro dia, começou a sentir-se especial. Mesmo com o estômago ardendo, colocava ainda mais pimenta na refeição. Trocara a visita vespertina à gruta para agradar a dona da casa, que além de elogios, dava dinheiro local, que ela juntava à coleção.

                Esqueceu-se completamente do quê a trazia ali. Quando passou pelo atraente viajante ao amanhecer do quarto dia, não desviou o olhar quando ele veio em sua direção. Sabia que era preciso evitar, mas ela estava com o ego tão inflado por saber uma fruta descascar ou ter aprendido a dar nó em cordas – algo que em sua vida real não teria muita função – que esqueceu-se de entender o porquê de tudo, e, assim como os nativos, passou a simplesmente aproveitar.

                Inebriada por este novo sentimento, onde somente o imediato e prazeroso era o que contava, sentiu-se poderosa e deixou-se ser cortejada. A conversa ficou tão interessante que ela nem mais fez sua caminhada, muito menos a visita à gruta realizou.

                “Após o trabalho eu compenso”, com dificuldade pensou, já que o belo homem de ombros largos, um metro e oitenta de altura, cabelos ondulados e olhar penetrante não deixava mais sua cabeça em paz…

                Trabalhou naquele dia saltitante. Quando buscava um vestido para a dona da casa, um guardião a chamou na rua, dizendo ter um aconselhamento. Ela disse aquele não ser um bom momento, já que estava ocupada. À noite iria à gruta orientar seus pensamentos.

                Quando Lucy lá chegou, com impaciência para esperar sua vez de falar e um olhar que procurava outro posicionamento, conversou com o guardião da Vila só por conversar, pois sabia que na volta o viajante estaria na região – e só isso já fez todo seu corpo se arrepiar.

                O retorno aconteceu melhor ainda que o esperado: ela não o viu em seu barraco. Começou a sentir a decepção, quando uma mão a puxou para o lado e, entre a casa do dirigente da pequena cidade e o lugar que fornecia o pão, ele deu-lhe um beijo apaixonado e falou: “Amanhã acompanhar-te-ei na festa do povoado”.

                Ela voltou para casa ainda mais encantada e, após ter tido o cofrinho quebrado, decidiu caprichar na produção.  

                Pela manhã precisou sair para se embonecar e não fez nem a caminhada, nem a visita ao local de reflexão. Consciência culpada, trabalhou em dobro para compensar a riqueza que havia gastado, e atrasou-se para a atração.

                A noite era quente. A festa ocorria ao ar livre, em torno da cachoeira mais vistosa da localidade.  Tochas iluminavam as barracas de guloseimas, bebidas alucinógenas, o palco com a banda animada… respirava-se diversão.

                O viajante enamorado já estava com outra moça engraçado, mas quando viu a mulher que mais o interessava, deixou a figurante de lado e conseguiu da protagonista da noite a atenção. Após a dança envolvente, seguiram os dois para uma árvore frondosa, um pouco afastada da multidão. Ali mesmo despiram-se e seguiram seus instintos com perfeição.

                No dia seguinte ela acordou na cama que por aquele espaço de tempo poderia chamar de sua. Tinha a anfitriã ao lado, com uma vasilha de água e uma toalha de rosto na mão. Abaixaria a febre que a estrangeira continha. No meio do dia, apelou para o curandeiro, mas ele muito pouco pôde fazer. Foi necessário chamar o guardião.

                E assim, antes do tempo previsto e num estado deplorável, a viajante foi levada de volta ao mosteiro e recobrou a consciência, depois de receber uma injeção.

                Acordou confusa. O bondoso senhor sorriu e perguntou:

                – Olá, minha filha! Como se sente?

                – O Senhor? Mas eu ainda tinha um dia… como cheguei aqui?

                – Estava inconsciente… precisei trazê-la de volta mais cedo.

                – Mas eu ainda não encontrei a felicidade…

                – Claro que não, querida! Não é à toa que você usava roupas fechadas, de algodão: é para ficar imune às picadas de insetos, que os nativos já nem sentem, mas podem deixar um forasteiro no chão. Além disso, ansiosa para rir com todos na sala ou para ver o homem que você sabia não poder manter, descuidou-se de si mesma e saiu à rua desprotegida. Ao longo dos dias, teve insolação. Isso sem falar no mal-estar em seu corpo devido ao desequilíbrio na alimentação.

                A mulher abaixou o rosto, envergonhada. O bondoso senhor continuou, não em tom acusatório, mas de meditação:

                – Deixou de visitar a gruta por envolver-se em excesso com atividades que sabia não terem a você nenhuma valia. Encantou-se com o dinheiro local e mesmo sabendo precisar se recolher, envolveu-se com quem nem com você se importava, graças à vaidade que os elogios em demasia fez nascer em seu coração. Viveu a alegria do momento e agora, passada a euforia do contexto, nada mais sobrou além de dor e desilusão. Saiu da viagem inconsciente, com a pele avermelhada, cheia de picadas, roupas que não condizem com sua realidade e sem nenhum vestígio de felicidade. Não é errado querer ser amada, elogiada, cuidar da aparência, ter dinheiro e diversão. O problema é o exagero e a falta de ocasião.

             “Nesta jornada, há aqueles que se negam a sair do vilarejo, tão viciados que estão. Há, porém, os que completam a empreitada. Mas estes também nem sempre conseguiram na primeira tentativa. Por ora você precisa descansar. Quer tentar novamente, em alguns dias, para que vença esta etapa e parta com o que veio procurar?

                – Ficarei eternamente agradecida. Tudo o que quero é melhorar!

                – É comum errar quando ainda não temos total compreensão. Faz parte da vida. Não podemos mudar o passado. É mister, entretanto, aprender com os erros e não mais cometê-los. Erraremos muito, mas que seja naquilo que não conhecemos. Todo dia o sol brilha novamente, convidando a todos para o arrependimento e a culpa pela responsabilidade trocar. Reconstruindo, sempre com a energia em movimento, nós, seres em infinita evolução, não só na alvorada de um novo dia, mas a cada segundo, a todo tempo, teremos forças para seguir, não mais desistir, e, assim, novamente, recomeçar…”

Fonte da imagem: planetaemocao.blogspot.com

Influências

 Boa noite, queridos!!!

Que saudades de postar um conto aqui!!!! 😀 Há alguns em minha mente, alguns já escritos até a metade, mas este estava somente em idéia há pouco mais de um mês. Senti agora, aproximadamente 22h50, inspiração para iniciá-lo. Produzi-o em tempo record para mim, até meia-noite e cinco (meia noite se não fosse meu Word travando, em plena formatação recente de máquina – vai entender! Rs…). Revisão, procura de gravura e aqui está! 😀

Apreciem a leitura.  Divulguem, reflitam!!!!

Abraços felizes! 😀

Camila

Influências

 

            Havia uma mãe e uma filha. A mulher vestia roupa discreta, elegante, bonita, mas sem ser escandalosa. Equilibrada. A filha era uma criança travessa, cheia de energia, vontade de experimentar, sem paciência para nada. A vida era somente agora.

        Por muito tempo mãe e filha conviviam. Apesar do gênio forte, a menina sabia que a mãe razão sempre tinha, e por ela uma grande admiração nutria.

        Moravam numa casa comum, como a de muita gente, suficiente para levar a vida com conforto e alegria.

        Certo dia, passeando de mãos dadas pela calçada, um menininho irado passou com o mp3 ligado. A mãe, que gostava de música clássica, sentiu o impacto daquela desarmonia na música que não necessariamente cantava baixaria, mas pelo som alto incomodava. Centrou-se em si e novamente equilibrou-se, independente do que de fora vinha.

        Já a menina pelo balanço que gerava emoção imediata se encantou. Olhou para a mãe e pediu um aparelho como o do coleguinha, e a mãe, explicando que isso não fazia parte de sua realidade, ensinou-lhe a buscar diversão ao brincar com a vizinha, rir de felicidade ao receber um olhar carinhoso no lar, daqueles que verdadeiramente a amavam ou a ouvir o suave canto dos pássaros e encontrar alegria.

        Obediente e sabendo ser a mãe detentora da razão – pois com o tempo a menina já havia comprovado por exemplos a verdade em tudo que a progenitora dizia – a menina abaixou a cabeça e, ainda impressionada pela idéia de possuir algo tão bacana, resignou-se com aquilo que vivia.

        Alguns dias depois, no mesmo trecho, o menininho passou com um tênis turbinado, além do mp3, que hoje já nem detinha mais tanto a atenção daquele que o possuía. Novamente a criança pediu algo novo que a faria sentir-se importante naquele momento, e a mãe, sempre sábia e com delicadeza, mostrava com brandura que um erro de conceito a amada filha cometia.

        Mais uma vez a menina olhou cabisbaixa pelo chão, não sem desta vez o menino perceber seu incômodo com a situação.

        Num belo dia, a mãe precisou resolver um problema urgente e a menina, que já tinha capacidade de percorrer aquele pequeno trecho sozinha e da mãe havia recebido com honra ao mérito a autorização, viu aquele mesmo menino num skate motorizado. Sabia que aquilo representava a tentação e passou por ele sem olhar para o lado. Mas ele desviou o caminho, deixando-a sem opção.

        No princípio ela lembrou-se da mãe e nem conversa ofereceu, mas ele, astuto, sabendo haver ali uma vítima em potencial, usou de falsa candura para dobrá-la em sua fragilidade. Falando de tudo o que sentia no momento em que possuía algo que o mundo oferecia, na satisfação, na auto-afirmação, na sensação de poder, na possibilidade de pegar nas mãos um motivo de realização, conseguiu atrair o primeiro olhar da menina cuja vontade queria subjugar.

Uma vez detectada esta brecha de conceituação, iniciou-se um monólogo onde ele dizia que a filha era igual aos outros, tinha o direito de também possuir algo assim, que a mãe talvez a estivesse impedindo de viver a vida, e iniciou-se ali um diálogo, uma falsa argumentação de raciocínios manipulados.

Ao passar dos meses, por algumas vezes a mãe precisou se ausentar e a menina, quando sozinha, conversava com o garoto abertamente. Fissurada por tudo que a mãe prometia dar e dizia que ainda seria necessário esperar, ansiosa e precipitada, ela preferiu tudo ao seu tempo (infantil e equivocado) e com o garoto começou a amizade estreitar. Sem a mãe tomar conhecimento.

A bondosa mulher, acreditando na evolução de sua filha e cuidando de tantos afazeres, levou mais tempo que o necessário para entender o que ocorria…

Certo dia, a filha brincava no jardim e o garotinho, acompanhado de mais dois amiguinhos, pediu para entrar e tomar um copo d’água. A mãe já havia lhe informado do perigo de deixar um estranho entrar em casa, mas a menina teve o aviso ignorado e fez a vontade do grupo ali parado com a máscara de “bom rapaz”.

Isso tornou-se um hábito, e a menina até se incomodava, mas tinha dificuldade em fazê-los parar. Quando estava quase verbalizando a negativa, um presentinho deles ganhava, e tudo voltava para o mesmo patamar.

Até que um dia, com a vida exposta pela aproximação, eles souberam que a mãe achava-se adoentada. Propuseram uma festa na casa, para da amizade deles fazer uma celebração. A verdade é que eram arruaceiros que não queriam nada com nada, apenas aproveitavam do bom e do melhor, viviam a ocasião.

Aquela proposta a havia deixado preocupada. Ela hesitou e ia dizer “não”, quando um deles lhe prometeu dar um iphone “assim que a festa acabar”.

Cega pela conquista e emoção do momento, ela cedeu. Teria que ser uma festa discreta, já que a mãe estava o andar de cima, acamada, e poderia algum barulho escutar. Pacientes quando o assunto é conseguir o intuito, eles concordaram com tudo e não fizeram nenhuma objeção.

A mãe notava a filha diferente, e isso passou a preocupá-la. A criança, porém, inventava uma desculpa e tocava a vida em frente.

Poucos dias depois mãe e filha dormiam quando acordaram com o barulho de uma vidraça quebrada. Passos no corredor e a mãe, que ainda estava convalescente, tentou lutar com o adulto infrator, mas acabou nocauteada, inconsciente.

A menina, vendo aquela que a guiava e segurança trazia, paz que irradia, sendo inutilizada, presa num porão, viveu momentos de terror.

Agora que haviam estudado, sondado o terreno, conseguido aproximação e percebido os pontos vulneráveis da casa, os amigos poderosos da garotada mal intencionada haviam chegado, e tudo o que queriam era a destruição.

Zombando da menina ingênua que por sua ganância e invigilância havia aberto para eles as portas e as janelas da própria casa, viam-na desesperada, sem o apoio da mãe para lhe dizer o quê fazer e imatura o suficiente para sobreviver sozinha à situação.

Os móveis lustrados com tanto esmero; os desenhos que ela havia feito na escola e juntas, haviam pendurado na parede que a mãe havia texturizado e pintado; o jardim, que era o lugar mais pacífico do lar, enfim, tudo estava sendo destroçado, quebrado, desfeito, roubado… total desorganização.

A pobre menina, que apenas a ordem conhecia, ficou chocada com o quão diferente as coisas poderiam ser. Com o quanto aquilo que vivia era fruto de trabalho, esforço, merecimento. E num segundo, tudo aquilo poderia desaparecer.

Arrependeu-se do dia em que viu o mp3 e permitiu que a cobiça, a impaciência, a ingratidão com o que tinha acometesse seu pensamento. Toda essa desolação havia começado ali, num átimo de segundo, há tanto tempo.

Todo o caos que hoje vivia era fruto de algo insignificante, ao qual poucos dão valor num primeiro momento.

A mãe ouvia a destruição e queria se levantar. Por várias vezes chegou quase a completar a ação, mas um dos bandidos percebia e com um novo golpe, a deixava novamente inconsciente, jogada ao chão.

A menina havia se escondido do grupo o quanto pôde, até que eles, já cansados de tudo estragar, resolveram maltratar um ser pensante, o que poderia voltar a trazer divertimento.

Lutando como podia ela conseguia o tormento adiar, até que, encurralada, o nome da mãe chamou. Por ser tão importante, a mulher conseguiu encontrar forças onde não havia mais para levantar e conseguiu ajudar chamar.

O grupo percebeu e dispersou-se, deixando as duas novamente reunidas, porém, com um rastro de caos, destruição.

Aos poucos a menina foi vendo sua mãe se recuperar. Não via a hora de saber que estava novamente sob seus cuidados, tendo o alento e a paz de ser guiada, sempre, por seu experiente discernimento, por sua sábia decisão.

No tempo que foi necessário, mãe e filha voltaram a ter rotina outra vez, não sem antes repararem o estrago deixando pela situação.

– Não adianta nada sentir-se culpada. Arrependimento é necessário, culpa é adiamento de tarefa, falta de ação. É minha filha amada e está perdoada. O importante é que repare o erro e aprenda a lição.

Enxugando as lágrimas de criança ingênua e agitada, elas se abraçaram e, juntas, iniciaram o trabalho de faxina, arrumação.

Com o tempo a casa estava quase toda arrumada. O estrago foi tamanho que em alguns departamentos apenas esforço e boa vontade não traziam a solução. Era algo que fugia de seu conhecimento, sua capacidade. Foi necessário pedir ajuda de fora, como um encanador para consertar um vazamento ou um serralheiro para novamente endireitar no muro o portão.

Certamente antes de olhar o que vinha dos outros e que nem sempre significava benefício, a filha lembrar-se-ia dos ensinamentos de outrora, da vida doce e equilibrada que com a mãe tinha, muitas vezes considerada enganada pela maioria; o quanto doeu ver tudo destruído e o trabalho que deu a reconstrução.

Algum tempo depois, calejadas mas nunca abatidas, mãe e filha continuavam felizes em sua caminhada em mais um dia que terminava dando a elas a chance do aprendizado, da superação da dor e acima de tudo: a possibilidade de recomeço, regeneração.

Quantos de nós, ainda inebriados por prazeres imediatos, deixamos o ego falar mais alto, estreitando relações com pessoas/energias que nos assediam por interesse próprio, trancando nosso ser espiritual num porão, deixando escancaradas as janelas e portas de nosso”eu” , estragando ou abalando o que muitas vezes levamos um tempo considerável para construir? Sempre, sempre é possível recomeçar. Mas volto ao ditado já conhecido: seria mais fácil remediar, ou previnir? “ 

 Fonte da imagem: casinhademonet.com.br



Política – Conto

Bom dia, pessoal!

Devido à época em que vivemos agora – proximidade com as eleições – resolvi publicar novamente o primeiro trabalho escrito para o blog. Aproveitem a leitura e reflitam. Votem consciente e espalhem esta idéia – votar com seriedade –  para todos aqueles que os cercam. Principalmente quem não tem a oportunidade de trocar pensamentos via internet.

Vale lembrar que este conto já está devidamente protegido por lei e que é proibida sua reprodução de qualquer forma sem autorização da autora. Espero que gostem!

Abraços!

O Político que não está sozinho

Fulaninho era um menino muito esperto. Desde cedo, com o pai, aprendeu a furar a fila no mercado, trapacear no jogo de baralho, vender produto fajuto aos amigos e mentir para a mãe do antigo paredeiro onde do “velho” estava acompanhado.

Quando conheceu Mariazinha prometeu todo o céu até que ela, encantada, cedeu ao olhar maroto, às palavras doces retiradas do romance da banca de jornal e aos carinhos que havia aprendido com o rapaz “chapa quente”, cinco anos mais velho, quando saía escondido para fumar.

Apaixonada, teve o coração partido pois em vez de noivado, como era o que deveria acontecer, Fulaninho, dela já enjoado, encontrou uma moça que usava roupa curta, atitude descolada e caprichava no rebolado.

Trabalhava na vendinha do S. Manoel mas por fora, com o dinheiro da rinha, conseguia comprar o perfume importado que usava não mais para atrair a moça do rebolado, mas a tímida garota da padaria que com os amigos havia apostado quem mais cedo ganharia.

Enquanto ela não caía, divertia-se com a mulher da vida que o amigo havia descolado num pacote que dava pro gasto, mas não resolvia.

Como a tímida caiu na lábia do Fausto por ele ter conseguido primeiramente o carro emprestado, ele deixou a moça da vida de lado e descobriu que na cidade grande era mais fácil ter o que queria.

Aproveitou para largar o trabalho e, por ser desconhecido, simplesmente poder subir na vida sem ser recriminado.

Iludido pelo “amigo” embigodado, ao dar todo seu dinheiro com passagem e comida durante o caminho, viu-se sem ninguém ao lado e nenhum lugar como guarida.

Primeiro viveu na rodoviária e carregava malas por um trocado. Quando ia passar a lábia numa madame, que normalmente teria aceitado, percebeu-se malcheiroso, barbudo, maltratado e nem foi ouvido.

Descobriu um albergue onde outros banho haviam tomado, e dirigiu-se ao local, decido. Chegando lá teve acesso negado, pois o lugar estava lotado. Passou a noite na rua, teve um rato passando ao lado. Sentiu-se enojado, e quando ia se arrepender por sua vida simples, porém digna, ter trocado, viu um bacana passando num carro importado e ficou revoltado.

No terceiro dia teve a barba feita, o corpo lavado e o estômago devidamente preenchido. Conheceu um cara que vendia baseado e resolveu seguir em frente em vez de aceitar a passagem de volta, que a prefeitura teria pago.

Na boca de fumo, enquanto o riquinho fazia a encomenda para a festa da semana com o colega de atividade, conheceu a namorada que esperava no carro, entediada.

Já bem vestido, perfumado e cheio de charme, perguntou o que havia acontecido, fingindo ser alguém que estava apenas de passagem. Dizendo palavras de um romance já mais rebuscado, colocando o sorriso de galã no rosto e dando um suave toque nas delicadas mãos de moça rica que escondiam um hematoma no braço, vindo do namorado – que ficou agressivo por ter se tornado drogado -, viu que mesmo fugindo do contato, ela havia gostado.

Na semana seguinte mais um pouco conversaram, e para ter cumplicidade ele fingiu a confissão de um drogado recuperado. Com um discurso previamente ensaiado, conseguiu arrancar uma lágrima daquele rosto maltratado.

Já na outra semana, trêmula, a moça voltou sozinha, sem o namorado. Haviam rompido o compromisso, pois o rapaz estava internado. Após fumar um baseado, procurou pelo amigo, que fingiu estar ocupado, e forçando um sorriso por “sem saber” tê-la reencontrado, juntos saíram para ver um filme.

Ao longo do tempo percebeu tratar-se da filha de um deputado. Sorrindo enquanto ela retocava a maquiagem, após descobrir o inusitado, previu como sua vida poderia ser grande, como, afinal, ele merecia, e convidou-a a um passeio no parque. Imediatamente alugou um cantinho numa vizinhança descente para poder em pouco tempo seduzi-la.

Com a desculpa de reformar o apartamento, iniciaram o relacionamento íntimo na cama de um motel mais caro do que ele previa, mas enquanto para ela sorria e a beijava, ele pensou valer à pena o investimento.

Um dia, após o mais romântico dos jantares, num momento em que seria impossível interromper o que se sucederia e após tê-la confundido sobre o remédio que impediria o concebimento, fingiu ter esquecido o preservativo. Olhou para ela com ternura, dizendo com os lábios que esperaria, mas acariciando-a onde ela mais queria, e passaram a noite inteira juntos, sem um do outro desgrudar em nenhum momento.

Já com um apartamentinho jeitosinho e roupa de “mocinho”, criou a imagem do rapaz batalhador que havia encontrado o grande amor. Ela, acostumada a ser vista como a rica filha do político, nem mais drogas usava, de tão feliz que se sentia por ter encontrado um rapaz tão honesto e carinhoso como companhia.

Chegou o dia de apresentá-lo à família. Ele, que já havia lido pouco mais que romances para se sentir instruído e sobre teoria política e jornais tudo sabia, caiu nas graças do deputado.

Com a gravidez precoce, o casamento logo foi marcado. Uma faculdade foi cursada, o inglês aprendido e logo ele em Brasília tinha uma vaga.

Para a mãe, fazia anos que não escrevia. O pai já havia morrido. O filho até que o havia tocado, mas ele via na criança mais um motivo de busca para subir na vida, a fim de deixar um bom legado.

O sogro tinha boa reputação, era realmente um homem honesto e com o país compromissado. Fulaninho levou anos sem levantar suspeita, pois se até o sogro o adorava, deviam ser farinha do mesmo saco.

Já com seus assessores, créditos em viagens e gabinete pomposo, ele aliviava a tensão do cargo usando o cartão corporativo ou tendo relações com a mulher do companheiro de senado, que visitava o Congresso quase todo dia com a desculpa de ver o marido.

Sua esposa, grávida do terceiro bebê e ostentando jóias caras, compradas em Paris, fazia vista grossa ao perfume feminino em suas roupas frequentemente encontrado, contanto que o cartão de crédito fosse liberado e ele aparecesse para os eventos onde eram esperados.

Casamento era mesmo assim, a desiludida Sra. Fulaninho pensava. Depois do encanto do começo, a rotina separava as pessoas e cada um seguia seu caminho. Contando que houvesse o mínimo de contato, necessidades físicas saciadas, ela nada dizia.

Certo dia o gabinete fora invadido por pessoas que por desvio de verba teriam o hospital fechado, a escola interditada ou as casas demolidas. Antes que os jornais chegassem ele chamou a segurança e usando de violência teve aquele grupo dispersado.

Quando já até havia uma conta na Suíça e ele desfilava seu terceiro carro importado, depois do apartamento na Europa e a pequena ilha no litoral paulista, ele subornou alguns colegas e conseguiu ter um projeto vetado, fazendo com que muitos cidadãos que pagam impostos tivessem ainda mais prejudicada a própria vida.

O filho mais velho e as duas meninas, com o tempo, passaram a ser a única coisa que falavam ao seu coração. Mas acostumado a tudo ter, ainda ressentido pela infância simples, julgando dar aos filhos uma cheia de prazer, ganancioso, ele prosseguia.

O primeiro escândalo foi quando ele foi fotografado aos beijos com a assistente de cargo inventado. Ele a contratou somente por belas pernas ter e, de comum acordo, ambos sabiam o tipo de relacionamento que dentro do gabinete, pago com os cofres públicos, ambos iam viver.

Os filhos choravam ao chegar em casa naquela noite e a mulher nada fazia. Estava bêbada, no quarto. A babá era quem ajudava com o dever de casa a filha.

Com o discurso previamente calculado, embora o coração alterado, Fulaninho mentiu criando uma verdadeira teoria da conspiração vitimando aquele pai tão dedicado.

Mais discursos, festas, comidas em restaurantes caros, viagens internacionais e efêmeras relações sexuais compradas com um colar de pérolas, pago com o imposto de renda do fiel pai de família, ou um quarto autmomóvel internacional, pago com o imposto recolhido na compra de muito mais de um carro popular eternamente parcelado.

Na colunas sociais as crianças sempre penteadas, brincando nos lugares da moda, amigas de gente importante e uma mãe ainda elegante, muito bem cuidada, davam a impressão de conjunto feliz.

Até que um dia ele se encantou com uma moça recatada, estagiária devidamente encaminhada, legalmente inserida naquele contexto de luta pelo bem e podridão.

Ele, esquecendo-se de que não era mais atraente nem poderia compensar isso com seu charme e boa conversa, pois não conseguia disfarçar a luxuria no olhar quando estava com ela, em sua arrogância partiu para cima da moça sem perdão.

Foi acusado de assédio sexual e teve o cargo exonerado. Outro escândalo sujando suas mãos. A família não mais conseguia encará-lo e ali começou sua redenção.

Precisou vender o barco, o apartamento na Europa e os carros importados para pagar parte da dívida à Nação.

Os filhos no novo colégio foram renegados, perseguidos e humilhados e isso foi a primeira coisa que realmente doeu em seu coração. Pela primeira vez uma lágrima desceu daqueles olhos vidrados, com sinceridade, mas não havia ninguém a seu lado para lhe estender a mão.

A esposa, sem glamour, publicamente humilhada, logo pediu o divórcio e voltou para o sertão.

Dos filhos morria de saudade, mas por eles não era procurado, pois o legado que lhes tinha deixado além de não ser medido em ouro era também decepção.

Não conseguiu trabalho pois nada mais sabia fazer além de politicagem, e disso havia se cansado. Logo foi morar numa pensão.

Em pouco tempo teve o filho sequestrado, não por um desinformado que ainda o julgava com o bolso recheado, mas pelo filho de um pai que havia perdido tudo em um dos projetos vetados, e queria para o seu problema chamar a atenção.

O pobre coitado, que nada justifica – estava errado -, foi parar na prisão, e o filho, traumatizado, foi fazer intercâmbio e passou a morar no Japão.

No carro popular já há alguns anos usado, ele distraiu-se por sentir a culpa misturar-se à saudade, e, numa estradinha intermunicipal, que devia ter sido recapeada à época de seu mandato, um buraco o fez perder a direção.

Por mais tempo do que seria indicado, foi socorrido e encaminhado ao hospital que há alguns anos ajudou a pagar o quinto carro importado e que hoje, ainda relegado, não tinha recursos para deixá-lo são.

Ele que da imaturidade do povo que o elegeu e não o acompanhou, conseguiu até um helicóptero, esperava, inconsciente, para sua transferência um simples camburão.

Chegando, finalmente, ao hospital público mais próximo, foi mal atendido pelo residente que havia estudado nas escolas que ele havia negligenciado, e em vez de coágulo foi tratado como se tivesse no osso craniano uma lesão.

A demora e o cuidado equivocado deixaram como sequela a imobilização. No dia seguinte, transferido para o hospital particular, que ainda pagava com algumas economias feitas informalmente e com a ajuda dos filhos, que viam aquele quadro com sofreguidão, recebeu a notícia que nunca mais conseguiria fincar os pés no chão.

De alguém dependeria até o fim de seus dias. Nenhum rebento, por mais que sofresse, resolveu de sua vida abdicar, pois doía muito ainda a decepção que aquele pai tinha sido capaz de causar.

No abrigo das freiras foi pedir guarida, e elas, por estarem acostumadas a perdoar, abriram não somente a porta da casa, mas também o coração.

Preso a maioria de tempo a uma cama, usando camiseta branca de algodão, conhecendo pessoas de tão diferentes trajetórias e com quem compartilhava o peso da solidão, Fulinho não se sentia só.

Em sua mente, onde quer que estivesse, estavam seus filhos, a esposa de outrora representando todas as outras mulheres que usara, assim como aqueles que do Estado dependiam e que de fome, frio ou desgosto haviam morrido, ou ainda viviam, em busca do pão, cujos rostos ele desconhecia, mas sentia a energia negativa, a perseguição.

Um dia chegou ao abrigo uma senhora enlouquecida, que não conseguia deixar a roupa no corpo e precisava ser tratada à base de medicação. Era Mariazinha, o primeiro de seus grandes erros, que vinha em pessoa mostrar os resultados de sua ação.

Após terem terminado ela havia “caído na vida” e tinha sido aposentada à força, trazida pela filho mais novo, do terceiro pai diferente e desconhecido, que para a situação da mãe não via mais solução.

Pela segunda vez ele chorou. A culpa o atormentou demais e ele quis até mesmo liquidar a vida, mas seus braços eram fracos e ele até para isso precisaria de uma mão.

Ali seguiu seus dias e morreu sozinho, de ataque no coração.

Mariazinha e ele poderiam até não ter dado certo com o relacionamento, mas se tivessem uma ligação saudável, hoje ela poderia estar feliz em seu ateliê, com o segundo neto correndo contente pelo salão.

As outras moças que usou, se tivessem nele encontrado um amigo em vez de mais uma vez se sentirem usadas, talvez tivessem desde mudado de vida a ter feito ao menos a primeira reflexão.

A mulher que ele enganou por ser abastada poderia ter sido tirada do vício e encontrado a felicidade num lar com amor e compreensão. Os filhos, mesmo numa simples escola classe média, vinda do suor ou talvez da ajuda do avô, poderiam deixar a terapia de lado e em vez de traumas, ter uma boa recordação.

O pai de família que ele por ganância desalojou e que perdeu o emprego, passou a beber e se matou; o recém nascido que morreu de infecção hospitalar num hospital que mal desinfetante conseguia comprar; a jovem que parou de estudar por ter a escola fechada por falta de professor, cujo salário ele não ajudou a aumentar, e que na vida se perdeu; o trabalhador que teve o filho assaltado, morto ou estuprado e que se revoltou, deixando a mulher com tanto desgosto que não chegou a se matar, mas por nada mais sentiu alegria e espalhou a muitos este sentimento, e tantos outros a perder de vista, poderiam resultar num conjunto melhor, que a ele mesmo afetaria…

O filho de Fulaninho poderia ter no Brasil consolidado sua empresa e gerado empregos tão necessários, e não fugido para o Japão; cada cidadão do povo, usurpado, poderia ser um a menos a brigar no trânsito, passar a perna na fila do mercado ou engordar o caótico quadro de violência, pois estaria um pouco mais realizado.

Fulaninho teria parado de procurar onde nunca encontraria e com um simples emprego honesto e o carinho da família, um mundo mais harmonizado, em que menos diferença haveria e mais paz disso tudo resultaria, teria encontrado a felicidade que o dinheiro jamais compraria.

A pergunta que incomoda é a seguinte: se há ser humano de todo jeito, inclusive Fulaninhos, em toda região, porque enaltecer justo aquele que te compra com mixaria ou que com um falso sorriso te engana, e que será futuramente acusado por você exatamente de se vender por dinheiro e de por relacionamentos e sorrisos articulados fazer “politicagem”, quando quem lhe deu, na verdade, esta oportunidade, foi um conjunto de pessoas que não se conhecem e agem separadas, mas que, sozinhas, têm todo o poder de decisão?

– Fonte da imagem: http://zuretaconcursos.files.wordpress.com/2008/07/solidariedade.jpg

Desapego

Boa noite, queridos!

Finalmente! 😀 Estou devendo um conto em resposta ao “Só” e o Vídeo com o segundo dia da Bienal, mas seguindo a inspiração e as possibilidades cronológicas, publico aqui mais um conto.

Está protegido, etc, etc, etc…

Aproveitem a leitura! Saudades de postar aqui!

Abraço,

Camila

“Desapego

            Mais uma linda manhã ensolarada iluminou as montanhas que ficavam próximas ao pequeno sítio onde Joaquim, Dolores e seus cinco filhos residiam. Antes mesmo do sol apontar na linha do horizonte, o provedor da família já estava fora, cuidando dos afazeres da pequena criação de um pouco de tudo, que eles tinham para sobreviver.

            Assim que o galo cantava, Dolores punha-se de pé a fim de preparar o café da manhã para alimentar o marido, que voltaria para fazer uma boquinha. As crianças também comeriam, pois logo ajudariam o pai na lavoura.

            O filho mais velho era Antenor. Menino sério, pouco dado a carinho, fazia com eficácia o que era pedido. Cedinho se levantava com a família, dava duro na roça e voltava de tardezinha, dever cumprido, consciência tranquila, novamente comia, tomava seu banho e dormia, para começar tudo novamente no outro dia.

            O segundo menino era Ariosvaldo. Este era tinhoso. Nada com nada era tudo o que queria. Levantava sempre atrasado, nunca terminava o que lhe pediam, ia ao trabalho arrastado. Mas o máximo que fazia era ser infeliz e ficar revoltado. No outro dia, a mesma agonia.

            A terceira filha era Dalila. Se os homens iam para a roça, ela ia logo cedo à beira do ribeirão, lavar a roupa de todos, à mão. De vez em quando, era permitido que brincasse um pouco com a irmãzinha, a caçula de apenas um ano. Mas eram momentos raros, logo era a hora de fazer a faxina.

            O quarto filho era Antero. Ele era o arrimo da família. Em época de seca, era o primeiro a lembrar que tudo aquilo passaria, e a chuva, era fato, chegaria. Não tinha a acomodação do irmão mais velho na lida da lavoura, mas também nenhuma revolta o acometia. Ele fazia o que era esperado, mas havia algo diferente, ele sentia.

            Por muitos e muitos quilômetros quadrados, tudo o que se via eram sítios e sítios repletos de pequenas famílias. Todas viviam no mesmo barco. Aquela era a realidade que centenas e centenas de pessoas conheciam.

            Certa vez, numa festa de Natal que os vizinhos faziam, receberam a visita do senhor que vivia na cidade e tinha uma linda casa no centro da fazenda. Chegou num carro enlatado, não precisava do animal de carga ou da montaria. O filho do senhor chegou animado, enquanto o pai conversava com o representante da reunião, tratando da paga do ano que viria.

            As crianças surradas e que muito pouco brincavam, ao verem um rapazinho tão limpinho, educado, que carinho com o pai demonstrava, sentiram medo e se afastaram. Antero olhou-o, admirado, e sem pensar no que fazia, seguiu seus instintos e caminhou até ele, apressado.

            Sorriram e se cumprimentaram. Parecia que já se conheciam. Uma amizade nasceu naquele instante. Poucas palavras trocaram, já que o pai do menino abastado, muito ocupado, ainda precisava tratar dos assuntos de outras famílias.

            No mundo do amigo bem cuidado as pessoas, ao se verem, abraçavam-se. As palavras que Antero só conhecia na boca dos outros eram também colocadas em objetos que a tinta cheiravam, e podiam ser agrupadas, rearranjadas. Todo um novo universo elas formavam organizadas na pequena caixinha de conhecimento. Livro, assim era chamado. E havia lugares onde todos iam para aprender tudo o que eles traziam dentro. Eram muitos o que isso faziam. Antero ficou encantado. Era como se ele estivesse apenas reconhecendo…

            Quando pai e filho foram embora, abraçados e sorrindo, ele virou-se e viu seus irmãos e coleguinhas olharem-no, assustados.  Alguns vieram perguntar o que haviam conversado. Outros se afastaram quando ele parou ao lado, com medo.

            Aquele momento nunca mais foi esquecido por Antero. No entanto, pai e filho nunca mais voltaram, e os outros, que já pouco contato haviam tido à época, com o tempo foram esquecendo, e às suas vidas de sempre retornaram.

            Todo dia, pela manhã, crianças e adultos acordavam cedo. Voltavam com o corpo gripado da chuva que caía ou queimado do sol que ardia. Músculos doloridos de tanto encurvar-se para ceifar a folhagem, alimentar o gado, carregar o cesto de roupa nas costas ou agachar para limpar o chão. Homens e mulheres faziam o que havia sido ensinado. Os vizinhos o mesmo viviam, e assim, gerações e gerações repetiam gestos, atos e comportamentos sem nunca modificar totalmente de ação.

            Mesmo sendo obediente e disciplinado, Antero sabia que devia haver algo além das fronteiras que ele mesmo nunca havia ultrapassado. Eram quilômetros e quilômetros de mata, estrada esburacada e nem uma mula que não fizesse falta ao pai ele poderia emprestar. Tudo girava em torno de manter a vida que ele conhecia ali. Mesmo com toda dificuldade, queria o além-cerca explorar. 

            Aquele filho do dono das Terras morava ainda mais longe, mas já tinha como se locomover, e muitas fronteiras já conseguia ultrapassar. Antero queria tentar. Das poucas vezes que comentara isso com alguém, fora na mesma hora desencorajado, pois o desconhecido incomodava, daria trabalho. “Contente-se com aquilo que tem, que está sob seus olhos, e volte a trabalhar”.

            Um lado dele dizia para ser obediente, e ele fazia sua tarefa com esmero. Mas um lado seu já não estava mais lá…

            Anos se passaram e o dono das Terras construiu uma escola. Poucas famílias aderiram, pois estavam acostumadas com a ajuda dos filhos e para o que eles faziam, para o tipo de vida que tinham, não era necessário estudar.  Antero, entretanto, lembrou-se do universo na caixinha do conhecimento, e fora disso não poderia ficar. Por ter sido sempre um filho obediente, créditos com a mãe conseguiu e acordou ainda mais cedo para se matricular.

            O primeiro dia de aula foi excelente! Havia ele e apenas mais três coleguinhas, dentre tantos que moravam ali. A professora incentivou o pequeno grupo e certificou-os da dificuldades, mas agora, para Antero, seria impossível desistir.

            Para chegar à escola, enfrentou o escárnio do pai, que o chamava de inútil, sonhador. “O verdadeiro trabalhador pega na enxada, não passa o dia sentado. Isso é coisa de covarde, frosô”. Os irmãos dele se ressentiam, pois ele negava o que no fundo eles também repudiavam, mas consciência disso não tinham. Sendo assim, o criticavam, provocavam, denegriam.

            O tempo foi passando. Graças aos livros, havia descoberto uma outra realidade. Era novidade que não tinha fim! Conheceu a máquina de lavar roupa, o ferro de passar, o trator e ferramentas outras que poderiam melhorar a vida daqueles que amava.

            Na primeira oportunidade, contou aos seus a novidade. Descobriu que por aquelas bandas já havia chegado a eletricidade, mas o pai, em nome das raízes manter, não deixou instalar. E, é claro, pagar a conta no mês seria faltar dinheiro para a cachaça na venda ao final da tarde, então, nada iria mudar.

            Os outros muito pouco se incomodavam, estavam tão acostumados que felizes ou não, sem refletir, apenas seguiam. Mas ele estava incomodado. Atrás não era possível mais voltar.

            Conversou com a professora e quando estava perto de atingir a maioridade, conseguiu um trabalho fora do lar. De tudo fizeram para não perder aquele braço na lavoura. As moças faziam-se de frágeis e indefesas, precisando da presença do rapazinho ali. Dor na consciência queriam lhe causar. Já os homens ridicularizaram sua atitude, fizeram-no dele mesmo duvidar. Afinal, aquela seria uma nova empreitada. Medo do novo é comum, ele mesmo vinha a duvidar.

            Por um tempo, ficou ali, estagnado, na mesma situação. Mas algo dentro de si já estava mudado. Não mais para ele servia a acomodação.

            Quando o porco comeu das mãos do irmão na hora do jantar, o pai bateu na mãe e ela simplesmente sentou-se à mesa e, sangrando, serviu a refeição, ninguém se alterando com tamanha aberração, ele derramou a primeira lágrima ali mesmo, naquele chão, e sem rumo andou.

            Conversou com a professora nos primeiros raios de sol, e descobriu que o emprego ainda era seu. Com o coração apertado, mas um pouco mais vivido, compreendeu que o quê tanto haviam lhe falado – “você teria coragem de abandonar sua família, o lugar onde cresceu? ” – era tudo uma forma errada de enfrentar o sentimento, um conceito ainda desconhecido.

            Os costumes daquela vila o transformariam num ingrato, como diziam os seus e todos aqueles que os cercavam. Mas seria esta uma verdade exarada, ou apenas um fragmento de realidade, destinado a apenas um pedaço de chão, um espaço no tempo, a um pequeno número de pessoas limitado?

            Por que aquele menino de outrora, o rico educado, tinha outro aspecto, interagia com outro ser humano de outra forma? E os livros, todo aquele conhecimento? O mundo que Antero via, que o criara, era realmente tudo o que existia? Feliz naquele rancho ele não era há muito tempo e agora, nunca mais seria.

            Quando ele pegou o ônibus, chegou à cidade que tinha até arranha-céu e terminou a faculdade anos depois; aprendeu uma profissão, um melhor hábito alimentar e encontrou o amor de verdade numa moça que com ele começou a estudar, compreendeu que apesar de amar sua família e respeitar o lugar de onde veio, poderia ficar como estava e chamar isso de amor, resignação. Mas a verdade é que seria medo de variar.

            Ao ouvir um “eu te amo” da boca daquela que seria sua esposa, os aplausos da platéia na palestra que ministrava para o curso na faculdade ou quando viu seu primeiro aluno primário do voluntariado escrever “sítio” no quadro informatizado, percebeu que se tivesse ficado muitos poderiam ainda chamar de amor, mas esta era uma forma ainda limitada de entendermos nossa realidade.

            Quando ele, porém, tentou ajudar aqueles que estavam ao lado, mas não foi escutado, naquele momento ganhou a libertação.  Ficar só por ficar é o que têm feito todos, desde os coevos aos antepassados.  Dá mais trabalho mudar que seguir a cartilha já vivida e desgastada, como se fôssemos todos iguais, sem verdades individuais.

           Antero tinha o direito de seguir o coração. Quando aprendeu quis compartilhar, mas foi tratado como errado, alguém que não era são.

           Quantos de nós continuarão vivendo dentro das porteiras, presos às ações aprendidas, não repensadas, e repetidas pelos que vieram antes e, se não mudarmos,  pelos que virão? Quantos hábitos doloridos não deixaremos de extirpar por medo que vai além do que nossos olhos conseguem enxergar?

            O tempo deles também chegará, mas quem acorda precisa seguir. Ninguém pode impedir ninguém de caminhar. Amor que cobra e prende, faz chantagem emocional, é apego, pouco tem a dar. Ficar parado é uma opção, mas ninguém pode tirar o direito do outro iniciar sua própria evolução. Neste caso, é preciso ter coragem para lutar, seguir em frente ainda que não seja compreendido e deixar o amor somente no lugar onde pertence: o coração.”

Fonte da imagem: medicinasaudeevida.blogspot.com