Crônica sobre hoje – Brasil Eliminado

Ainda uso a camisa que lavei correndo para secar a tempo de outro jogo. Meus brincos tilintam a brandeira do país e as pulseiras, coloridas, ainda competem no pulso com o moletom que precisei vestir devido ao frio.

Em vez de cozimento, engoli um sanduíche de atum e agora ouço o noticiário para confirmar o que vi há pouco na casa da família.

A Copa do Mundo segue em frente, mas nós voltaremos para casa. Ao dirigir de volta para a minha casa, já mais calma, com a sensação de que a vida continua, percebi o erro de conceito no começo deste parágrafo…

Nós já estamos em casa! Eu voltei para a minha momentos depois, como escrevi, ao dirigir e rezar para não me deparar pelo caminho com nenhum torcedor enlouquecido ou um motorista embriagado. Graças a Deus, foi atendida minha oração!

Com o carro em movimento, minha mente trabalhando em ritmo acelerado e tudo o que eu sentia aos poucos, uma vez por momento, veio em forma de represa estourada. Sou escrava das palavras. Não há tempo nem para ligar o computador. Mas deste trabalho escravo não quero ver tão cedo a abolição.

Refletindo sobre tudo, várias coisas me passaram à mente. Uma delas, que antes eu já havia comentado, é o quanto somos brasileiros na hora do jogo de futebol. Paramos nosso trabalho, juntamos a família e os amigos somente para ver a bola rolar. Se ganhamos, a alegria é pura e verdadeira. Se perdemos, como hoje, geral comoção.

Veja, o que direi a seguir não é um sentimento de apontamento de dedo, algo que não faço e que corrijo como se fosse a dona da verdade. Pasmem os que me conhecem, mas além da caracterização verde e amarela, vivo o jogo de verdade, com o coração acelerado, e hoje, principalmente, caprichei no palavrão. O quê exatamente eu disse prefiro não repetir (nem aqui, nem em futuras competições). Não foram os piores, mas também nada que me faça olhar no espelho e sentir admiração.

A idéia que me veio à mente com vontade apontou a direção de um pensamento antes alimentado: num momento de jogo abraçamos o desconhecido, pintamos o rosto com as cores da bandeira e até em músicas demonstramos o orgulho pela nação.

Acho louvável o sentimento, é algo que não deve ser deixado de lado. Mas por que somos um povo que ainda move forças para o que não é essencial, é de consentimento geral – uma paixão – e voltamos a ser apenas mais um a ganhar o pão ou a reclamar do coletivo quando exatamente seria o momento de ver o outro com união?

Para ser também um técnico e xingar o juiz, fazemos churrasco e até com o cunhado temos compreensão. O que fazemos, porém, quando aquele que apita o jogo da vida marca a falta em cima do ladrão de galinhas, mas olha para o lado no de laptop na mão e permite que este time avantajado bata no outro sem perdão?

E as vuvuzelas da vida real, que dificultam a comunicação entre os jogadores, muitas vezes atrapalhando a marca de um gol, acontecendo diariamente em forma de subornos, nepotismo, egoísmo e falta de compreensão, de diálogo, não somente na política, mas em qualquer situação?

Ou sejam as cornetas de estádio realmente barulhentas, presentes em carros com som alto, acima do limite permitido ou após o horário e de grupos alterados, que oprimem o equilíbrio dos que passam um período no hospital, do que mora ao seu lado ou simplesmente dos que passam preocupados ou até então felizes, pela calçada, e são obrigados a tamparem o ouvido com as mãos?

Por que sempre precisamos em vez de um bom exame tático, cabeça fria e fazer o que deve ser feito, sem deixar-se abalar com os gols de empate ou de superação, aprender no coletivo ou individualmente, somente quando perdemos a cabeça e, assim como Felipe Melo, levamos o cartão?

Como pode uma partida que ocorreu do outro lado do oceano influenciar tanto a vida de cada um, fazendo com que o jogo seja desculpa para abusarmos do álcool, gritar desvairado pela rua e, como aconteceu esta semana em minha cidade, num dia de vitória, usar a histeria coletiva – que muitos enganadamente chamam de alegria – para espalhar vidros de carro pelo chão?

Ainda que gritassem em nome dos que dormem na rua, que se protestasse por aqueles que morrem em hospitais que não tem nem enfermeiros para aplicar injeção, também seria condenável. A agressividade, mesmo que tenha uma causa nobre, traz apenas desordem, injustiça, desunião. Ainda assim, em nome deles, não há quem falte ao trabalho ou, por ficar contagiado pela euforia coletiva, faça uma boa ação.

Hoje os jogadores, é claro, estão entristecidos, mas exatamente pelo susto que passaram, receberão da família o carinho, a consoloção. E muitos pais de família que, aqui deste lado, nada sentirão de ruim no corpo, não perderão dinheiro ou receberão mais ou menos amor por um simples resultado de jogo não esperado, mas levarão a derrota para o lado pessoal e maltratarão a si mesmos ou aos filhos, deixando neles, graças à trajetória de uma bola famosa, marcas profundas no coração?

Por mais que ainda seja muito praticado e até compreendido, já é errado desejar o mal para aquele que dormiu com a mulher, roubou suas terras ou no seu carro fez um arranhão. Pior ainda é aumentar o nível de stress, gastar sua máquina física e xingar jogadores e juiz, devido a um jogo que em sua causa original seria apenas uma competição sadia, não fossem os patrocínios, o fanatismo e de ouro a movimentação.

O menino da reportagem ouvida há pouco e as idéias em minha mente, ao voltante, já diziam: não é possível ganhar sempre. Em se tratando de seleção, neste caso, é mais fácil apreciar ao menos o esforço, ou criticar?

Por que insistimos em avaliar o efeito, e não a causa? “Um campeão se mostra na derrota”, diz a frase conhecida e que pelo antagosnismo gera impacto. Em futebol, no Brasil, não nos contentamos nem com segundo lugar.

O curioso é que no ranking de desenvolvimento é sempre decepcionante o placar. Apesar da simpatia, do otimismo – características louváveis de nosso povo, praticamente únicas, mas não suficientes – no campo da conscientização, deixamos a desejar.

Não somos um povo vitimado que trata a desgraça com otimismo, mas um povo excelente, com um potencial incrível, que desperdiça tudo isso e usa o sorriso para se acomodar.

Hoje o Brasil está triste e eu entendo a razão. Mas seja por uma causa real ou uma paixão nacional, a vida precisa sempre continuar. Por que não usar nosso otimismo na hora certa, não esperar o título mundial para comemorar e continuar acreditando não apenas no hexacampeonato, mas em nossa vida de verdade, usando todo este talento, esta capacidade de movimento nacional, também na hora de votar?

O problema do ser humano ainda é ouvir tudo num extremo. Não estou dizendo para abandonar o futebol nem deixar de comemorar, quando é o momento. Mas usar esta energia acumulada também na hora de agir, de progredir, de criar.

Vou falar principalmente para o homem, que gosta tanto deste esporte: não é muito chato ter uma mulher dependente, que não deixa você respirar, que com mimos excessivos ou cobranças, vive a te atormentar? Aí você, seguro de si, não rebate e explica que ela precisa ser feliz consigo mesma, ter vida própria, para não precisar mais recorrer à vícios ou carências degenerativas para se saciar?

Até que ponto nossa paixão exagerada não é símbolo de uma vida maltrada, que nós mesmos deixamos negligenciar?

E aquele casal, que, equilibrado, consegue o outro admirar, mas vive tudo com sabedoria, calma e paz, sem deixar de apreciar? Não é o futebol que está errado. Eu mesma reconheço difícil de acontecer e não quero que venha a acabar (lembram-se, estou de verde e amarelo, sou a torcedora que também xinga o juiz!).

Mas não seria mais saudável termos uma vida social mais elaborada, e, em vez de energia gasta num extremo onde é mais fácil extravazar, como acontece agora, canalizarmos nossa potencialidade no trabalho como um todo, pela nossa sociedade, e não ficar aliviado por ter jogo para enforcar o trabalho, mas, num sentimento de recompensa própria, fazer a pausa para ver o país jogar, cada um sentindo-se orgulhoso de sua pátria em dobro, vivendo de verdade a realização, não importa o placar?

Reconhecer o problema é o primeiro passo, dizem sabiamente os psicólogos. Apesar de sermos uma nação, um ser coletivo, não cabe a uma pessoa apenas resolver mudar tudo de uma vez, embora em nossa infantilidade ainda deleguemos responsabilidades e esperemos sempre o salvador.

O ser coletivo não é apenas um ser muito grande. É o conjunto de pequenos seres que agindo separadamente, geram uma identidade comum. Quanto mais pessoas acordarem, mais este pensamento fará parte do ser coletivo, e aí, aqueles que são os medianos, que seguem o fluxo, seguirão o exemplo e também contribuirão para a mudança de comportamento. Os que forem contra, infelizmente, pelo progresso serão arrastados, não terão opção.

Fiquem vocês agora com a reflexão que eu vou trocar de roupa, tirar os brincos, as pulseiras e a tiarinha divertida que eu só posso usar neste tipo de ocasião e que guardarei por quatro anos, porque graças à devoção às palavras hoje, dia de jogo, terei que fazer cerão.

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