Primeiro trabalho

Bom dia a todos! É com muita satisfação que apresento a vocês meu primeiro texto de trabalho publicado aqui. Vale lembrar que este conto já está devidamente protegido por lei e que é proibida sua reprodução de qualquer forma sem autorização da autora. Espero que gostem!

O Político que não está sozinho

Fulaninho era um menino muito esperto. Desde cedo, com o pai, aprendeu a furar a fila no mercado, trapacear no jogo de baralho, vender produto fajuto aos amigos e mentir para a mãe do antigo paredeiro onde do “velho” estava acompanhado.

Quando conheceu Mariazinha prometeu todo o céu até que ela, encantada, cedeu ao olhar maroto, às palavras doces retiradas do romance da banca de jornal e aos carinhos que havia aprendido com o rapaz “chapa quente”, cinco anos mais velho, quando saía escondido para fumar.

Apaixonada, teve o coração partido pois em vez de noivado, como era o que deveria acontecer, Fulaninho, dela já enjoado, encontrou uma moça que usava roupa curta, atitude descolada e caprichava no rebolado.

Trabalhava na vendinha do S. Manoel mas por fora, com o dinheiro da rinha, conseguia comprar o perfume importado que usava não mais para atrair a moça do rebolado, mas a tímida garota da padaria que com os amigos havia apostado quem mais cedo ganharia.

Enquanto ela não caía, divertia-se com a mulher da vida que o amigo havia descolado num pacote que dava pro gasto, mas não resolvia.

Como a tímida caiu na lábia do Fausto por ele ter conseguido primeiramente o carro emprestado, ele deixou a moça da vida de lado e descobriu que na cidade grande era mais fácil ter o que queria.

Aproveitou para largar o trabalho e, por ser desconhecido, simplesmente poder subir na vida sem ser recriminado.

Iludido pelo “amigo” embigodado, ao dar todo seu dinheiro com passagem e comida durante o caminho, viu-se sem ninguém ao lado e nenhum lugar como guarida.

Primeiro viveu na rodoviária e carregava malas por um trocado. Quando ia passar a lábia numa madame, que normalmente teria aceitado, percebeu-se malcheiroso, barbudo, maltratado e nem foi ouvido.

Descobriu um albergue onde outros banho haviam tomado, e dirigiu-se ao local, decido. Chegando lá teve acesso negado, pois o lugar estava lotado. Passou a noite na rua, teve um rato passando ao lado. Sentiu-se enojado, e quando ia se arrepender por sua vida simples, porém digna, ter trocado, viu um bacana passando num carro importado e ficou revoltado.

No terceiro dia teve a barba feita, o corpo lavado e o estômago devidamente preenchido. Conheceu um cara que vendia baseado e resolveu seguir em frente em vez de aceitar a passagem de volta, que a prefeitura teria pago.

Na boca de fumo, enquanto o riquinho fazia a encomenda para a festa da semana com o colega de atividade, conheceu a namorada que esperava no carro, entediada.

Já bem vestido, perfumado e cheio de charme, perguntou o que havia acontecido, fingindo ser alguém que estava apenas de passagem. Dizendo palavras de um romance já mais rebuscado, colocando o sorriso de galã no rosto e dando um suave toque nas delicadas mãos de moça rica que escondiam um hematoma no braço, vindo do namorado – que ficou agressivo por ter se tornado drogado -, viu que mesmo fugindo do contato, ela havia gostado.

Na semana seguinte mais um pouco conversaram, e para ter cumplicidade ele fingiu a confissão de um drogado recuperado. Com um discurso previamente ensaiado, conseguiu arrancar uma lágrima daquele rosto maltratado.

Já na outra semana, trêmula, a moça voltou sozinha, sem o namorado. Haviam rompido o compromisso, pois o rapaz estava internado. Após fumar um baseado, procurou pelo amigo, que fingiu estar ocupado, e forçando um sorriso por “sem saber” tê-la reencontrado, juntos saíram para ver um filme.

Ao longo do tempo percebeu tratar-se da filha de um deputado. Sorrindo enquanto ela retocava a maquiagem, após descobrir o inusitado, previu como sua vida poderia ser grande, como, afinal, ele merecia, e convidou-a a um passeio no parque. Imediatamente alugou um cantinho numa vizinhança descente para poder em pouco tempo seduzi-la.

Com a desculpa de reformar o apartamento, iniciaram o relacionamento íntimo na cama de um motel mais caro do que ele previa, mas enquanto para ela sorria e a beijava, ele pensou valer à pena o investimento.

Um dia, após o mais romântico dos jantares, num momento em que seria impossível interromper o que se sucederia e após tê-la confundido sobre o remédio que impediria o concebimento, fingiu ter esquecido o preservativo. Olhou para ela com ternura, dizendo com os lábios que esperaria, mas acariciando-a onde ela mais queria, e passaram a noite inteira juntos, sem um do outro desgrudar em nenhum momento.

Já com um apartamentinho jeitosinho e roupa de “mocinho”, criou a imagem do rapaz batalhador que havia encontrado o grande amor. Ela, acostumada a ser vista como a rica filha do político, nem mais drogas usava, de tão feliz que se sentia por ter encontrado um rapaz tão honesto e carinhoso como companhia.

Chegou o dia de apresentá-lo à família. Ele, que já havia lido pouco mais que romances para se sentir instruído e sobre teoria política e jornais tudo sabia, caiu nas graças do deputado.

Com a gravidez precoce, o casamento logo foi marcado. Uma faculdade foi cursada, o inglês aprendido e logo ele em Brasília tinha uma vaga.

Para a mãe, fazia anos que não escrevia. O pai já havia morrido. O filho até que o havia tocado, mas ele via na criança mais um motivo de busca para subir na vida, a fim de deixar um bom legado.

O sogro tinha boa reputação, era realmente um homem honesto e com o país compromissado. Fulaninho levou anos sem levantar suspeita, pois se até o sogro o adorava, deviam ser farinha do mesmo saco.

Já com seus assessores, créditos em viagens e gabinete pomposo, ele aliviava a tensão do cargo usando o cartão corporativo ou tendo relações com a mulher do companheiro de senado, que visitava o Congresso quase todo dia com a desculpa de ver o marido.

Sua esposa, grávida do terceiro bebê e ostentando jóias caras, compradas em Paris, fazia vista grossa ao perfume feminino em suas roupas frequentemente encontrado, contanto que o cartão de crédito fosse liberado e ele aparecesse para os eventos onde eram esperados.

Casamento era mesmo assim, a desiludida Sra. Fulaninho pensava. Depois do encanto do começo, a rotina separava as pessoas e cada um seguia seu caminho. Contando que houvesse o mínimo de contato, necessidades físicas saciadas, ela nada dizia.

Certo dia o gabinete fora invadido por pessoas que por desvio de verba teriam o hospital fechado, a escola interditada ou as casas demolidas. Antes que os jornais chegassem ele chamou a segurança e usando de violência teve aquele grupo dispersado.

Quando já até havia uma conta na Suíça e ele desfilava seu terceiro carro importado, depois do apartamento na Europa e a pequena ilha no litoral paulista, ele subornou alguns colegas e conseguiu ter um projeto vetado, fazendo com que muitos cidadãos que pagam impostos tivessem ainda mais prejudicada a própria vida.

O filho mais velho e as duas meninas, com o tempo, passaram a ser a única coisa que falavam ao seu coração. Mas acostumado a tudo ter, ainda ressentido pela infância simples, julgando dar aos filhos uma cheia de prazer, ganancioso, ele prosseguia.

O primeiro escândalo foi quando ele foi fotografado aos beijos com a assistente de cargo inventado. Ele a contratou somente por belas pernas ter e, de comum acordo, ambos sabiam o tipo de relacionamento que dentro do gabinete, pago com os cofres públicos, ambos iam viver.

Os filhos choravam ao chegar em casa naquela noite e a mulher nada fazia. Estava bêbada, no quarto. A babá era quem ajudava com o dever de casa a filha.

Com o discurso previamente calculado, embora o coração alterado, Fulaninho mentiu criando uma verdadeira teoria da conspiração vitimando aquele pai tão dedicado.

Mais discursos, festas, comidas em restaurantes caros, viagens internacionais e efêmeras relações sexuais compradas com um colar de pérolas, pago com o imposto de renda do fiel pai de família, ou um quarto autmomóvel internacional, pago com o imposto recolhido na compra de muito mais de um carro popular eternamente parcelado.

Na colunas sociais as crianças sempre penteadas, brincando nos lugares da moda, amigas de gente importante e uma mãe ainda elegante, muito bem cuidada, davam a impressão de conjunto feliz.

Até que um dia ele se encantou com uma moça recatada, estagiária devidamente encaminhada, legalmente inserida naquele contexto de luta pelo bem e podridão.

Ele, esquecendo-se de que não era mais atraente nem poderia compensar isso com seu charme e boa conversa, pois não conseguia disfarçar a luxuria no olhar quando estava com ela, em sua arrogância partiu para cima da moça sem perdão.

Foi acusado de assédio sexual e teve o cargo exonerado. Outro escândalo sujando suas mãos. A família não mais conseguia encará-lo e ali começou sua redenção.

Precisou vender o barco, o apartamento na Europa e os carros importados para pagar parte da dívida à Nação.

Os filhos no novo colégio foram renegados, perseguidos e humilhados e isso foi a primeira coisa que realmente doeu em seu coração. Pela primeira vez uma lágrima desceu daqueles olhos vidrados, com sinceridade, mas não havia ninguém a seu lado para lhe estender a mão.

A esposa, sem glamour, publicamente humilhada, logo pediu o divórcio e voltou para o sertão.

Dos filhos morria de saudade, mas por eles não era procurado, pois o legado que lhes tinha deixado além de não ser medido em ouro era também decepção.

Não conseguiu trabalho pois nada mais sabia fazer além de politicagem, e disso havia se cansado. Logo foi morar numa pensão.

Em pouco tempo teve o filho sequestrado, não por um desinformado que ainda o julgava com o bolso recheado, mas pelo filho de um pai que havia perdido tudo em um dos projetos vetados, e queria para o seu problema chamar a atenção.

O pobre coitado, que nada justifica – estava errado -, foi parar na prisão, e o filho, traumatizado, foi fazer intercâmbio e passou a morar no Japão.

No carro popular já há alguns anos usado, ele distraiu-se por sentir a culpa misturar-se à saudade, e, numa estradinha intermunicipal, que devia ter sido recapeada à época de seu mandato, um buraco o fez perder a direção.

Por mais tempo do que seria indicado, foi socorrido e encaminhado ao hospital que há alguns anos ajudou a pagar o quinto carro importado e que hoje, ainda relegado, não tinha recursos para deixá-lo são.

Ele que da imaturidade do povo que o elegeu e não o acompanhou, conseguiu até um helicóptero, esperava, inconsciente, para sua transferência um simples camburão.

Chegando, finalmente, ao hospital público mais próximo, foi mal atendido pelo residente que havia estudado nas escolas que ele havia negligenciado, e em vez de coágulo foi tratado como se tivesse no osso craniano uma lesão.

A demora e o cuidado equivocado deixaram como sequela a imobilização. No dia seguinte, transferido para o hospital particular, que ainda pagava com algumas economias feitas informalmente e com a ajuda dos filhos, que viam aquele quadro com sofreguidão, recebeu a notícia que nunca mais conseguiria fincar os pés no chão.

De alguém dependeria até o fim de seus dias. Nenhum rebento, por mais que sofresse, resolveu de sua vida abdicar, pois doía muito ainda a decepção que aquele pai tinha sido capaz de causar.

No abrigo das freiras foi pedir guarida, e elas, por estarem acostumadas a perdoar, abriram não somente a porta da casa, mas também o coração.

Preso a maioria de tempo a uma cama, usando camiseta branca de algodão, conhecendo pessoas de tão diferentes trajetórias e com quem compartilhava o peso da solidão, Fulinho não se sentia só.

Em sua mente, onde quer que estivesse, estavam seus filhos, a esposa de outrora representando todas as outras mulheres que usara, assim como aqueles que do Estado dependiam e que de fome, frio ou desgosto haviam morrido, ou ainda viviam, em busca do pão, cujos rostos ele desconhecia, mas sentia a energia negativa, a perseguição.

Um dia chegou ao abrigo uma senhora enlouquecida, que não conseguia deixar a roupa no corpo e precisava ser tratada à base de medicação. Era Mariazinha, o primeiro de seus grandes erros, que vinha em pessoa mostrar os resultados de sua ação.

Após terem terminado ela havia “caído na vida” e tinha sido aposentada à força, trazida pela filho mais novo, do terceiro pai diferente e desconhecido, que para a situação da mãe não via mais solução.

Pela segunda vez ele chorou. A culpa o atormentou demais e ele quis até mesmo liquidar a vida, mas seus braços eram fracos e ele até para isso precisaria de uma mão.

Ali seguiu seus dias e morreu sozinho, de ataque no coração.

Mariazinha e ele poderiam até não ter dado certo com o relacionamento, mas se tivessem uma ligação saudável, hoje ela poderia estar feliz em seu ateliê, com o segundo neto correndo contente pelo salão.

As outras moças que usou, se tivessem nele encontrado um amigo em vez de mais uma vez se sentirem usadas, talvez tivessem desde mudado de vida a ter feito ao menos a primeira reflexão.

A mulher que ele enganou por ser abastada poderia ter sido tirada do vício e encontrado a felicidade num lar com amor e compreensão. Os filhos, mesmo numa simples escola classe média, vinda do suor ou talvez da ajuda do avô, poderiam deixar a terapia de lado e em vez de traumas, ter uma boa recordação.

O pai de família que ele por ganância desalojou e que perdeu o emprego, passou a beber e se matou; o recém nascido que morreu de infecção hospitalar num hospital que mal desinfetante conseguia comprar; a jovem que parou de estudar por ter a escola fechada por falta de professor, cujo salário ele não ajudou a aumentar, e que na vida se perdeu; o trabalhador que teve o filho assaltado, morto ou estuprado e que se revoltou, deixando a mulher com tanto desgosto que não chegou a se matar, mas por nada mais sentiu alegria e espalhou a muitos este sentimento, e tantos outros a perder de vista, poderiam resultar num conjunto melhor, que a ele mesmo afetaria…

O filho de Fulaninho poderia ter no Brasil consolidado sua empresa e gerado empregos tão necessários, e não fugido para o Japão; cada cidadão do povo, usurpado, poderia ser um a menos a brigar no trânsito, passar a perna na fila do mercado ou engordar o caótico quadro de violência, pois estaria um pouco mais realizado.

Fulaninho teria parado de procurar onde nunca encontraria e com um simples emprego honesto e o carinho da família, um mundo mais harmonizado, em que menos diferença haveria e mais paz disso tudo resultaria, teria encontrado a felicidade que o dinheiro jamais compraria.

A pergunta que incomoda é a seguinte: se há ser humano de todo jeito, inclusive Fulaninhos, em toda região, porque enaltecer justo aquele que te compra com mixaria ou que com um falso sorriso te engana, e que será futuramente acusado por você exatamente de se vender por dinheiro e de por relacionamentos e sorrisos articulados fazer “politicagem”, quando quem lhe deu, na verdade, esta oportunidade, foi um conjunto de pessoas que não se conhecem e agem separadas, mas que, sozinhas, têm todo o poder de decisão?

– Fonte da imagem: http://zuretaconcursos.files.wordpress.com/2008/07/solidariedade.jpg

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