“Livro não tem valor”

06/01/2013

06/01/2013

(LANÇAMENTO LIVRO “DESVENDANDO O AMOR – A REVOLUÇÃO DOS RELACIONAMENTOS” – Para comprar, basta clicar na foto à esquerda. Se quiser obter informações a repeito do livro, clique na página A, abaixo dela; se quiser informações sobre o procedimento da compra, clique na página B, ou veja Posts Anteriores).

(AVISO – Ao elevá-las, minha intenção não é colocar minhas ideias ou posição acima das outras, mas sim, trazê-la ao patamar onde tantas outras já estão e, com isso, equilibrar a balança)

Certa vez, quando eu devia ter uns três ou quatro anos, de mãos dadas com minha mãe, ia à praia. No sentido oposto, vinha um homem diferente: ele não caminhava, como todo mundo, mas andava sentado, em um carrinho com rodas! Adorei aquele meio de transporte, beeem mais bacana que simplesmente andar e, obedecendo à espontaneidade da criança, apontando para ele, expressei minha opinião.

Quando passou por nós, minha mãe, envergonhada, desculpou-se com o portador de necessidades especiais. Ele riu, explicando-me que estava naquela cadeira não por diversão, mas sim, por falta de opção, por necessidade, por ter uma limitação. “Espero que você nunca precise usar uma destas”. Fez carinho em minha cabeça, sorriu outra vez e seguiu.

Há quase dois meses, debaixo do sol escaldante, com calçadas e ruas irregulares, mala pesada e uma vontade enorme de olhar para cima e criar – não de olhar pra baixo ou, quando muito, para os lados, e vender – dirigi-me à feira da barganha de minha cidade a fim de pagar as contas do mês e poder continuar escrevendo por mais trinta dias.

Entrei naquele tumulto, uma confusão de gente, de coisas usadas, maltratadas e pirateadas. Logo eu, que só compro DVD original. Até galo preso em gaiola havia ali. Não consegui ficar. Do lado de fora, encontrei uma sombra e uma porta inutilizada, onde sentei, e ali abri minha mala com tudo de supérfluo, mas em bom estado, de que eu poderia me desligar.

Por duas horas e meia fiquei ali, sozinha, lendo para ver o tempo passar. Que trabalho ingrato, a meu ver: estar preso em um lugar, à disposição, mas sem render, produzir.  Simplesmente não é a minha natureza. Sou “caxias”, workaholic mesmo, se deixar. Ficar parado é no tempo livre. Trabalho, é para trabalhar! Pensei em mim, no passado (embora as funções administrativas de meu negócio sempre me ocupassem e momentos de ócio fossem raros) e em quem precisa fazer isso para viver, não apenas em um domingo pela manhã. Para minha agitação e necessidade de alma, que luta! Admirei-os.

Eis que finalmente duas senhoras param e veem o que tenho (um senhor também havia olhado, olhado, mas nada levou). Minha “kanga” estendida chamou atenção ainda do outro lado da rua. Uma senhora viu os livros e disse: “Olha lá, tem livros, você gosta de ler!”. A segunda veio, interessada. Viu os livros em perfeito estado, por menos da metade da quantia cobrada em uma livraria – mas apenas 5% desgastados! – e comentou que meus preços estavam salgados. Que, lá dentro, era tudo um ou dois reais. Já saindo e certamente à procura de um romance barato cheirando mofo em troca de moedas, afirmou: “Minha filha, livro não tem valor”.

Disse isso, sem nem imaginar, a uma escritora… Ai! Quis, novamente, sentir-me inútil, supérflua… Porém, anos e anos após estes questionamentos diante das negativas externas, palpáveis, percebidas com os sentidos do corpo (audição, visão), calejada demais me encontro agora para deixar que elas ainda ofuscassem a verdade interna, sentidas com a alma, e perguntei-me o que estava fazendo ali: em meio a moleques passando com eletrônicos (usados, ou roubados?), produtos feios, tranqueiras inúteis e pessoas incomodadas apenas com o dinheiro. Eu, me deleitava mesmo era com o livro que estava lendo.

Fiquei mais meia hora só para dizer que sou persistente – e para finalizar o capítulo – mas depois desta frase, ficou evidente que eu não me encaixava naquele contexto. Sei que era comércio, mas livraria também é, e ainda assim, sempre digo que gostaria de morar em uma. Não havia beleza, não havia higiene, não havia saúde, não havia harmonia e qualquer outra coisa que pudesse lembrar que existe alma. Não havia cultura ali.

O artista exerce uma função fundamental no planeta, e dá, sim, seu suor – ainda que mental e emocional – pela humanidade, sua contribuição social: igual a todos, está preso com os pés no chão; mas, diferente da maioria, não é livre para viver apenas nele. Tem a função de ir e vir, de mergulhar fundo na alma, no labirinto que ainda são os nossos sentimentos e, não apenas conseguir encontrar a saída e voltar, mas mostrar o caminho para quem ainda não consegue ir sozinho.

Daí nasce a arte – e quem vive apenas aqui consegue contato com o que está dentro e além, graças ao outro, e cresce. Daí os artistas geniais que erram na dose, não suportam o fardo e se perdem, entre as duas realidades. Não necessariamente por fraqueza (embora, algumas vezes, também seja), mas por excesso da grandeza com a qual lidam, com responsabilidade em demasia. Imperfeitos como todos, erram. E, muitas vezes, sucumbem.

Ser artista não é uma opção. É uma necessidade! Sim, porque existe algo chamado “vocação”! Um chamado ao qual é impossível resistir… Uma voz muito mais forte do que a opinião de todos, à sua volta. Cada um tem seu ponto forte, algo que possa oferecer, algo que faça na maior parte do tempo, mas nem por isso deixe de realizar outras coisas (a alma não é rasa, é complexa). É apenas a sua tendência. E é isso, esta atividade prioritária, que preenche de verdade a pessoa. Embora ela possa (e deva!) também realizar outras…

(Desculpem o exagero que vem do exemplo comparativo e hipotético a seguir, que serve para enaltecer A IDEIA, o sentido figurado, nunca para menosprezar uma realidade dura e ser levado ao pé da letra).  Pedir a um verdadeiro artista que lide com técnica, prática ou cálculo, por mais eficiente que nisso também seja, deixando de lado algo tão vital para si, como a criação, é o mesmo que recomendar a uma mulher que está sem namorado e reclama da solidão, da falta de sexo, que use um caminho ermo onde há estupradores, pois ela terá o sexo de que precisa. Que visão grosseira! Ela tem, sim, necessidades fisiológicas, como todo mundo, mas não quer ser violentada!

O escritor equilibra-se ao colocar para fora seus conflitos, organizando-os e, com isso, guia todos aqueles que se identificam com sua humanidade que, graças à identificação, ficam aliviados, encontrando as descobertas prontas de forma legível e organizada, mas ao mesmo tempo, capazes de ser tão profundas, como as Letras.

Naquele domingo de folga tão preso à realidade da carne, castigada pelo calor, quase contaminada pela realidade maioral que me cercava – retrato simbólico de um grande grupo na sociedade, almas que filósofos e psicólogos categorizam como “instintivas”, viventes apenas para as funções fisiológicas (comer, dormir, sexo) e, com isso, sem exercitar o “eu” ou ao menos o raciocínio, tornam-se também facilmente manipuláveis pelo sistema e buscam freneticamente coisas desnecessárias – lembrei-me de onde venho e para onde quero ir.

E, tendo saído de casa, suando em bicas, com o objetivo único de tentar alguns trocados, acabei eu, com uma enorme mala cor-de-rosa, pagando um capuccino e um croissant no cartão de crédito (risos), necessitada de alimento e ar-condicionado.

Acolhendo não apenas minha alma ofendida, com um gesto que significa tão profundamente “ser eu”, mas também meu corpo necessitado, pensei no quanto há pessoas diferentes e que, quando não conhecemos a vida alheia, desprezamos seus esforços, seus feitos. “A grama do vizinho é sempre mais verde”, ou “veem as bebidas que bebo, mas não sabem dos tombos que levo”. Mesmo dentre os que enxergam além do corpo, o trabalho é apenas o subordinado ao sistema econômico vigente e, se já foi apenas braçal, hoje ainda pára no intelectual. Tudo que foge deste padrão, não é considerado – nem respeitado.

Acontece que, o que hoje é padrão um dia nem tinha sido inventado, e, no futuro, será passado. É circunstancial. Necessário, claro, mas não é TUDO. Trabalho é tudo o que não esteja pronto na natureza e que seja útil. Ainda que não diretamente para mim. Seja porque o mundo não gira em torno do meu umbigo – eu posso usar a empresa de telefonia “A”, mas a “B” e “C” também são necessárias, pois suprem as necessidades de outras pessoas, não estou sozinho no mundo. Seja porque o serviço do outro pode ser o suporte de um terceiro que me presta um serviço, e esteja me ajudando indiretamente. Ou seja porque, às vezes, é preciso de vários trabalhos medianos para que o excelente se destaque, ou que se sirva como meio para que se chegue a um nível ótimo, no final.

Se o trabalhador convencional – que bate metas, que pega trânsito, que tem carteira assinada, cartão de ponto, reunião de equipe, usa crachá, passa no “departamento pessoal” e curte um happy hour com terninho e maquiagem ou pasta de trabalho – consegue desligar a mente no tempo de folga para conseguir enfrentar tudo isso novamente na semana seguinte, é porque utilizou-se do serviço de um cineasta, ao ver um filme; de um turismólogo, ao ir a uma pousada (quem não é por estar na praia que passa o dia deitado na rede, olhando o mar e tomando água de côco); de um ator, ao ver uma peça de teatro ou a novela; de um microempreendedor, ao almoçar fora ou pedir uma pizza; de um músico, ao ouvir CD ou ir a um show; de um escritor, ao ler um livro. (Por sua vez, todos eles precisam de roupas, de comida, de pedreiro, marceneiro, mecânico, médico, têm conta em banco ou pagam empresas de informática para fazer sites e divulgar seu trabalho etc. Somos interdependentes!).

Isso sem contar todos os outros profissionais envolvidos para que tudo aconteça no mundo. Por exemplo: enxergamos o cantor, quando muito a banda, mas nos esquecemos de quem monta o palco, quem vende os ingressos, quem divulga, quem limpa, quem costura o figurino, quem faz a segurança etc., etc., etc.

Da mesma forma que ele, trabalhador comum precisa de oito horas diárias, cinco vezes por semana, para conseguir melhor desempenho em sua área de atuação – e isso, com o tempo, e somente com o tempo, trazer resultados -, para que o entretenimento de fato divirta e a arte eleve, é preciso ter alguém trabalhando por isso, errando, aprendendo e melhorando, com o tempo, com o exercício. Alguém que entenda disso. Assim como um produto de sucesso precisou de pesquisa do marketing e de várias “fornadas”, a música não nasce pronta nem o texto legível diretamente escrito. E, quem elabora, pensa, melhora a música, escreve um livro ou pinta um quadro, por mais criativo que seja, não está com a mesma função mental descontraída de quem apenas usufrui – do resultado final de todo um processo.

Embora, como artista, confesso ser maravilhoso fazer o que gosto. Todavia, se a maioria escolhe um trabalho puramente por dinheiro e depois sofre, não posso eu mudar suas escolhas – tampouco pagar por elas. Pois, já que são estes seres ainda a reger o mundo, remando contra a maré, já sofro eu para poder ter o direito de continuar na minha.

Há quem esteja mudando de fase – trabalha no sistema e tem um dom artístico, executando-o como hobby. São fundamentais, contribuem, equilibram a balança dentro do exercício da arte (lembram mais do mundo atual), mas não são estes que suprem a demanda, e sim os diversos profissionais.

Quando um artista oferece sua obra, não é o mesmo que o mendigo pedindo esmola. É uma troca de serviços, ainda que para outra finalidade. Que pode ou não ser do seu agrado, servi-lo ou não diretamente, tal qual a operadora de telefonia. Mas é trabalho! O mundo, sem arte (imagine!), sucumbiria…

Ali, sentada num café, lendo um livro, rindo abismada do dardo em forma de palavras que ouvira e feliz por estar novamente ambientada, lembrei-me daquele moço da cadeira de rodas. Da minha ingenuidade, ao pensar o quanto seu martírio, aos meus olhos inocentes e limitados, parecia um mar de rosas. E pensei naqueles que hoje me consideram à toa e sem ocupação na vida só por não ter a carteira assinada, ou em quem valoriza mais um radio velho para comprar drogas ou tênis da moda que um livro em bom estado… Espero que no tempo em que essas pessoas desenvolverem profundamente a sensibilidade e também tiverem algo seu a colocar para fora, a arte já esteja devidamente valorizada na socidade. Do contrário, serei eu a passar as mãos em suas cabeças, e, sorrindo carinhosamente, pensando em minha carreira, dizer: “Espero que você nunca precise usar uma destas”.

Anúncios