Minha Vida que Não Minha 2

solidao caminhoAprendo pelo o posto aquilo que a vida quer que eu conheça. Não seria assim com todos, na maioria do tempo? Prazer, mundo! Acabaram-se meus benefícios.

Não compreendo como pode ser melhor ser obrigada pela força dos acontecimentos a escolher o pior dos caminhos. Eu que sempre penso antes de fazer, tendo concluído ser o amor a melhor escolha, brinco sem achar graça alguma o jogo do contrário na versão dolorida.

Só porque tive por opção inicial valorizar o ser humano masculino e acreditar no amor, fui deixada para trás por muitas garotas “descoladas” que convenceram o pior lado dos seres deste gênero e cada uma destas uniões mostrou-me apenas que o amor vale muito pouco quando o assunto é relacionamento.

Só porque fui uma boa filha, não roubei atenção o suficiente daquele que deveria me proteger e suas próprias questões, deste lado negativo do homem, cresceram no palco da vida. E esta, então, me pagou com abandono onde eu plantei amor.

Só porque é belo seguir o coração e o sonho, acreditei nos meus e dei com a cara no chão.

Tudo isso, apenas devido ao único e exclusivo fato de ter resolvido mudar. Decidido crescer. Somente porque parei de ouvir meus medos, minha gigante insegurança e passei a alimentar minha autoestima. Porque confiei em mim.

Tivesse sido covarde, jamais teria vendido um negócio que me sufocava e me prendia, para retornar ao jornalismo que eu não tinha tido a chance de exercer. Houvesse eu ainda continuado insegura, agarrar-me-ia ao título do diploma e jamais ousaria ouvir, finalmente, a minha vocação. E nunca teria escrito um texto literário neste blog, muito menos escreveria nenhum livro, ou, plenamente realizada e em paz, me sentiria capaz de conseguir coisas por mim mesma.

Se eu tivesse seguido meus instintos, minha carência, minha solidão, teria tido cada um dos variados tipos de relacionamentos possíveis, na confusão que o Homem ainda faz com a emoção – os quais eu descrevo com detalhes e argumentos convincentes no livro pelo qual precisei vender meu carro para poder terminar, mas que quase ninguém (re)conhece –, repetidas vezes. Não teria escrito nenhum poema. Não teria feito um outdoor para lutar pela felicidade, pela vida – com a qual não deveriam brincar. Não teria tomado benzetacil sem dor. Não teria sonhado acordada. Não teria amado incondicionalmente. Não teria sido alimentada por apenas um olhar, um sorriso. Não teria conhecido a verdadeira felicidade. Contudo, ainda acreditaria no amor, que sempre seria maior do que isso – e não o contrário.

Se eu não tivesse acreditado em mim, não teria movimentado o melhor que possuo, trocaria a fé pela razão e hoje estaria muito bem. Teria tirado vantagem da minha época de classe média alta, sem um pingo de culpa ou consideração por quem me sustentava, e hoje teria muito (muito) mais do que possuo; estaria sempre acompanhada e seria uma das mais populares do meu meio.

Se em vez de meiga eu também tirasse sarro; se em vez de humilde (em alguns aspectos) eu fosse vaidosa; se, em vez de sonhadora, eu fosse esperta; e se em vez de romântica, eu fosse a eu fogosa mesmo sem nenhum sentimento, não faltariam homens enlouquecidos ao meu redor. Seria única e exclusivamente a minha conveniência, não meu coração, quem escolheria.

Parece, entretanto, que o problema continua sendo a tal da autoestima, porém, em uma lógica invertida. Não existem mais leis e regras da vida, apenas um grande erro: eu. Tudo o que faço, não importa a causa e muito menos o efeito, ainda que estejam em extremos opostos ou mesmo no caminho do meio: é errado. Sou eu a inadequada. Quis acreditar no melhor e a vida, surpreendentemente, me deu o chapéu; em contrapartida, quero, exausta, sucumbir, mas algo aqui dentro simplesmente não me permite cair de vez. Nada é certo, nada acontece.

Parece que a vida passa lá longe, para todos, e eu vejo tudo de fora. Ou melhor, de dentro: presa em uma fina camada de vidro transparente que tem plena consciência do que não vive, mas que nunca quebra para deixar viver.

Nada entra em harmonia. Nada acontece. O tempo passa apenas para me consumir a saúde, a fé, a paciência, a força… o tempo. Para eu ver a vida de todo mundo progredindo. Nunca para fazer justiça. Para a acreditada reviravolta. Aliás, quem devolve o tempo perdido? Por melhor que tudo um dia aconteça, quero saber do tempo perdido. Que nada nem ninguém pode mais restituir. Que será da vida que eu estou perdendo, agora? Já que a vida é tão preciosa, por que preciso me contentar, aceitar, esperar e ter fé em perdê-la? Por que, para mim, só vale o “um dia”, justo quando tudo o que fiz foi exatamente parar de deixar as coisas para “um dia”, ter coragem de mudar, de crescer, de agir, e construir o presente?

Estou cansada, mas tão cansada, de aprender a cuidar de mim por sentir o desprezo dos outros e precisar me defender. Gostaria de poder concordar com a valorização e relaxar, deixar o bom sentimento fluir. Queria que fizessem questão, não receber sorrisos por compaixão. Todo mundo vai, eu fico. Faz tempo, ah, muito tempo, que não me contento mais com migalhas. Por que elas parecem ser a única opção? Justo eu, que tenho muito mais que migalhas a oferecer?

Eu sempre optei pelo amor, seja para viver, seja para aprender. Por que a vida me lê com a dor?

Pelo mero fato de ser como sou, escolhi o pior tipo de solidão. Não a do corpo, mas da alma. A primeira oferece a companhia desacompanhada, contudo, a distração dos sentidos, o encaixe na sociedade. A segunda promove o isolamento, exponencialmente multiplicado pelo instinto reprimido, as ácidas opiniões alheias, a ausência de conhecimento de tantas causas, no convívio.

Tal qual uma doce e bela criança indefesa cai numa cela de assassinos e estupradores, na minha ingenuidade de conceitos, eu pensei que o sacrifício valia a pena. Que o amor era maior que tudo. Que ao fazermos coisas boas, atraímos coisas boas. Que há justiça. Que a mudança faz parte da vida. Que estamos aqui para crescer.

Todavia, se eu tivesse deixado minha autoestima quieta, bem baixinha, teria percorrido os caminhos mais seguros e, com a minha inteligência, responsabilidade, esforço, hoje estaria rica, ou, pelo menos, muito bem na vida; teria me contentado com qualquer pessoa por companhia e poderia até não ter um companheiro, mas talvez tivesse um presente em datas específicas, um perfil para colocar no status de relacionamento da rede social e, se eu seguisse apenas os instintos ou necessidades, por que não, alguns orgasmos, só para deixar a mente mais desanuviada e a pele mais bonita?

Nesta cena grotesca, Deus seria o carcereiro que me tiraria da prisão, não o magistrado que me colocou nela. Ainda assim, no mais profundo do meu ser, ele é apenas o juiz sábio, justo e bom, e nada entendo.

Deslocamento é inefável angústia que perturba o ser humano. Já é ruim o bastante viver uma vida alheia. Pior ainda é sentir tanta dor por ter tido a sua arrancada bruscamente, que – por ter conhecido a morte – se busca a vida acima de tudo, e sofre-se também por não conseguir se encaixar. Nem mesmo em uma vida que não minha.

Fonte da imagem: almadegolfinho.blogspot.com

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