Seguir em Frente

amor casal

Roubei/troquei a foto do post anterior e não é à toa que o título parece uma continuação. Porque, ainda que acidentalmente, é. Se eu não tivesse consolidado e admitido tudo o que fiz no texto anterior, se tivesse negado aquele sentimento, que faz parte de mim, eu não teria tido condições de deixar o que não ocorreu para trás, e viveria assombrada por um fantasma que deveria ser, sempre, apesar do não, a coisa mais linda da minha vida. Mas nunca seguiria em frente…

No passado já um tanto distante, nos tempos de possibilidades e esperanças, com a alma no máximo da expansão, eu compreendia que se fosse necessário, não viveria aquele amor e teria outro alguém. O sentimento era tão puro que nunca seria maculado por outro, se verdadeiro. Não porque o “original”seja maior que uma ilusão ou coisa passageira, como também ocorre quando pessoas que amam verdadeiramente “pisam na bola”, mas por ser algo tão generoso como um coração de mãe. O amor cresce, o amor gera amor. O amor aceita outro amor. A paixão, o desejo, a carência, a possessividade, não.  O amor, sim. Sempre sim!

A vida não quis que eu vivesse um sublime sentimento no qual sempre acreditei e sabia existir, mas ensinou-me uma bela lição: apesar de ser único diante de tantas confusões, que vão de status a paixão, o amor não precisa ser apenas de um jeito. Não precisa ser aquele que nasce conosco e que se mostra numa pessoa: pode ser belo e digno de ser vivido não importa como: o amigo que julgamos um irmão ou cujo caráter conhecemos ao longo do tempo e que nos conquista, ou um encontro efêmero de uma alma boa, com pegada, que cruza nosso caminho: numa viagem, num acidente de trânsito, numa fila de banco ou até na internet ou numa balada.

O que importa é o quê, não o como. E, se não estivermos abertos para as diferenças, perderemos a oportunidade. Fecharemos nossa existência para as possibilidades. Porque fazemos sempre igual, mesmo quando não deu certo; porque fazemos sempre igual, nem sempre por juízo ou por maturidade, o que também é necessário, mas por medo de arriscar. Medo de se machucar.

Ora, o amor não bate à porta. Tampouco precisa ser banalizado, como lamentavelmente ocorre. Todavia, relacionamento é como empresa: é preciso investimento, isso é certeza. Porém, por mais sólido que seja, não há garantias. Nos negócios, há os casos de sucesso completamente amadores, vindos da sorte, do acaso, entretanto, atualmente, a maioria venceu os primeiros anos devido a um profundo conhecimento teórico, estudo de mercado, sacrifício contínuo depois de aberto etc. Por que nos relacionamentos fazemos tudo diferente? Os namoros/casamentos do acaso são raros: a maioria exige mínima noção de como agir, análise de compatibilidade com relação a com quem nos envolvemos (do contrário, o fim é apenas questão de tempo, tal qual um negócio mal das pernas que prospera apenas pela cenário externo favorável, mas cedo ou tarde decreta falência) e, quando começamos a nos acomodar é justamente o princípio da luta: o esforço e manutenção diários.

O amor certamente supera tudo e é a melhor fonte de inspiração e força para passarmos pelos desafios e dificuldades do próprio relacionamento, contudo, o maior erro é achar que “conquistou, está garantido”. Até o este nobre sentimento pode ser calado sob pressão de desprezo, indiferença, cansaço físico etc. Não porque desapareça, mas porque não entra mais em harmonia com o autoamor, que está gravemente danificado. E que é o verdadeiro carro-chefe da nossa vida.

O medo de entrar num relacionamento talvez seja fruto do quanto o indivíduo muito pouco se conhece. Talvez, inconscientemente, julgue-se frágil para viver a dor do fim, se ela vier. Por outro lado, há inseguros exigindo garantias que vão além da natureza da alma humana. Como dito acima, o amor é como um negócio. E um negócio pode falir apesar de todo estudo e preparo, por algum fator externo. É preciso ter também um capital reservado para o fechamento da empresa, assim como emocional para sobreviver ao “não”, num relacionamento – ou numa simples ficada -, se este vier. Não estou falando de pessimismo ou ceticismo, apenas do funcionamento das coisas. Ninguém gosta de finais, ninguém vai buscar este desfecho, mas ele é possível. Deveríamos estar melhor preparados. Pois, assim, correríamos mais riscos. Teríamos mais experiência, mais lembranças e aumentaríamos muito a chance de encontrar a felicidade. Seja aquela que já teríamos agora, ao ser cada vez mais livres de amarras tais como medo ou insegurança, seja daquela única e insubstituível que vivemos quando há reciprocidade no ser amado.

Assim, não apenas o amor modelo, aquele profundo e eterno, seria vivido, mas todos aqueles que colaboram para sua existência – sejam os que vêm antes, que têm tempo pré-definido, ainda que não se saiba, e servem para fazer crescer ambos os seres envolvidos; sejam os posteriores, que existem para renovar a alegria de vida e tornarem-se ainda maiores que o primeiro, por serem fortes e belos o suficiente para existirem apesar disso.

Continuo sendo romântica, carinhosa e sonhadora, como sempre fui e sou por dentro. Continuo defendendo que o amor é o que vale a pena e não pode nunca ficar abaixo do orgulho, do preconceito, do rótulo, da carência, da beleza, do dinheiro, do status social e mesmo da paixão, e que o sexo pelo sexo, na verdade, não compensa.

Contudo, duas lições ficaram: a primeira é que por mais nobre que seja ter um sentimento, regra geral, declará-lo de cara, seja o homem ou a mulher (mas principalmente as mulheres para os homens), é estragar ou pelo menos atrasar e conturbar a possibilidade de um envolvimento. Há o tempo e o processo de tudo, e um sentimento complexo, logo de cara, assusta. Devemos nos permitir e permitir ao outro o tempo da conquista, das descobertas, do encantamento para somente então nos entregarmos ao sentimento. Ou – e esta é a dica para os ansiosos! 😉 -, muitas vezes, verbalizar antecipa e “tira o clima” das coisas, e o melhor é deixar rolar. Se respeitando a fase normal da paquera muitos se privam de um relacionamento por medo ou apenas pela responsabilidade que tememos ter pelo coração do outro, imagine nos mostrando totalmente envolvidos antes mesmo do primeiro beijo. Ou logo após. É necessário, na maior parte dos casos, apenas o “curtir descompromissado”, mesmo que já seja com exclusividade, para depois virar algo mais profundo. Por mais que já tenha sido desde o começo.

A segunda lição é que relacionar-se por carência, ilusão, atração, paixão etc. quando ainda não sabemos a diferença e quando isso vem de um erro novo, que nos fará crescer, é não somente aceitável, como necessário. Por não saber a diferença entre uma pessoa que se relacione com uma pessoa nova por final de semana por busca sincera ou por mesmice, nunca poderemos julgar alguém, pois a vida íntima às vezes não cabe nem no entendimento do condutor, que dirá de quem tem outro momento, outra experiência, outra alma.

O importante é não existir violência – ao relacionamento alheio (se for um relacionamento de verdade, e não um rótulo), a si. A forma como nos encontraremos, bom, esta não é reta e simples como nos romances, ainda que já se tenha entendido que o príncipe é apenas um homem há muito tempo: pode estar no amigo que você conhece e admira, que virou paquera, que virou namorado; ou no homem que te deu aquela olhada no metrô e com quem você dormiu no primeiro dia – e que nunca chegará perto se você não estiver seguro o suficiente para experimentar o novo, reinventar as próprias regras, quando necessário, e se você não “se garantir” o suficiente a ponto de se manter firme, apesar de chateado/a, com a possibilidade do “não”. Só vivendo, na maioria das vezes errando, mas talvez acertando, para saber.

Há duas formas de conhecer o resultado de uma prova: ter tido acesso ao gabarito e saber todas as alternativas, prontas, olhando apenas o enunciado e a resposta; ou ter passado noites e noites estudando, sofrendo, quase desistindo, mas fazendo o teste, entendendo e acertando, conquistando com o próprio suor cada alternativa. É fácil viver sob regras prontas. Difícil mesmo é parecer abandoná-las quando o que se faz é justamente encontrá-las, mas experimentando o processo, fora, não protegendo-se em nome de um objetivo final forçado, dentro de uma bolha.

A felicidade não está em quem apenas projeta, repete, planeja ou se protege, mas em quem sabe que, se um lado verdadeiramente seu (não uma fraqueza, uma tentação), pede, não vai se perder de quem é, apenas acrescentar, quando se permite descobrir e tem a ousadia de perguntar o que existe além do que não mais estimula, vibra, realiza, satisfaz… ou faz feliz. 😉

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Obs: Já que é para “desenterrar o passado” e zerar tudo (rs…), segue aqui, no mesmo molde do texto anterior, um poema, há anos engavetado. Foi um dia endereçado a uma pessoa específica, sim, contudo, hoje, simboliza apenas um aprendizado meu e a possibilidade de recomeço que cada um de nós sempre pode ter, quando deixamos de depender de algo ou de alguém, abrindo-nos para todas as possibilidades da vida! 🙂

Como no último poema do texto anterior, também encontrei sincronia do texto de agora e no poema que eu não lia há muito tempo. Tudo tem a sua hora.

Vale lembrar que minhas rimas nem sempre rimam, e que minhas estrofes têm um tempo todo peculiar…rs…

Múltipla Escolha

“Como posso amar

se tenho medo de me jogar

Ao olhar você

De alguma forma

Todas as dúvidas se vão”,

diz a canção.

O ódio, a hostilidade e a insatisfação

São facilmente demonstrados

Por uma sociedade doente,

Que declara guerras abertamente

Todavia,

ainda admira pelas costas

E chora ao transbordar

O que em silêncio

Por muito tempo

Vívido pulsa

No coração.

 

Porque te quero

Aceito as palavras alheias

Respondo aos elogios

Paquero, interajo

imagino com terceiros a possibilidade,

a fim de respeitar as regras da vida

à qual apenas agora me adaptei

 

Porque te quero

Sou livre para conhecer Deus e o mundo,

Não conto com o amor

Antes da realidade

Preciso aceitar o desejo

E admiração de outrem

Que enaltecem minha alma

Iluminando a coragem

Para transformar em fatos

O que venho sentindo

A fim de que somente então

Encontre você

 

O que é?

Um carinho que enternece,

Respeito que encanta,

Admiração que eleva,

Esperança que renasce

Bem estar que contagia

E angústia que enlouquece:

É para ser?

Você quer?

Por que o medo de tentar?

Só porque outrora de amor quase morri?

Ou por causa do futuro

Onde temo ser apenas mais uma

De múltiplas oportunidades?

 

Porque te quero

Vivo um dia a cada dia,

Ajudo-o com outros relacionamentos de euforia,

Entendo seus sentimentos,

Não insisto quando não sou desejada,

Deixo-o ir.

 

Porque te quero

Voltei a sorrir

Recomecei a sonhar

Passei a viver…

Compreendi

O bom-senso da vida,

O que está preso e precisa voar

Em mim

 

É para ser?

Quero tentar,

Não precisa ser eterno para ter valor,

aprendi.

Estou com a palheta de cores aberta, como se diz

E por mais que eu procure,

Olhe,

Experimente,

Nada muda a cor que eu tinha em mente desde sempre

Só porque te quero

Aceitei ceder

Entretanto,

É você a cor exata de que necessito, percebi.

Ao menos eu tentei

E exatamente por isso, escolhi.

 

Porque te quero

Vou perder o medo

Não digo sair da ilusão,

Pois foi muito bonito o que vivi

E é belo o que sou,

Contudo,

Terei coragem de sonhar

Na prática

E fazer poemas com gestos

Ao lutar pelo seu coração

 

Porque te quero

Decidi deixar para o mundo dos fatos

A mais linda história de amor

Construída passo a passo

De pés fincados no chão.

Não, das nuvens não me esqueci

Nem meu romantismo perdi

Ou deixei de acreditar em algo maior

Acontece que a beleza consiste

Em trazer para a matéria

O que é verdade na alma,

No Imo do Ser,

Elevando a realidade.

E você me despertou esta possibilidade

Assim,

Pensando não apenas no amor,

Mas em tudo que precisaríamos superar

E em sempre lembrar de mim,

Resolvi correr o risco da rejeição,

Da incompatibilidade

Ou do rompimento

Materializar, experimentar.

Viver. Existir.

Continuarei escrevendo

Minha própria história

Chamada vida

Entretanto,

Deixarei para os livros

Apenas a ficção,

Decidi.

 

Porque te quero

Consegui sorrir após a tempestade

Encantei-me novamente com a doçura,

o bom coração,

onde havia orgulho,

arrogância,

indiferença

e só restava maldade.

 

Porque te quero

Quebrei as minhas leis

Para trilhar o meu caminho

Voltei a perseguir a felicidade

Consegui me salvar de mim

Tornei a crer no inacreditável

“Antes só do que mal acompanhado”

É quando damos murro em faca

Para quem acredita no amor

Faz confidências,

Gosta da companhia

E dá risadas

Não há tamanho ou diferença de idade

Que tal fazer a escolha de verdade,

Aceitar o improvável;

Descobrir que há mais opções na profundidade de um

que na superficial realidade:

Apoio, intimidade, concessões, carinho;

Companhia, segurança, cumplicidade,

E arriscar a ousada

Única, exclusiva, inusitada

diversa e louca aventura

De nunca mais ser sozinho?

 

 

 

 

Aniversário de Morte

mar 1

“Uma mãe nunca deveria enterrar seu filho”. Concordo! Entretanto, esta semana, não apenas minha avó chorava em cima do meu tio: “Meu filho, que dor, no mesmo dia em que Deus me deu você, Deus me tirou”, quanto ele foi o melhor presente de aniversário que esta mãe já teve: seu primogênito. Vai ser difícil querer comemorar outra vez o dia em que ela veio ao mundo…

“A morte é a única certeza da vida”. Certamente. Faz parte de sua dinâmica natural. Todavia, nos abate, nos choca, desola. Atropela. A cada tempo e espaço os grupos constroem hábitos e culturas, entretanto, há certas leis naturais que são comuns a todos os povos, em todos os tempos: fenômenos naturais, nascimentos, doenças, lições de vida, morte… Aquilo que o Homem constrói também contribui para seu próprio crescimento, contudo, em nossa constante inabilidade em encontrar um ponto de equilíbrio, apesar de a própria ciência já explicar que todo nosso corpo busca o meio termo (assim como em breve explicará a mesma necessidade na alma), é comum pendermos para o “lado de cá”. Esquecemos que há uma lei maior, algo que não de todo conhecemos e, quando este “todo” se reapresenta, ficamos momentânea ou permanentemente “acordados”.

“Coitado, era tão bom”, dizem quase sempre sobre um corpo inerte. Retirando a hipocrisia de alguns neste ato, há aqueles que desacreditam nesta postura e, dos sinceros, tiram sarro. Isso é mesmo piegas? É a pessoa que, ao morrer, magicamente vira santa?

Afirmativamente, não.  Mas o nosso “lado santo” que fica iluminado. Porque saímos do torpor do modus operandi deste mundo e dos constantes problemas de agora, para a realidade da alma…

Na origem de tudo, de âmago de cada um, não existe espaço para orgulho, indiferença, raiva, rancor, desprezo, desonestidade, traição, intrigas. Ou, pelo menos, para os já mais libertos das más inclinações de forma geral, existe o desequilíbrio da razão que faz frios por praticidade, não por falta de amor, aqueles que muitas vezes não suprem as necessidades da sociedade moderna e, máquina de cumprir tarefas que são, nunca têm tempo para enviar um cartão, fazer uma visita ou mesmo uma simples mensagem pelo smartphone.

É esta lei natural que nos tira da ilusão momentânea da vida material humana e nos recorda o que realmente importa. E, nesta hora a dor é tão íntima, instintiva e intensa que a barreira que separa as escolhas são milimétricas, dentro de um buraco infinito. Ou você volta para ou passa a acreditar em Deus, reconhecendo que, por mais que o Homem tente fugir e se enganar considerando-se maior que o Universo, há coisas que ele mesmo não controla, estando este submetido a uma vontade maior, a uma lógica da vida e, assim, com fé ou desespero, implora que este “algo maior” seja bom e cuide daquele que se foi com o mesmo amor que você gostaria de cuidar neste exato momento; ou você deixa a dor vencer a queda de braço e se revolta ou desacredita em Deus. Não existe alívio pleno, somente a melhor escolha. Uma dor te acompanha, a outra, devora.

Embora estivesse com as malas prontas, não tive tempo de me despedir do meu tio. Ele foi embora do corpo ainda de noite. No dia seguinte bem cedo, toda a família pegou um congestionamento monstro na entrada de São Paulo e um medo voraz de não vê-lo pela última vez tomou conta de mim. Desespero indescritível.

Por outro lado, mal sabia eu que tentar chegar era tão melhor, pois conseguia me distrair. Eu tinha uma meta. Quando pisei no cemitério, desabei: só havia a perda.

Consegui, enfim, dizer o Adeus. Vi a terra cobrindo o caixão e apenas assenti, como se aceitasse que a partir dali, não podemos mesmo fazer nada. Como ele mesmo disse certa vez, “agora temos que enfrentar”.

O dia em que meu tio foi enterrado estava paradoxalmente lindo. Como o padre que eu não ouvi, falou, que todos acalmassem o coração e vissem aquele dia não como o aniversário e a morte dele, mas um novo aniversário: o do recomeço na vida espiritual. Um dia lindo!

Voltei para casa a fim de não atrapalhar os que sofriam, cumpri meu dever final no trabalho (que violência, eu mal conseguia me concentrar até “pegar no tranco”) até que a esperança de reunir todos apareceu. Foi lindo. Juntos, nos demos mais força, ainda que isso não tenha sido declarado oficialmente. Juntos, até ríamos. Lembrávamos dele. Juntos, não apenas tínhamos uns aos outros, como todos tínhamos em cada um de nós um pouco mais dele…

Na dor das cinzas desta vida, a união da nossa família renasceu. Sentimos necessidade uns dos outros. Dizemos o quanto nos amamos. Eu queria que ele soubesse o quanto eu o amo. Eu queria que ele soubesse como eu me sentiria se um dia como este acontecesse. Queria ter dito com todas as letras, não deixado implícito. Por isso, não deixo mais de dizer aos outros…

Ao fim do encontro com toda a família e no dia seguinte, todavia, a cada um de quem nos despedíamos que ia, parece que o sofrimento ficava mais forte… Porém, era a vida, que seguia…

Meu tio me salvou de um falso incêndio; não me deu uma bronca merecida quando minha irmã e eu apenas perdemos o último ônibus na noite de férias numa cidade litorânea, o que para minha vó e para ele pareceu um sumiço; me ensinou a pescar, embora eu não seja lá tão boa; sempre me deu atenção, me viu crescer; trabalhou muito; gostava do Corinthians; amava pescar, ir para a praia, assim como eu. Era simples, discreto. Forte. Amava os filhos acima de tudo. Ama!

Certamente tem também os defeitos. Todos os temos, ninguém é perfeito, como dizemos. O que ocorre, como já disse, não é um floreamento ou hipocrisia, quando a pessoa não é hipócrita: mas uma necessidade inconsciente de voltar às origens de nós mesmos, ao cerne da consciência e da alma. O equilíbrio respira amor, perdão, esperança, paz. Não há mais espaço para transtornos. Brigas. Mágoas. Nem culpas. Reflexões, nunca culpa. Porque a verdade da vida é grandiosa demais para mágoas, imperfeições e mesquinharias. O amor é o que impera. Ele é a verdadeira realidade da vida. Todo o resto é acessório, é meio para desenvolver outras habilidades e encontrá-lo. E a morte é parte do processo do ato de existir. Não apenas um fardo que assola a humanidade, mas a prova do fato de que estamos nesta Terra de passagem. Necessário se faz honrá-la. Afinal, o que virá após dela?

A morte não é o fim, mas o começo. A continuidade para quem vai, o “fazer diferente” – seja por mudança nas circunstâncias, seja por amadurecimento – para quem fica.

Apesar de falar de sentimentos genéricos com relação à morte e ser direcionado a qualquer pessoa que queira refletir, este texto é carinhosamente dedicado a Antônio Teixeira Lopes Filho, meu tio Toninho. O amado filho da Elza (e do Antônio, que deve estar com ele!). O querido irmão da Beth, do Beto, da Elzinha e do Marcelo. O adorado pai da Paula e do Guilherme. Saudoso ex-marido da Elisete. O estimado tio da Carlinha, da Tatá, da Gabi, do Lucas e da Marcela. O breve “titio” avô da Carolina, que insiste em mandar beijinhos para o céu. O prezado cunhado do Roberto e da Soraia. O amigo querido de todos seus amigos.

Obrigada, tio, por sua presença! Obrigada por ter estado em nossas vidas! Somos nós que pedimos, assim que possível, que nos honre e ilumine com sua visita!

Minha vó me deu um café que era para ser seu, que você gostava, igual ao que eu já comprava. A cada xícara estarei vendo-o em seu chapéu verde e vara de pescar, na beira da nossa praia. Eu o honrarei não apenas por mais ou menos um mês, esperando o pó acabar, mas conhecendo ao menos o nome do técnico do Corinthians, eu, a corinthiana desnaturada que sou (rs) – somos Hexa, né?;  fazendo o que for possível para acalmar e ajudar quem ficou;  demonstrando a eles o amor que eu queria ter feito você conhecer com mais evidência.

Você segue na sua nova vida, passando pelo processo de adaptação necessário para voltar a ser pleno, a ter consciência de si. Nós vamos cumprindo um dia a cada dia, a fim de ter forças para prosseguir.

Neste instante em que escrevo acontecia sua missa. Após fazer uma oração simultânea, esta foi a minha forma de homenagear você, fazendo o que eu faço com o fundo do meu coração, o que move a minha vida: criando.

Não vejo a hora de abrir aquele cafezinho. Porque outra forma de honrar você é, no seu devido tempo, sair da dor e ter uma história linda. Porque a morte nada mais é que um incentivo no sentido contrário para a compreensão da importância da vida. E a sua também continua. Preciso, assim como todos, te deixar tranqüilo e orgulhoso, e cuidar bem da minha!

Eu sei que em uma dessas xícaras você estará geograficamente comigo, ainda que invisível. Mas, certamente, não imperceptível. Neste dia eu vou te contar, ou você vai sentir, que, quando cheguei da segunda viagem,  com um ar solene e respeitoso, guardei o café do Ponto Exportação de 500g na geladeira, esperando por este momento. Não sem antes, confesso, abraçar e beijar interruptamente o pacote, umas quatro vezes, com muito carinho!

Imagem mar: google

Apogeu

texto apogeu

Olá!

Já que o clima é ficar feliz por lidar com minha veia literária, mais um post! Este é um texto que não enviei a concursos devido ao tamanho, mas que eu queria muito ver publicado!

Dizem que o melhor caminho para livrar-se de uma dor é esgotando-a. Nem sempre uma produção artística demonstra fielmente a essência atual da alma de alguém ou ao menos seus novos sonhos, mas, também, os reflexos de fatos antigos, que precisam justamente serem ouvidos e trabalhados para que quem os carrega possa se libertar e seguir em frente com mais leveza.

Este texto foi escrito em um domingo, 26/07/2015.

“Apogeu”

– Meu filho! Meu filho! Preciso falar com meu filho!

Desesperador quando a mente, lúcida, não comanda mais o corpo. Ninguém o ouvia ou entendia seu olhar. Até que a luz cessou. Já era tarde…

A segunda corda arrebentara do violão enquanto mais uma planilha era finalizada às pressas, após a noite mal dormida e o café da manhã que não havia. Luiz precisava correr se quisesse ser bem sucedido em mais uma reunião.

Não havia notado a segunda corda, assim como não percebeu que o instrumento não mais se encontrava ali no canto, naquela noite. Agora, dormia no quarto do mais velho.

Aos dezessete anos e com uma rotina extenuante de estudos para o vestibular, começar a tocar o violão abandonado do pai deu a Rodrigo novo ânimo. Não entendia porque aquele pedaço de cordas e madeira não dava ao ambiente da casa nem sequer um acorde de melodia.

Passou a ser hábito: após o almoço, apenas meia hora praticando antes de voltar aos estudos. Ele queria ser professor de história, mas o pai, sujeito sisudo e autoritário, o pressionava para a carreira do momento: tecnologia da informação. “Tem que ser alguém na vida. Sustentar a família. Não ser um fracassado e ouvir o escárnio dos familiares, dos vizinhos, dos amigos”.

Luiz pouco ficava em casa, era ríspido com a esposa e dos filhos só esperava resultados, embora inspirasse certo carinho. Rodrigo reconhecia seu caráter firme, sua decência, suas responsabilidade e disciplina, além da doçura diante das coisas mais sensíveis da vida, como uma filha que nasce, um cachorro que sofre na rua ou uma esposa doente, mas a conversa entre eles era sempre objetiva. Ele via nos olhos do pai um mar revolto: ternura e dor. Não era possível não amá-lo, mas era quase impossível ser amado por ele.

Queria agradá-lo. Ser motivo de orgulho para, quem sabe, poder ter apenas outros cinco minutos a mais.

Durante meses funcionou para ele: meia hora, depois uma, após o almoço, e em poucos meses ele tocava de quase tudo, sendo o violão como um terceiro membro de seu corpo.

Na festa de aniversário do pai, família e pessoal do trabalho reunidos no amplo salão de festas do clube high society da cidade, Rodrigo anunciou seu presente: iria tocar no violão a música cuja cifra encontrara no escritório de casa, já amarelada.

Os primeiros acordes fizeram com que Luiz empalidecesse e Denise, a mãe e esposa, fechasse a cara. Rodrigo, já mergulhado na música, mal notou a alteração de olhares.

Cada nota musical era uma pincelada mais forte de cor, e, segundos depois, lá estava ela: Antonella. O corpo esguio, bem formado, coberto por um vestido solto e acinturado, de cor clara, esvoaçando sob o vento do litoral. Os cachos, bem definidos e pesados, loiro-escuros, mal se mexiam. O olhar cheio de esperança, sinceridade e amor, primeiro lhe sorriam, movimentando tudo que, há muito, jazia lá dentro, desperdiçado. Contudo, conforme os acordes se opunham e a melodia chegava ao clímax, viu-a com a maquiagem borrada, chorando infinitamente, sentada no chão, apoiada na parede da igreja que os dois frequentavam.

Ao final da música, de volta ao presente, todos aplaudiram e ao longo da festa não lhe cansavam de dizer o quanto o menino tinha talento. A maioria, claro, afirmando que tocar era nada mais que um excelente hobby. Antes de sair, lançou um olhar duro ao filho, logo acompanhado da expressão de uma mulher que chegou a se considerar “vencedora” diante da oponente de outrora, mas era destas esposas que nunca estão aonde vão os olhares perdidos do marido, que não habitam seus pensamentos, enfim, nunca conseguem entrar: são ostensivamente vistas por fora, todavia, sumidas por dentro.

São não as fiéis companheiras por quem no começo não se sentiam tão apaixonados ou por quem construíram outro tipo de amor e lhes dedicam carinho e gratidão, mas daqueles pedaços de carne que simplesmente estavam ao lado, com quem a vida seguiu seu percurso natural e por isso estão ali – sendo totalmente substituíveis. Tolas, gabam-se em possuir o homem, quando não são donas nem de si, mantendo-se atadas a uma tóxica dependência emocional. Mulheres assim continuam ali somente por status, rotina ou necessidade. Não por serem desejadas. Nem felizes…

Denise, furiosa e ríspida, pediu a Rodrigo que guardasse o instrumento, o qual trazia ao pai memórias ruins, e que fosse procurar os amigos empresários para fazer possíveis alianças em busca de um futuro estágio.

O rapaz, sem nada entender, magoado, simplesmente guardou o equipamento e fez o que lhe foi pedido.

Luiz voltou à festa apenas cinco minutos depois, já recuperado, mas não direcionou nem à mulher, nem ao filho, olhar algum. Apenas Raquel, as filha mais nova, foi capaz de fazê-lo sorrir, ainda que superficialmente.

Ao chegar em casa, o violão foi tirado do quarto de Rodrigo e acabou no maleiro do casal:

– A música vai distraí-lo, Rodrigo. Se quiser segurança, liberdade e paz na vida, vai ter que se concentrar nos estudos e na carreira. Sou seu pai e sei o que estou dizendo.

Cinco anos depois, com um diploma na mão e o primeiro abraço do progenitor em anos, nem Luiz nem Rodrigo jamais tocaram novamente o violão. A oferta de primeiro emprego fez com que pai e filho ficassem cada vez mais próximos e, quando passou a ser rotina almoçarem juntos porque trabalhavam no mesmo conjunto empresarial, a alegria por ter aprovação de Luiz era tanta que Rodrigo nem lembrava mais que um dia havia segurado um violão. Muito menos tocado com a alma.

Até que a namorada morreu em um acidente de carro e ele, dormindo na casa de um amigo, viu o instrumento e voltou a dedilhá-lo. As informações na tela do computador não eram capazes de amenizar aquela dor, mas os acordes e a melodia, sim. Eis que, em um jantar de família, Rodrigo comunica a inscrição em um concurso, após uma noite num bar, quando um produtor musical deu-lhe seu cartão e incentivou-o a seguir carreira.

O pai ficou vermelho de raiva. A mãe, que, apesar de tudo, amava o filho, não gostava de assuntos de sentimento, intuição ou vocação a despeito de dinheiro porque, no fundo, isso a obrigava a repensar quem era – e a lembrar-lhe de quem não era: Antonella.

Rodrigo perguntou o que se passava, como podia o pai ter um instrumento em casa e odiar a música. O pai apenas falava:

– Isso é passado! Não se meta!

Assim que o filho cruzou a porta, Luiz trancou-se no quarto e partiu o violão em pedaços.

O concurso seria apenas em três meses e, enquanto isso, Rodrigo continuava comendo, vestindo, limpando-se e pagando contas, portanto, lidar com computadores ainda era o que fazia. Os almoços antes aguardados com o progenitor agora lhe sufocavam. Num Café ali perto do trabalho, conheceu uma moça encantadora, que entendia sua vocação e era também escritora, embora trabalhasse em um prédio na esquina, na área de advocacia.

Deste encontro de almas, num descuido da empolgação repentina, veio logo a notícia de mais uma vida. Confuso, embora feliz, Rodrigo procurou o pai para orientação. Este, com um olhar meio chocado e um frio na espinha, foi taxativo:

– É um homem feito e precisa arcar com suas responsabilidades. Não posso mais completar suas despesas se já possui família. Não vou pagar a ultrassonografia. Cancele a viagem para o concurso, esqueça a música. Agora é um pai de família.

– Mas, pai, você tem rendimentos o suficiente para me emprestar este montante com folga! Eu pago em breve! Assim, não preciso desistir do meu sonho!

– Esqueça! Não vou bancar um devaneio de juventude para um homem feito! Seja responsável pela sua família!

Humilhado pelo tom pedante de Luiz, como se ele fosse um irresponsável e nem emprego tivesse, ou em algum momento estivesse fugindo da realidade de ser pai ou pedindo um valor exorbitante, Rodrigo sentiu-se abandonado por aquele que era seu porto seguro.

Aquele emprego não apenas não lhe representaria futuro, como renderia bem menos se sua intuição estivesse certa: colossal, como dissera o produtor, seria o retorno que a música lhe traria. “Você tem um talento raro, meu rapaz. Poderia seguir carreira comercial ou clássica, em ambos seria muito valorizado. O mundo da música está precisando de pessoas como você”.

A cada centavo que a conta polpuda do pai aumentava, o sonho de Rodrigo morria. Era, contudo, feliz com a esposa que amava e a bela menininha. Faltava-lhe algo, mas o jeito positivo de ver a vida sempre permitiu que valorizasse o que possuía e (quase) esquecesse do que não tinha.

Novamente, com a postura prática e protetora de pai de família, Rodrigo e Luiz voltaram quase a ser amigos. Denise, com o passar dos anos, estava nitidamente infeliz, desiludida, e sorria apenas para manter a paz na família.

Luiz mais um dia se enganou ao olhar para a vista do escritório e pensar aonde havia chegado na vida, quão longe tinha ido. Após o almoço prolongado, deixou no motel a jovem moça do momento que o admirava e lhe enaltecia o ego (afinal, seu casamento era totalmente incompleto), correndo para um encontro com outros empresários para uma possível expansão, quando a gravata começou a ficar mais apertada do que devia.

A vista ficou um pouco turva e ele podia jurar que à sua frente estava Antonella, recém-caída no chão, sem forças, com a maquiagem estragada.

As pessoas de agora corriam à sua volta, preocupadas, e ele compreendeu que tinha pouco tempo:

– Meu filho! Meu filho! Preciso falar com meu filho!

E a boca não obedecia.

Ah, se ele pudesse voltar atrás…

Não a teria deixado pular. Não eram as palavras duras de covardia e indiferença, dirigidas a ela, que lhe incomodavam tanto, tampouco os soluços ou a maquiagem borrada: era a falta de toda aquela luz em seus olhos, era o jeito como seu corpo estava quando ele virou para trás e a viu após ter-lhe dito as últimas palavras. Não sentada e encostada na parede, mas caída e escorada, como se, mesmo sem forças, lutasse para não sucumbir de vez, mas estivesse profundamente derrotada:

– Eu também espero um filho seu! Primeiro você tem a audácia de me trair, depois quer desistir da nossa banda, do nosso sonho, e agora quer ainda me deixar sozinha para cuidar de uma criança só porque uma “filha de papai” está grávida e sua família lhes deve satisfações? Quem é você e o que aconteceu com a fé e o amor que você mesmo me ensinou? Que eu alimentei em mim após te conhecer?

– Desculpe, Antonella, mas o que vivemos foi um sonho e eu me tornei homem, está na hora de encarar o mundo real. Por favor, não me procure mais.

Ela o segurou pelos ombros e, diante de tantas lágrimas e dor, ele ainda pôde ver a chama do amor em seus olhos quando ela lhe fez a última súplica:

– Luiz, o que você está fazendo? Você se esqueceu do que está abrindo mão? Nós tirávamos sarro dos céticos, lamentávamos o mundo que eles não viam e dizíamos que eles nunca iriam encontrar um amor como o nosso, pelo qual sempre esperamos, porque não acreditavam e não podiam ter ou atrair aquilo que julgavam não existir! Este amor, além de nos dar paz, nos deu força para agir com o coração, seguir a intuição. Nossa banda vai se apresentar semana que vem no festival da região! Nós temos potencial, sabe disso! Você não pode estar me dizendo que isso foi um sonho e que a realidade é uma mentira que você viveu em uma noite de briga e fraqueza, que seu caminho é igual a todos os outros. Estas palavras são do seu pai! Você não enxerga?

– Acabou, Antonella.

Frio. Duro. Irônico. Prepotente.

Era isso, ou ele desmoronaria junto com ela. Contudo, ela era a materialização e a lembrança da sua coragem e do seu medo; da sua fé e da sua dúvida; do amor e da indiferença que se obrigara a sentir. Ele não tinha escolha.

Virou-lhe as costas ali mesmo, porque, no fundo, não suportava vê-la sofrendo.

No dia de seu casamento com Denise, dois meses depois, ela apareceu visivelmente abatida. Com o olhar mais vazio e sofrido que ele já havia visto:

– Eu perdi meu carro, meu pai, minha segurança financeira e você em apenas um mês. Vim aqui para lhe dizer que a vida, não satisfeita, ainda me levou o nosso bebê. Por toda a minha existência eu acreditei em homens decentes como você, apesar dos discursos prontos das mulheres de que “homem não presta” ou que “casamento é um fardo”. Nós nos encontramos e o que eu senti mexeu com o melhor em mim. Eu descobri minha musicalidade e nunca estive tão sintonizada com Deus, produzindo tanto, como quando estávamos juntos. Muito mais do que ter encontrado você, eu me encontrei. Seja por ver o amor em que eu sempre acreditei se tornar realidade, seja por ter encontrado minha vocação, minha função neste mundo. Aqueles anos foram os melhores da minha vida! O final de uma jornada cheia de dúvidas e lutas. Eu havia encontrado a felicidade. Faltava, apenas, mantê-la e, com isso conquistado, crescer ainda mais. Distribuí-la. O que eu sinto por você, o que vivemos, é verdadeiro demais para ser substituído por fatos tão contraditórios. Pequenos, vãos. Comuns, vis. Estou enlouquecendo para conseguir entender. Como pode algo tão bom ser, então, falso? Eu só precisava ver com meus próprios olhos a prova de que minha vida realmente acabou. Que o melhor já passou e a partir de agora eu vou ter que sobreviver aos restos do que eu poderia ter vivido. Que eu não tenho mais o que buscar, porque já encontrei tudo o que mais queria, e me foi tirado. Arrancado. Violentamente, por medo, por orgulho. Que, então, se Deus permitiu, não era meu, não era verdade…

– Não diga isso, Antonella!

Ela não respondeu. Simplesmente saiu. Sem derramar uma lágrima. Sem demonstrar alteração de emoções em seus olhos, apenas um olhar raso e sofrido que nunca mudava. Uma dor tão infinita quanto um dia havia sido seu amor.

Uma semana antes de Rodrigo nascer, soube de seu falecimento. Um amigo em comum o procurou. Louca para voltar a se sentir viva, pulou de bungee jump, mas a corda arrebentou e ela não resistiu.

Finalmente, diante de sua lápide, ele chorou. Como o homem sensível e com fé que um dia fora:

“Antes passar toda a existência na esperança de um dia chegar, que ter toda a vida pela frente após o apogeu”. Ao lado das palavras, uma foto sua “daquela época”, que é como gostaria de ser lembrada, e muitas flores.

Naquele dia, ele também não conseguia acreditar no fato que acontecia. Era uma verdade que não combinava com o que sentia: ela não mais vivia. Não restava mais aquele fiozinho tênue de esperança para quando as crianças crescessem ou os tempos mudassem. Foi obrigado a esconder. Era o filho, que nascia.

Mais de vinte anos depois, ainda via nela as lágrimas que, na verdade, eram de ambos, entretanto, somente ela teve a coragem de deixar escapar.

Haviam-lhe tirado a gravata, mas ainda estava tonto. Colocavam-no na maca. Estava, agora, dentro da ambulância. Mal ouvia o que diziam, porque queria falar.

Desesperador quando o coração, lúcido, não é mais comandado pela mente, contudo, não há mais tempo para consertar. Alguém, que não mais chorava, todavia, o ouvia e entendia seu olhar. Até que a escuridão cessou. E era possível recomeçar…

Fonte imagem: mperatorl.wordpress.com

Sinopse “Virgem por Acidente”

Capa Virgem Final Versao 3Virgindade é, hoje em dia, escolha individual ou incompetência afetiva? É possível ser “normal” e dizer “não” ao sexo, que ficou tão fácil e explícito? Seria justo rotular e padronizar escolhas tão íntimas? Afinal: é preciso negar a natureza humana e sua sexualidade para ser espiritualmente evoluído?

Gabriela é uma encantadora assistente editorial, com vida social agitada e cheia de pretendentes. Independente financeiramente, frequenta shoppings, clubes, Cafés, barzinhos, spas, teatros, colabora na sociedade, dirige o próprio carro e mora em um belo apartamento, na cidade de São Paulo. Todavia, apesar dos vinte e nove anos, ainda é virgem! Notamos, porém, desde a primeira página que ela, nem de longe, vive uma castidade adormecida…

Uma estória pacificadora de extremos: nem a negação da natureza humana dos defensores da moral, tampouco a libertinagem fantasiada de liberdade daqueles que gastam sua própria sexualidade como se não houvesse consequências emotivas.

De formato leve, ideal para quem quer relaxar após um longo período de trabalho, este romance reflexivo, contudo, está longe de ser “água com açúcar” e vai mexer não apenas com seus instintos, mas também com a razão, e, principalmente, com seus sentimentos…

Censura:  16 anos

Observação: Livro aguardando retorno da loja virtual para ser publicado. Formato e-book. Em breve, informações de lançamento.

“SUS = Suicídio Única Saída”

recepcao hospital

Hoje eu acordei um pouco mais cedo. Ao invés de preparar o café da manhã e criar ânimo para enfrentar o dia, apenas tomei banho, peguei meu carro e dirigi-me ao laboratório, onde peguei a minha senha, não sem antes receber um sorriso da recepcionista. Em temperatura ambiente, proporcionada pelo ar condicionado, música clássica ao fundo, bem baixinha, eu mal conseguia ler o meu livro, de tanto apreciar os quadros de flores e paisagens suaves ou observar os agradáveis tons pastéis das paredes, excelentes para acalmar quem precisa passar por qualquer tipo de procedimento relacionado à saúde.

Primeiro de abril…

Acordei uma hora e meia mais cedo do que o normal, já que não tenho carro e o local do meu exame é mais longe ainda do meu local de trabalho. Em jejum desde às 18h15 de ontem – depois deste horário ainda poderia comer, mas estava dando aula -, não pude me dar ao luxo nem de tomar o remédio para controlar a dor de estômago, nem de tomar café da manhã. Havia exame de sangue para fazer.

Para ver como reclamamos da vida e não sabemos o quão boa ela já é conosco, nem o direito de esvaziar em paz o meu sistema eu tive: precisei preencher dois potinhos com meus dejetos, sendo eu tão ruim de pontaria. Pelo menos o banho, eu tomei. E saí.

Com o pé esquerdo sem conseguir dobrar e/ou pisar no chão – sim, está assim desde fevereiro e, de vez em quando, agora eu manco – arrastei meu corpo cansado e faminto até o postinho de saúde mais próximo da minha casa.

Chegando lá, reparei que desta vez a luz do hall de entrada ao menos estava acesa, ao contrário de dez dias atrás, quando eu fui ao médico. Pausa: eu havia ido ao médico não tratar de algum problema, apenas respeitar um procedimento extremamente burro do nosso sistema de saúde. Certamente porque a maioria da população não sabe que para cuidar do coração você precisa de um “cardiologista” ou dos olhos, de um “oftalmologista” (ou, talvez, para pagar menos funcionários, não sei), eles nos obrigam a passar por um clínico geral para fazer uma “triagem”. Bem diferente dos tempos em que eu apenas sacava o telefone fixo, consultava a lista de médicos do convênio, escolhia um nome e marcava a consulta.

Não satisfeitos em me fazer faltar ao trabalho à toa, o SUS ainda maltrata o cidadão: em vez de cada um chegar no seu horário marcado para a consulta (como ocorre com o tratamento particular), todos os corpos (não são seres humanos, apenas pedaços de carne da qual eles precisam se libertar e resolver, para preencher estatísticas) são obrigados a pegar, claro, uma fila (não seria brasileiro se não houvesse uma fila!), em pé (teoricamente, há doentes ali!!!!) e esperar a sua vez, onde há limite de atendimento: somente até 7h. Ou seja: o atendimento ocorre das sete ao meio-dia. Se você chegar sete em ponto e for o último da fila, vai esperar até meio-dia como quem chegou seis e meia (sabe-se lá Deus a que horas este infeliz precisou sair de casa, que nem sempre fica perto) e será atendido por volta de oito. Sem bolachinha, sem chá, sem café ou ao menos uma lanchonete… Super digno!

Se você quiser perguntar onde retirar um exame, ou passar mesmo pelo procedimento, pega a fila. Não há ninguém para te orientar, informar nada. A não ser que você fure a linha…

Após a fila, você é encaminhado a um corredor – não é uma sala, mas um corredor escuro – e espera sentado. Se houver lugar. Porque é lotaaaaaaado. E cuidado com o barulho, com as pessoas sem educação ouvindo som alto na “sala de espera”: eles gritam, na verdade, apesar da quantidade de gente, apenas falam mais alto o seu nome. Não há visor com senha, como nos bancos, correios, ou qualquer indício de que você já viva no século XXI.

As paredes são pintadas de cinza.

Eu mergulhei no meu livro. Nele havia um lago e o verde das árvores.

Logo me chamam e eu entro em uma sala. Pergunto se posso fechar a porta, e a mulher, que eu julgava ser a minha médica, é a enfermeira e eu, tolinha, me recordei da outra vez em que precisei usar o SUS, há dois anos, e fui literalmente estuprada pela ginecologista cavala e seu instrumento de trabalho: quem faz todas as perguntas, para quem você relata a maioria dos seus problemas é a enfermeira, e não o/a médico/a. E a sala da enfermeira é aberta, você relata suas intimidades (como naquela horrenda consulta ginecológica) para outros cidadãos, que não têm compromisso algum com o código de ética ou com o sigilo do que é dito em uma consulta médica. Respondendo a minha própria pergunta: claro que a porta permaneceria aberta!

Desta vez eram apenas dores um pouco mais externas, nada muito humilhante. Ainda assim, preferiria relatar a quem vai cuidar de mim diretamente. E eu ouvi dizer que estão querendo humanizar os médicos… (Embora eu não tenha queixas desta médica específica, o sistema que é completamente falho).

Eu contei tudo de novo para ela. Dane-se o tempo. Eu esperei e quero a minha “consulta” – que, mesmo assim, não passou de dez minutos. Ao final da “consulta” para, no meu caso, me dizer o óbvio, eu saio com um monte de papéis nas mãos e volto ao mesmo balcão da entrada. Ouço do funcionário que me atendera, sem me olhar direito, e sem sorrir, o comentário sarcástico: “Check-up geral, hein?”. No que eu, ainda acionando a última gota do lado Pollyana que há em mim, convicta de que sou perdedora para a lei injusta e egoísta dos homens, mas estou crescendo como alma, aos olhos de Deus, e respondo, simpática e sorrindo: “Pois é, faz um tempo que não me cuido”.

Ele me informou que no período de um mês o Posto me liga para marcar os exames.

Como é que é? Quer dizer que, além de eu ficar com este problema em suspenso, apesar de ter mexido na minha atribulada rotina para resolvê-lo, terei que ficar tensa por um mês, grudada no celular, com medo de desligá-lo em horário de trabalho, e perder a consulta ou o exame que eu ralei tanto para ter? E quanto custa cada ligação? Não é mais fácil eu mesma ligar, uma secretária me atender e eu marcar? Meus impostos são gastos para deixar as pessoas tensas, é isso?

Saindo da “pausa” e voltando a hoje: o que eu não me lembrava é que, no final daquele dia, minutos após o comentário sarcástico, ele me devolveu dois dos muitos papéis, e agora eu os esquecera em casa.

Além de ter perdido os quase dez minutos no balcão errado com o mesmo funcionário que mal me olhava há dez dias, o qual, hoje, descaradamente, me ignorava, pegando pronturários e eu precisar deste tempo perdido para descobrir que eu deveria mesmo ter estado em outra mesa, após mais uns quinze minutos de espera, de ter idosos e crianças passados na frente (o que é correto, mas as crianças deste caso já eram bem crescidas e certamente a mãe era dona de casa, então, não sofriam a pressão do horário para entrar no trabalho que eu sofro, e onde eu ainda ficaria por doze horas), descobri que eu havia esquecido o pedido em casa.

Perguntei se não podia tirar o sangue, para não perder o lugar na fila, e deixar as amostras colhidas pela manhã, e eu traria o papel depois. Não foi possível.

Eu sei que é difícil lidar com exceções à regra. Eu sei que há muita gente, que o sistema está lotado. Mas o fato é que certamente havia tudo escrito no meu prontuário e, se havia a necessidade de ter um papel para o envio do exame ao laboratório, por que não me deixar fazer a coleta de sangue enquanto eu podia, me deixar tomar um café da manhã, conseguir chegar no horário no trabalho e depois, no almoço, eu me comprometeria a levar a porcaria do papel, condição pela qual meu exame não seria enviado ao laboratório se eu falhasse?

Se eu fosse cliente de um ambiente particular, certamente haveria possibilidade desta gentileza. Porque há o medo da concorrência, ou, ao menos, porque não está assim tão atolado de trabalho a ponto de não poder fazer uso da sensibilidade e ou bom senso e abrir uma exceção a regra. Regras são criadas para educar pessoas folgadas ou imaturas, não para prejudicar quem não se encaixa no rótulo da situação, mas está de acordo com a essência.

Ainda que hoje o erro tenha sido meu em esquecer o papel, situações onde o paciente tem razão sofrem o mesmo descaso que eu, que, por causa da burocracia, de um mísero pedaço de papel, não realizei meu exame.

Por isso sou contra a queda bruta do capitalismo, de um ano para o outro, num golpe: ele é injusto, mas as pessoas ainda precisam dele para terem motivação. Explique à população que andar de cinto de segurança salva a própria vida ou pode te tornar um assassino, já que em determinada velocidade, o corpo, no impacto, é lançado à frente como um projétil com o peso de uma tonelada, esmagando quem está na frente. É o mesmo que falar com a tecla “mudo” ativa. No entanto, cobre uma multa e desconte pontos na carteira, como nós, professores de crianças, fazemos com os aluninhos: a maioria respeita.

Ameace o emprego de uma pessoa com um profissional melhor preparado ou de toda uma empresa com uma concorrente, estabeleça metas e fale em lucros: não faltará empenho, eficiência e simpatia. E, assim, com a prosperidade, com dinheiro em caixa, fica até possível fazer uma sala de jogos para o funcionário ou agraciá-lo com benefícios, o que, claro, será refletido na produtividade. Na satisfação dos clientes. Contudo, diga a eles que só serão mandados embora em caso de corrupção, faltas, abandono de emprego e etc. Otários passam necessidades básicas sem serem ouvidos. Pessoas não apenas ficam em jejum sem exame, mas morrem nas filas. Ou têm uma cadeira esquecida com a enfermeira dentro da barriga após uma cirurgia.

(Deixando bem claro que me refiro à regra geral, sei que há excelentes funcionários públicos – eu mesma conheço alguns, assim como já tive contato com pessoas da iniciativa privada que não fazem jus ao cartão de ponto).

Claro que eu compreendo o lado do funcionário que me atendeu, que já deve ter visto de tudo um pouco e que também não deve ganhar lá tanto assim a ponto de superar o mínimo necessário. Não deve ser fácil lidar com um público não selecionado e, ainda por cima, doente (embora lidar com pessoas de dinheiro também não seja muito fácil devido à arrogância). Não estou escrevendo contra ele, mas contra o sistema do qual ele também é uma vítima.

Enquanto os homens forem egoístas e mesquinhos por dentro, precisarão do combustível que alimente sua vaidade e ambição (aquela desvairada, não a saudável). Dinheiro. Enquanto este estiver garantido, se o capitalismo cair como num golpe, não apenas hospitais, escolas e órgãos burocráticos, mas tudo, será cinza, sem sorrisos, desumano e ineficiente.

Vi-me diante de um retrocesso, uma situação deprimente. Vi pais com crianças com rostos tão sofridos, muitas vezes não conscientes do quanto são maltratados. Concluí, pela manhã, saindo do Posto direto para a padaria, a fim de tomar um café de rainha, que com este nosso sistema nacional de saúde (meu município nem é dos piores da região e a Prefeitura atual tem feito muuuuitas coisas decentes por esta cidade, sei que há tempo e verba para melhorar tudo cem por cento) mais se cultiva a doença. No Brasil, ou se tem dinheiro para um bom plano ou mesmo para particulares, pois até os planos estão mesquinhos, ou se descobre à base da terapia de choque que, na verdade, tudo está na mente, a força que têm os nossos pensamentos e que todos podemos curar a nós mesmos pela fé, se quisermos ser saudáveis. E praticar, para fugir desta teia depressiva e incompetente.

Enquanto eu escrevia este texto, recebi por e-mail a mensagem da Prefeitura, para a qual escrevi, relatando o inconveniente. Eles me informaram que a proposta desta gestão é adequar todos os postos de saúde ao conceito de saúde da OMS, que é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”, reconhecendo que o ambiente em torno, a estrutura, a humanização no tratamento e não apenas o exame ou consulta em si refletem na saúde dos atendidos. E que meu exame será feito em um novo dia a minha escolha, respeitando meu horário de trabalho e passando na frente só quem for idoso ou criança que esteja emergencialmente doente. E que, de forma pioneira, vão tomar a iniciativa e estão mesmo repensando no modo desumano de agendar as consultas. Que vale muito mais a pena gastar impostos pagando secretários para os setores de exames que em ligações telefônicas. Eu senti-me acolhida, amparada.

Primeiro de abril!

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Minha vida que não minha

quebra cabeça 1

 

 

 

 

 

 

 

(Texto escrito sábado, 15/02/2014).

Quantos textos não escrevi por saber que não poderia mergulhar? Pressinto o fim da minha solidão e pensar o quanto fui sozinha faz-me sofrer ainda mais. Que justiça é esta, o modo das coisas, que dá amor tanto ao que fez o mal quanto a quem sempre seguiu a lei? Quem devolve os anos de vida pura que escorreram pelas lágrimas e dores e angústias e mortes e quase mortes e loucura e desespero e revolta e dores ainda mais profundas?

Gosto de caminhar à noite porque a essa hora tem pouca gente na rua e posso chorar a dor de ter que estar andando na rua, sozinha, a esta hora. Desligo a TV para escrever agora que tive tempo e coragem, mas perco o programa que queria assistir para não desperdiçar o momento, e depois terei a solidão de não poder escolher o que quero assistir para companhia.

Momentos parecidos com o passado e ao mesmo tempo tão distintos inspiram e simultaneamente causam agonia. A saudade do que foi e que não passou, mas também não mais é, obriga-me a ter esperança de que o que foi destruído ainda volte. E volte não porque as coisas sejam constantes mas sim, porque mesmo modificadas em detalhes e amadurecidas, seja reconstruído o que virou pó nas ilusões do mundo.

Sinto vontade de abraçar o que eu vivia e não sabia ser mutável, de tão acessível. Abraço algumas daquelas pessoas, piso nos mesmos pavimentos gastos e repito velhos hábitos, entretanto, ainda assim tudo esvoaça como a mesma areia que um dia foi topo de morro e hoje é chão.

Como deixar de olhar para o próprio umbigo quando se sofre, se tudo é tão diferente? Quem traz de volta o que era para ter sido? A vida que eu construía, resultado de outra vida, toda inteira, e que eu merecia e poderia e deveria e aceitaria ter vivido?

E se o desapego me fizer vítima de levianos e espertos, que este mundo tem aos montes? E se eu entregar a Deus e ele me trouxer novamente até aqui, como da outra vez que eu confiei e deleguei a Ele o meu destino?

E os anos? O meu corpo saudável? E a minha felicidade? E o amor que deveria ter fluído? Quem me devolve? Não, não quero apenas o que virá a partir de agora. Quero aquele, que deveria ter sido. Quero a solidão sozinha, o não-amor mal amado, a revolta protestada, a falta de fé indiferente e o efeito coerente da causa que eu plantava. Que, contudo, não colhi. Apesar da Lei.

Como pode ser assim de precisarmos parar de nos atrapalhar justo quando mais sofremos? Pensar positivo quando tudo é caos? Ser forte quando nos desmontam e amar quando nos matam por não-amor da covardia e do medo? Por que podem nos fazer o que for e ainda assim, a responsabilidade é nossa? Contudo, se eu fizer em retorno, a responsabilidade é minha? Como posso ter que ressurgir das cinzas quando estou morta, eu que não sou fênix?

Apenas humana… Não quero deixar esta lógica invertida questionada acima falar mais alto, pois ainda há fé e esperança e vida, em algum lugar dentro de mim. Mas quem devolve toda a minha fé, esperança e vida plantadas que foram extintas, desviadas, vividas por qualquer um(a), menos por mim?

Tudo a seu tempo. Tempo… ele transforma as coisas. Conserta-as, constrói e não destrói, apenas explicita o que não era sólido de fato. A alma humana é uma máquina esquisita que produz, é produzida, conserta-se e quebra-se em si mesma. Se a vida é sempre vida, se há meios e fins, qual é a diferença entre este período horrível e os momentos de felicidade para os quais ele está me preparando, se um dia tudo vai passar e vou sofrer novamente?

Por que o alívio ao pensar no fim da dor, se tanto este alívio vem por anos e nada nunca muda, quanto se eu, feliz, serei a mesma eu de hoje, apenas diferente?

E por que a vida apresenta para depois separar, como se fôssemos meras marionetes sem sentimento? Se não era para ser, para quê a perda de tempo? Por que não aprender com quem realmente deva ficar? Entretanto, se fosse para ser, por que não apresentar somente quando ambos estiverem prontos? Ou, ainda assim (e garanto ter sido este o ocorrido), como pode a vontade mal direcionada de um único ser humano valer mais que a conspiração do Universo e suas leis?

Como pensar que um dia posso estar feliz e isso me motivar, se quando estiver feliz posso perder tudo, só porque as “porcarias” das coisas mudam? Por que o que é sólido não é sempre, e os detalhes é que mudam?

Como pensar que a mudança é boa por nos fazer movimentar, se movimento não é exclusivo ao que é novo, mas também existe no que é construído, e esta movimentação da novidade traz a perda, a dor, o conflito, justo enquanto eu aprendo a sentir-me merecedora do bom, do belo, do harmônico, do próspero, do melhor, do amoroso, em vez de auto me desprezar?

Gosto da solidão de caminhar na noite estrelada porque choro sem que me consolem, mas também sem que me cobrem executar o que eu já sei, todavia, não consigo exercer. E com isso, eu me perca ainda mais dentro de mim, incapaz que passo a ser diante de quem já age assim. Não bastasse ter sido lesada, tenho ainda que encontrar e aceitar um defeito aqui. Aí, em vez da empatia pelo momento delicado, o sermão. Queria ser livre para, quando sofro, apenas poder sofrer, sem pensar, sem refletir, sem me cobrar. E chorar. E superar. E esquecer.

Contudo, enquanto o que quiserem modificar forem minhas atitudes, e não a inadequada mudança dos fatos, precisarei dos soluços estrelados de breus e passos, da companhia da noite e dos sonhos distantes que, vez ou outra, ainda brilham quando, pensativa, cansada, sofrida, lembro de levantar a cabeça e olho para cima.

Fonte imagem: http://ultradownloads.com.br/papel-de-parede/Ultimas-pecas-do-quebra-cabeca/