“A Garotinha da Livraria”

Bom dia a todos! Ontem não foi possível publicar o conto, mas aqui estou eu!

Este é o maior conto que produzi até agora. Respirem fundo e mergulhem de uma vez…rs… E vale lembrar que é um texto protegido por lei, é proibida a reprodução, etc…

A foto que ilustra o conto é da Livraria da Travessa – Filial Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. Apesar da livraria de minha imaginação não ser tão grande, coloquei esta imagem porque foi nela que me veio a inspiração para a idéia inicial da estória.

Abraço!

Camila

“A Garotinha da Livraria

Mais uma manhã ensolarada iluminava a estante de mogno repleta de livros sobre “Ficção Científica” na pequena livraria, que ficava do centro de uma linda cidade ao pé da montanha.

Alice era quem abria o pequeno negócio do casal que havia deixado a vida estressante de alto cargo numa multinacional na cidade grande. Todo dia a mesma rotina: entrar pelos fundos, abrir as janelas da loja, jogar água nas plantas, ligar a máquina de capuccino e chocolate quente, tirar o pó das superfícies, limpar o chão e, uma hora depois, abrir a porta da frente, pontualmente às 9h.

Na pacata cidadezinha do interior nada de muito diferente acontecia. O primeiro cliente do dia geralmente era Sr. Oswaldo, viúvo aposentado que nos primeiros cinco minutos de expediente chegava com o jornal da cidade e vinha tomar um cafezinho:

– Bom dia, Alice!

– Bom dia, Sr. Oswaldo! Como vai o senhor hoje?

– Está tudo ótimo, minha filha. Hoje quero meu café mais fraco. Meu estômago não anda bem…

– Trago num minuto!

– E onde está a garotinha?

A garotinha era Dora, filha de Alice. Com apenas cinco anos de idade, Dora acompanhava a mãe ao trabalho desde bebezinha, pois o pai a havia abandonado e Alice era sozinha. A última referência de família era a mãe, mas ela havia morrido ano passado.

– Está no estoque vendo os livros novos que chegaram. Ela ainda não sabe ler, mas não consegue parar de segurar os livros e imaginar que tipo de estória contam – respondeu, orgulhosa.

– Esta menina ainda vai longe, Alice!

Foram interrompidos pela chegada de uma mulher com dois filhos adolescentes que precisavam de um exemplar de “Dom Casmurro” para o vestibular.

Entregando o café mais fraco ao Sr. Oswaldo, Alice atendeu os clientes. Após entregar o comprovante de compra, os acompanhou até a porta, despediu-se, virou-se para o fundo da loja e gritou:

– Dora, já chega, venha aqui comigo.

A pequena menina de cabelinhos encaracolados, escuros, mãozinhas gordinhas e perninhas curtas, cobertas por um vestido já muitas vezes lavado, mas de muito bom gosto, aproximou-se dos adultos e ganhou o cafuné de Sr. Oswaldo.

Tomando um gole de chocolate quente, Dora sorria para todos e facilmente fazia amizade com as crianças. Enquanto os pais muitas vezes procuravam um livro útil ou de espairecimento e deixavam os filhos na seção de infantis, era muito oportuna a amizade que faziam com a garotinha da loja.

Nesta manhã, um menino chamado Rodolfo estava sozinho e olhava um livro que virava castelo de Terror, enquanto a mãe perdia-se em livros de auto-ajuda, louca para salvar seu casamento:

– Olá, meu nome é Dora. Por que você está chorando?

– Meus pais não gostam de mim. – disse o menino.

– Tenho certeza de que não é verdade. Você sabe ler?

– Sim.

– Venha, tem um livro aqui que comprova o que eu estou dizendo. – e ela, segurando sua mãozinha, o guiou até a estante seguinte, mostrando um livro com gravuras e uma linda estória infantil que a mãe um dia havia lhe contato.

– Viu? Os pais gostam dos filhos! Talvez os seus estejam apenas com problemas. Minha mãe me contou que meu pai viaja para nos sustentar e ela é sempre muito carinhosa comigo.

– Os meus pais brigam e dizem coisas horríveis um ao outro.

– Mas lemos no livro que é normal os pais brigarem. Venha, vou lhe mostar uma estória de dragão que vai fazer você viver em outra realidade.

E assim, Dora conduziu o novo amiguinho a um novo mundo, cheio de aventura, heróis, vilões e a certeza de que mesmo após os problemas, o Bem vence no final. Isso o alegrou.

Quando já riam enquanto ele lia para ela o livro do sapinho que morava no brejo, a mãe do menino o chamou, seca:

– Rodolfo, dê tchau para sua amiguinha e vamos para casa, estou atrasada!

Rapidamente se despediram e Dora ficou novamente sozinha. A mãe trazia os livros novos que haviam chegado:

– Dora, não manuseie os livros novos antes dos clientes… Tem alguns que vieram em volumes únicos e não devemos estragar. Lembre-se de que eles não são nossos, são de nossos patrões e são para vender, certo?

– Certo, mamãe – disse a menina, um pouco chateada. Havia visto as capas de todos anteriormente, mas estavam empacotados e ela sabia que não deveria abri-los.

Dora almoçava na pequena cozinha do Café que havia dentro da livraria. Após o almoço, Alice arrumava a filha e a levava à escola, que ficava a quatro quarteirões dali. No final da tarde deixava a loja com os funcionários novamente e ia buscá-la.

A essa hora D. Marta, a dona, já passava pela livraria, enquanto o marido, trancado no escritório desde o princípio da manhã, finalmente saía e juntos tomavam um cafezinho com bolo.

Alice sempre permitia que, no final do dia, Dora comesse um salgadinho que ninguém havia comprado ou uma broinha que havia sobrado. Mas D. Marta fazia questão de que fosse servido um pão de queijo quentinho com suco ou chocolate quente, o quê o tempo pedisse.

A livraria encerrava as atividades às 20h, e era Alice quem fechava. O casal geralmente partia às 18h e a loja voltava a ser de Dora novamente. À noite havia o movimento da faculdade, mas era por volta de 19h. Até lá ela voltava a mexer nos livros repetidos e já abertos, mas sempre os devolvia ao mesmo lugar. Eram os requisitos para que pudesse da loja desfrutar.

Mais uma noite acabava. Alice fechava a loja e 20h30 já estavam, mãe e filha, na rua a caminhar com destino à própria casa. Dora adorava seu lar, seu quarto de joaninha, a sala/cozinha apertada que sempre cheirava coisas deliciosas, que a mãe, incansável, sempre estava a preparar.

Naquele momento, juntas conversavam sobre a escola e após uma refeição leve, sopa ou iogurte com frutas, iam ambas descansar.

No dia seguinte a mesma rotina, e era da livraria que Dora mais gostava. Lá ela se sentia realmente em casa. Adorava os clientes costumeiros, os funcionários que aos poucos iam chegando e de vez em quando conversando, trazendo um pedaço de bolo, um pirulito ou uma balinha.

Mas do que ela gostava mesmo era quando chegava algum livro com defeito, os donos reclamavam e a editora simplesmente um novo exemplar enviava, e aquele poderiam descartar. D. Marta e o marido sabiam que ele de nada lhes serviriam, mas sabiam muito bem quem os iria apreciar.

Dora sentia-se premiada quando isso acontecia e em seu baú no pequeno quarto apertado, na ausência de bonecas, ela o enchia de livros de mecânica, literatura e até mesmo alguns desenhados. Quando olhava aquelas páginas, imaginava o que cada um deles continha, e se sentia flutuar.

Não via a hora do ano acabar, pois no que viria, iria começar a se alfabetizar. Apesar do salário apertado, Dora estudava num colégio particular, pago pelo casal tão solidário e feliz, que além dos livros estragados permitiam que ela escolhesse um novinho devido ao bom comportamento, no final de cada mês.

Os colegas a julgavam “pobre coitada”, pois apesar do uniforme, notava-se a simplicidade do tênis e a ausência de materiais mais caros, brincos verdadeiramente metalizados e festas badaladas para comemorar o nascimento.

Ela, porém, sentia-se rica por dentro, pois o mundo que vivia graças à imaginação e aos mundos novos que saberia que teria, quando fosse completa a alfabetização, a faziam plena e realizada.

Na manhã do dia seguinte, mais uma vez ganhou o cafuné do Sr. Oswaldo, que trouxe a ela um Gibi. Ela, espontânea, sentou-se em sua mesa, aceitou a mordida do pão – para desespero de Alice – e olhou gravura por gravura, sem desgrudar o olho dali.

Sua mãe veio dar-lhe a bronca mansa, pedindo que deixasse Sr. Oswaldo em paz. Ele sorriu e disse no mesmo momento:

– Alice, vá cuidar de seus afazeres e deixe a criança. Ela não me incomoda, só aceitou o meu convite para que se sentasse e comesse meu pão. Fui eu quem ofereci.

Contrariada por temer incomodar os clientes, mas aliviada por sua filha não ter feito nada errado, foi atender a família que trazia uma pilha de livros na mão.

Assim que Sr. Oswaldo foi embora, Dora voltou à seção infantil e lá havia um livro rosa, com um castelo encantado na capa, que ontem não estava ali.

Aquele era o livro dos sonhos de toda menina. Seus olhinhos brilharam e ela estendeu as mãozinhas para pegá-lo, mas chegou uma criança-cliente e pegou o livro em sua frente. A menina também ficou encantada, mas nem um pouco de cuidado com o livro tinha.

Alice, atrás do balcão, servindo capuccino a uma senhora, com o olhar deu-lhe a ordem para se afastar. Ela foi até a mãe e cochichou no ouvido que a menina estava a danificar o livro, mas Alice, ocupada, disse:

– Querida, você conhece as regras. Ela é cliente. Se ela estragar o livro é uma coisa, mas você, outra. Estou trabalhando, já conversamos sobre isso. Por que não vai à cozinha terminar seu dever? Entro assim que possível para ajudá-la.

Obediente, Dora seguiu, cabisbaixa. O livro, entretanto, não saía de sua mente. Foi à escola, voltou, e só pensava nele. Mas sabia a posição da mãe, e nada disse aos donos, para não parecer pedir. E era um livro muito caro, não seria um daqueles que no final do mês iria ganhar.

Mais alguns dias se passaram e ela aproveitava quando alguma cliente folheava para também admirar. Umas com ela sentavam e conversavam, outras viravam o corpo para o livro tampar.

Na semana seguinte, Rodolfo veio novamente, acompanhado da mãe que foi só o deixar na seção infantil e ler o título de um dos livros de auto-ajuda para começar a chorar.

Alice, que naquele momento recolhia a louça dos clientes que haviam acabado de deixar o lugar, convidou-a a sentar e ofereceu-lhe um café. Enquanto o filho a olhava, assustado, Alice sugeriu que Dora o levasse para brincar enquanto a mãe dele e ela iriam conversar.

Enquanto as adultas dialogavam, a garotinha, que ia aproveitar o amigo para lhe pedir o favor de o livro folhear, mudou de idéia. Devido à sua tristeza e para animá-lo, foi um simples livro de dinossauros mostrar.

Ele contou que o pai os havia deixado e a mãe nem da cama conseguia se levantar. Ele até na escola havia faltado e um pouco de fome sentia, já que a mãe tudo queimava ou às vezes da comida esquecia, e ele, que não era de reclamar, ficava sozinho em seu quarto e começava a chorar.

Dora contou a ele que em todos os momentos de dificuldade, a mãe a presenteava com um livro de estorinha, que a levava a outra realidade. Disse que para ela havia funcionado, não custava nada a ele tentar.

Novamente mostrou ao amigo um livro complicado, e juntos imaginavam que história aquele pedaço de papel contava. Viu o amigo rir do absurdo que ela havia imaginado, e ele, grato, deu-lhe um beijo e, tímido, disse que precisava ir.

Quando chegou no café a mãe já estava mais animada. Ela tinha encontrado na simples funcionária da livraria uma moça vivida e uma amiga inesperada. Prometeu voltar mais vezes, para um dia, quem sabe, deixar as crianças juntas com a babá e poderem se divertir.

Um pouco depois, Dora viu outra vez a menina mimada pegar o livro do castelo cor-de-rosa e chegou a deixar a capa de chocolate manchada. Achou aquilo o cúmulo da falta de educação e ia dar à menina uma lição. Caminhou decidida em sua direção. Disse que havia maneiras de se cuidar de um livro, ainda mais de um que não era seu. A menina, não acostumada a ser contrariada, deu-lhe logo um safanão. O livro voou para o outro lado, com uma página rasgada. Dora, mesmo irada, reagiu por instinto, mas pensando por um leve lapso de tempo, cogitou o que machucaria menos e no sapato envernizado deu apenas um leve pisão.

A menina revidou e Alice as separou no momento em que das unhas limpas e pintadas a filha levaria no rosto um arranhão. Os patrões não estavam lá naquele momento. A cliente sentiu-se ultrajada pela filha da funcionária ter tido o atrevimento de dirigir a palavra à sua pirralha, e saiu ameaçando processar a loja por agressão.

Alice, apesar de sensata e saber para isso haver uma explicação, não ouviu o que a menina tinha a lhe contar. Pensou apenas no emprego que perderia e em como faria para à própria filha dar sustento. Com um olhar fulminante e monossílabos bravos, colocou-a de castigo, por um tempão.

Dora saiu com lágrimas a escorrer. Estava em partes errada, sabia, mas tinha lá uma dose de razão. Trocou-se sozinha para o colégio e mais doeu o olhar duro da mãe e seu silêncio que a injustiça da ocasião.

Alice pediu à funcionária que buscasse a filha naquele dia, para que pudesse conversar com D. Marta sobre o ocorrido de outrora. A moça chegou com ela da escola e foi logo atender um cliente, deixando a garotinha solta pelo salão.

Aliviada pelos breves minutos de liberdade, Dora subiu as escadas do mezanino e foi às estantes mais ao fundo, para não ser rapidamente notada e ter um pouco mais de privacidade.

Percebeu que dali podia avistar o livro tão desejado, emendado com durex e tido como mostruário, esperando um novo volume a ser vendido chegar. Talvez agora pudesse tocá-lo, mas não sem antes da mãe ter a permissão.

Caminhava lentamente olhando as lombadas dos livros de história e antropologia, que ela sabia desvendar magníficos segredos da humanidade.

Não viu dois carregadores que traziam pilhas de caixas de livros de outro segmento, e a caminho do estoque, dela também não tinham visão.

Os homens, com pressa para encerrarem mais um dia de trabalho, vinham em alta velocidade. Dora sentiu o impacto, a queda e tudo ficou turvo, ficou estirada no chão.

Quando acordou, estava só na livraria, e não conseguia parar de procurar o livro que tanto queria, embora estivesse com uma leve dificuldade para andar.

O dia amanheceu e ela finalmente encontrou seu objeto de desejo, mas a loja já estava aberta e havia clientes pela loja a perambular.

Queria com a mãe fazer as pazes, mas ela estava com a cara tão sisuda que achou melhor esperar que Alice a viesse procurar.

Sr. Oswaldo saía e com ela nem havia falado. Vai ver havia ouvido sobre o caríssimo livro rasgado e, por também ser adulto e compreender a mãe, com ela também estava chateado.

Continuou passeando pelas estantes que os clientes pouco visitavam e imaginavam o que cada livro trazia. Até que viu Rodolfo, com um livro nas mãos, a mãe de mãos dadas ao lado.

Chamou-o e ele desvencilhou-se da adulta, que não entendeu a situação. Encontraram-se novamente na seção infantil, e ela, ainda correndo, chegou até ele, dizendo:

– Rodolfo, que bom que está aqui! Preciso que você me ajude a ver um livro que é mostruário, eu já posso tocar, mas minha mãe está chateada e eu prefiro não arriscar.

O menino, surpreso, respondeu:

– Dora, o que você está fazendo aqui?

– Olhando os livros. E você?

– Minha mãe veio conversar com a sua, oferecer sua amizade depois do que aconteceu…

Conversariam mais, mas a mãe do menino o chamou e ele disse:

– Minha mãe está com o humor levantado e graças aos livros que você me apresentou eu comecei a sonhar. Obrigada, Dora! Preciso ir. Você vai estar sempre aqui?

– Claro, seu bobo, omde mais eu deveria estar?! Volte logo, precisamos conversar!

Desapontada por mais uma vez o amigo ter se afastado quando ela precisava, feliz, porém, por sentir a alegria que ele demonstrava quando a via, saltitando ela foi o rosto de sua mãe beijar.

Alice ainda continuava brava, recebeu o beijo e não reagiu, com ela nem conversou. A pequena ficou intrigada. D. Marta, que estava lá já pela manhã, parecia apenas cansada, mas não demonstrava rancor, embora também não tivesse lhe dirigido a palavra. Dora não entendia porque a mãe a desprezava.

O dia todo passou, e ela nem ao colégio havia ido. Quando a noite chegou ela imaginou que a mãe e ela conversariam, mas ela só chorava, trancou tudo e, acompanhada de D. Marta e o marido, partiu.

Sentindo-se abandonada e com medo de, à noite, a livraria ser mal assombrada, ouviu o barulho do vento e esqueceu do livro cor-de-rosa por um momento. Lembrando-se do anjo guardião, ajoelhou-se no chão, juntou as mãos e rezou, como a mãe havia ensinado.

Antes, porém, do gestual, quando seu coração havia sentido o medo e pedido ajuda, que era o que importava, o protetor já havia sido enviado.

Quando terminou a oração de cinco frases que tanto havia feito, a luz acendeu, e ela viu a avó que tinha vindo lhe buscar:

– Vovó, o que a senhora faz aqui?

– Venha comigo.

– Por que a mamãe me abandonou?

– Na verdade, querida, foi você quem a deixou. Sua tarefa, por hora, terminou. Você trouxe alegria, esperança e fé. Agora eles têm o suficiente para continuar. Você, minha menina, que a tantos alegrou, que amigos sinceros fez e que ensinou a sonhar, quer finalmente aprender a voar?

– Voar? – e seus olhinhos brilharam. – Para onde a senhora irá me levar? E a mamãe?

– Não se preocupe. Ela é forte, vai ficar bem. Quando você se recuperar vai entender que nada acontece em vão e a virá visitar. Você voltará comigo para um lugar seguro, não tão longe daqui. Nada acontece por acaso, tudo tem uma razão.

– Posso levar aquele livro que é o mais lindo que já vi?

– Querida, você pode fazer o que quiser. Se não quiser vir comigo, poderá escolher ficar, mas o livro não faz parte mais de sua realidade. Você pode ficar aqui, presa a ele, e viver uma ilusão.

– Eu queria tanto lê-lo por inteiro, ver a princesa passear por todo castelo… Gosto tanto dele, vovó! Nunca vi um livro que mexesse tanto com minha imaginação!

– Querida, isso é apego. Chegou o momento de você aceitar mais uma mudança que a vida oferece. Tolo é quem pensa que tudo é sempre igual. Se você vier comigo sua vida terá continuidade e um novo mundo irá se revelar, como nos livros que lia. Aceite o que lhe é dado! Daqui você só pode levar o que guardou em seu coração.

Dora ficou pensativa, mas ainda assim revidou:

– Não, vovó, não é só isso… Não quero o livro somente porque gosto, mas porque não é justo deixá-lo aqui para alguém que talvez não vá nem cuidar dele com cuidado!

– Meu amor, isso não é mais sua responsabilidade. “Mas”, “poréns” e “entretantos” é o que mais se ouve deste lado. Justificativas, bobas ou nobres, sempre existirão. É por dar valor ao que não importa de verdade, no momento errado, que muitos ainda vivem na estagnação.

A menina olhou para o livro, pensou na mãe e ficou a pensar… a avó a convenceu:

– O amor que você sente nunca lhe será tirado, e quando é verdadeiro, não precisa da presença física para haver união. Você pode viver em torno do desejo de uma vida e sofrer do medo, do silêncio dos que ama e da falta de opção. Ou pode seguir em frente, recuperar-se, reencontrar amigos de tempos idos, adaptar-se à mudança. O livro faz parte do passado, e não é castigo ou prêmio voar para o horizonte de céu azul, é de cada um a decisão.

Vendo tanto carinho em seu olhar, Dora chorou por ter que a mãe deixar, mas sabia que não havia como voltar atrás. Estendeu as mãozinhas gordinhas à vovó que a amava e, assim como ficava quando abria um livro, imaginava, cheia de expectativas, o que estaria por vir.

No mesmo instante começou a levitar e, encantada, voou pela livraria, pelo bairro e logo a cidade já era um pontinho… Até que, deslumbrada, viu o mar, as terras e o planeta também foi ficando para trás… Neste momento ela sentiu tanta paz… Sorriu para a avó, que dela não desgrudava, e continuou voando mais um pouquinho, confiante e feliz, aceitando seu destino, rumo à imensidão… ”

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