Apogeu

texto apogeu

Olá!

Já que o clima é ficar feliz por lidar com minha veia literária, mais um post! Este é um texto que não enviei a concursos devido ao tamanho, mas que eu queria muito ver publicado!

Dizem que o melhor caminho para livrar-se de uma dor é esgotando-a. Nem sempre uma produção artística demonstra fielmente a essência atual da alma de alguém ou ao menos seus novos sonhos, mas, também, os reflexos de fatos antigos, que precisam justamente serem ouvidos e trabalhados para que quem os carrega possa se libertar e seguir em frente com mais leveza.

Este texto foi escrito em um domingo, 26/07/2015.

“Apogeu”

– Meu filho! Meu filho! Preciso falar com meu filho!

Desesperador quando a mente, lúcida, não comanda mais o corpo. Ninguém o ouvia ou entendia seu olhar. Até que a luz cessou. Já era tarde…

A segunda corda arrebentara do violão enquanto mais uma planilha era finalizada às pressas, após a noite mal dormida e o café da manhã que não havia. Luiz precisava correr se quisesse ser bem sucedido em mais uma reunião.

Não havia notado a segunda corda, assim como não percebeu que o instrumento não mais se encontrava ali no canto, naquela noite. Agora, dormia no quarto do mais velho.

Aos dezessete anos e com uma rotina extenuante de estudos para o vestibular, começar a tocar o violão abandonado do pai deu a Rodrigo novo ânimo. Não entendia porque aquele pedaço de cordas e madeira não dava ao ambiente da casa nem sequer um acorde de melodia.

Passou a ser hábito: após o almoço, apenas meia hora praticando antes de voltar aos estudos. Ele queria ser professor de história, mas o pai, sujeito sisudo e autoritário, o pressionava para a carreira do momento: tecnologia da informação. “Tem que ser alguém na vida. Sustentar a família. Não ser um fracassado e ouvir o escárnio dos familiares, dos vizinhos, dos amigos”.

Luiz pouco ficava em casa, era ríspido com a esposa e dos filhos só esperava resultados, embora inspirasse certo carinho. Rodrigo reconhecia seu caráter firme, sua decência, suas responsabilidade e disciplina, além da doçura diante das coisas mais sensíveis da vida, como uma filha que nasce, um cachorro que sofre na rua ou uma esposa doente, mas a conversa entre eles era sempre objetiva. Ele via nos olhos do pai um mar revolto: ternura e dor. Não era possível não amá-lo, mas era quase impossível ser amado por ele.

Queria agradá-lo. Ser motivo de orgulho para, quem sabe, poder ter apenas outros cinco minutos a mais.

Durante meses funcionou para ele: meia hora, depois uma, após o almoço, e em poucos meses ele tocava de quase tudo, sendo o violão como um terceiro membro de seu corpo.

Na festa de aniversário do pai, família e pessoal do trabalho reunidos no amplo salão de festas do clube high society da cidade, Rodrigo anunciou seu presente: iria tocar no violão a música cuja cifra encontrara no escritório de casa, já amarelada.

Os primeiros acordes fizeram com que Luiz empalidecesse e Denise, a mãe e esposa, fechasse a cara. Rodrigo, já mergulhado na música, mal notou a alteração de olhares.

Cada nota musical era uma pincelada mais forte de cor, e, segundos depois, lá estava ela: Antonella. O corpo esguio, bem formado, coberto por um vestido solto e acinturado, de cor clara, esvoaçando sob o vento do litoral. Os cachos, bem definidos e pesados, loiro-escuros, mal se mexiam. O olhar cheio de esperança, sinceridade e amor, primeiro lhe sorriam, movimentando tudo que, há muito, jazia lá dentro, desperdiçado. Contudo, conforme os acordes se opunham e a melodia chegava ao clímax, viu-a com a maquiagem borrada, chorando infinitamente, sentada no chão, apoiada na parede da igreja que os dois frequentavam.

Ao final da música, de volta ao presente, todos aplaudiram e ao longo da festa não lhe cansavam de dizer o quanto o menino tinha talento. A maioria, claro, afirmando que tocar era nada mais que um excelente hobby. Antes de sair, lançou um olhar duro ao filho, logo acompanhado da expressão de uma mulher que chegou a se considerar “vencedora” diante da oponente de outrora, mas era destas esposas que nunca estão aonde vão os olhares perdidos do marido, que não habitam seus pensamentos, enfim, nunca conseguem entrar: são ostensivamente vistas por fora, todavia, sumidas por dentro.

São não as fiéis companheiras por quem no começo não se sentiam tão apaixonados ou por quem construíram outro tipo de amor e lhes dedicam carinho e gratidão, mas daqueles pedaços de carne que simplesmente estavam ao lado, com quem a vida seguiu seu percurso natural e por isso estão ali – sendo totalmente substituíveis. Tolas, gabam-se em possuir o homem, quando não são donas nem de si, mantendo-se atadas a uma tóxica dependência emocional. Mulheres assim continuam ali somente por status, rotina ou necessidade. Não por serem desejadas. Nem felizes…

Denise, furiosa e ríspida, pediu a Rodrigo que guardasse o instrumento, o qual trazia ao pai memórias ruins, e que fosse procurar os amigos empresários para fazer possíveis alianças em busca de um futuro estágio.

O rapaz, sem nada entender, magoado, simplesmente guardou o equipamento e fez o que lhe foi pedido.

Luiz voltou à festa apenas cinco minutos depois, já recuperado, mas não direcionou nem à mulher, nem ao filho, olhar algum. Apenas Raquel, as filha mais nova, foi capaz de fazê-lo sorrir, ainda que superficialmente.

Ao chegar em casa, o violão foi tirado do quarto de Rodrigo e acabou no maleiro do casal:

– A música vai distraí-lo, Rodrigo. Se quiser segurança, liberdade e paz na vida, vai ter que se concentrar nos estudos e na carreira. Sou seu pai e sei o que estou dizendo.

Cinco anos depois, com um diploma na mão e o primeiro abraço do progenitor em anos, nem Luiz nem Rodrigo jamais tocaram novamente o violão. A oferta de primeiro emprego fez com que pai e filho ficassem cada vez mais próximos e, quando passou a ser rotina almoçarem juntos porque trabalhavam no mesmo conjunto empresarial, a alegria por ter aprovação de Luiz era tanta que Rodrigo nem lembrava mais que um dia havia segurado um violão. Muito menos tocado com a alma.

Até que a namorada morreu em um acidente de carro e ele, dormindo na casa de um amigo, viu o instrumento e voltou a dedilhá-lo. As informações na tela do computador não eram capazes de amenizar aquela dor, mas os acordes e a melodia, sim. Eis que, em um jantar de família, Rodrigo comunica a inscrição em um concurso, após uma noite num bar, quando um produtor musical deu-lhe seu cartão e incentivou-o a seguir carreira.

O pai ficou vermelho de raiva. A mãe, que, apesar de tudo, amava o filho, não gostava de assuntos de sentimento, intuição ou vocação a despeito de dinheiro porque, no fundo, isso a obrigava a repensar quem era – e a lembrar-lhe de quem não era: Antonella.

Rodrigo perguntou o que se passava, como podia o pai ter um instrumento em casa e odiar a música. O pai apenas falava:

– Isso é passado! Não se meta!

Assim que o filho cruzou a porta, Luiz trancou-se no quarto e partiu o violão em pedaços.

O concurso seria apenas em três meses e, enquanto isso, Rodrigo continuava comendo, vestindo, limpando-se e pagando contas, portanto, lidar com computadores ainda era o que fazia. Os almoços antes aguardados com o progenitor agora lhe sufocavam. Num Café ali perto do trabalho, conheceu uma moça encantadora, que entendia sua vocação e era também escritora, embora trabalhasse em um prédio na esquina, na área de advocacia.

Deste encontro de almas, num descuido da empolgação repentina, veio logo a notícia de mais uma vida. Confuso, embora feliz, Rodrigo procurou o pai para orientação. Este, com um olhar meio chocado e um frio na espinha, foi taxativo:

– É um homem feito e precisa arcar com suas responsabilidades. Não posso mais completar suas despesas se já possui família. Não vou pagar a ultrassonografia. Cancele a viagem para o concurso, esqueça a música. Agora é um pai de família.

– Mas, pai, você tem rendimentos o suficiente para me emprestar este montante com folga! Eu pago em breve! Assim, não preciso desistir do meu sonho!

– Esqueça! Não vou bancar um devaneio de juventude para um homem feito! Seja responsável pela sua família!

Humilhado pelo tom pedante de Luiz, como se ele fosse um irresponsável e nem emprego tivesse, ou em algum momento estivesse fugindo da realidade de ser pai ou pedindo um valor exorbitante, Rodrigo sentiu-se abandonado por aquele que era seu porto seguro.

Aquele emprego não apenas não lhe representaria futuro, como renderia bem menos se sua intuição estivesse certa: colossal, como dissera o produtor, seria o retorno que a música lhe traria. “Você tem um talento raro, meu rapaz. Poderia seguir carreira comercial ou clássica, em ambos seria muito valorizado. O mundo da música está precisando de pessoas como você”.

A cada centavo que a conta polpuda do pai aumentava, o sonho de Rodrigo morria. Era, contudo, feliz com a esposa que amava e a bela menininha. Faltava-lhe algo, mas o jeito positivo de ver a vida sempre permitiu que valorizasse o que possuía e (quase) esquecesse do que não tinha.

Novamente, com a postura prática e protetora de pai de família, Rodrigo e Luiz voltaram quase a ser amigos. Denise, com o passar dos anos, estava nitidamente infeliz, desiludida, e sorria apenas para manter a paz na família.

Luiz mais um dia se enganou ao olhar para a vista do escritório e pensar aonde havia chegado na vida, quão longe tinha ido. Após o almoço prolongado, deixou no motel a jovem moça do momento que o admirava e lhe enaltecia o ego (afinal, seu casamento era totalmente incompleto), correndo para um encontro com outros empresários para uma possível expansão, quando a gravata começou a ficar mais apertada do que devia.

A vista ficou um pouco turva e ele podia jurar que à sua frente estava Antonella, recém-caída no chão, sem forças, com a maquiagem estragada.

As pessoas de agora corriam à sua volta, preocupadas, e ele compreendeu que tinha pouco tempo:

– Meu filho! Meu filho! Preciso falar com meu filho!

E a boca não obedecia.

Ah, se ele pudesse voltar atrás…

Não a teria deixado pular. Não eram as palavras duras de covardia e indiferença, dirigidas a ela, que lhe incomodavam tanto, tampouco os soluços ou a maquiagem borrada: era a falta de toda aquela luz em seus olhos, era o jeito como seu corpo estava quando ele virou para trás e a viu após ter-lhe dito as últimas palavras. Não sentada e encostada na parede, mas caída e escorada, como se, mesmo sem forças, lutasse para não sucumbir de vez, mas estivesse profundamente derrotada:

– Eu também espero um filho seu! Primeiro você tem a audácia de me trair, depois quer desistir da nossa banda, do nosso sonho, e agora quer ainda me deixar sozinha para cuidar de uma criança só porque uma “filha de papai” está grávida e sua família lhes deve satisfações? Quem é você e o que aconteceu com a fé e o amor que você mesmo me ensinou? Que eu alimentei em mim após te conhecer?

– Desculpe, Antonella, mas o que vivemos foi um sonho e eu me tornei homem, está na hora de encarar o mundo real. Por favor, não me procure mais.

Ela o segurou pelos ombros e, diante de tantas lágrimas e dor, ele ainda pôde ver a chama do amor em seus olhos quando ela lhe fez a última súplica:

– Luiz, o que você está fazendo? Você se esqueceu do que está abrindo mão? Nós tirávamos sarro dos céticos, lamentávamos o mundo que eles não viam e dizíamos que eles nunca iriam encontrar um amor como o nosso, pelo qual sempre esperamos, porque não acreditavam e não podiam ter ou atrair aquilo que julgavam não existir! Este amor, além de nos dar paz, nos deu força para agir com o coração, seguir a intuição. Nossa banda vai se apresentar semana que vem no festival da região! Nós temos potencial, sabe disso! Você não pode estar me dizendo que isso foi um sonho e que a realidade é uma mentira que você viveu em uma noite de briga e fraqueza, que seu caminho é igual a todos os outros. Estas palavras são do seu pai! Você não enxerga?

– Acabou, Antonella.

Frio. Duro. Irônico. Prepotente.

Era isso, ou ele desmoronaria junto com ela. Contudo, ela era a materialização e a lembrança da sua coragem e do seu medo; da sua fé e da sua dúvida; do amor e da indiferença que se obrigara a sentir. Ele não tinha escolha.

Virou-lhe as costas ali mesmo, porque, no fundo, não suportava vê-la sofrendo.

No dia de seu casamento com Denise, dois meses depois, ela apareceu visivelmente abatida. Com o olhar mais vazio e sofrido que ele já havia visto:

– Eu perdi meu carro, meu pai, minha segurança financeira e você em apenas um mês. Vim aqui para lhe dizer que a vida, não satisfeita, ainda me levou o nosso bebê. Por toda a minha existência eu acreditei em homens decentes como você, apesar dos discursos prontos das mulheres de que “homem não presta” ou que “casamento é um fardo”. Nós nos encontramos e o que eu senti mexeu com o melhor em mim. Eu descobri minha musicalidade e nunca estive tão sintonizada com Deus, produzindo tanto, como quando estávamos juntos. Muito mais do que ter encontrado você, eu me encontrei. Seja por ver o amor em que eu sempre acreditei se tornar realidade, seja por ter encontrado minha vocação, minha função neste mundo. Aqueles anos foram os melhores da minha vida! O final de uma jornada cheia de dúvidas e lutas. Eu havia encontrado a felicidade. Faltava, apenas, mantê-la e, com isso conquistado, crescer ainda mais. Distribuí-la. O que eu sinto por você, o que vivemos, é verdadeiro demais para ser substituído por fatos tão contraditórios. Pequenos, vãos. Comuns, vis. Estou enlouquecendo para conseguir entender. Como pode algo tão bom ser, então, falso? Eu só precisava ver com meus próprios olhos a prova de que minha vida realmente acabou. Que o melhor já passou e a partir de agora eu vou ter que sobreviver aos restos do que eu poderia ter vivido. Que eu não tenho mais o que buscar, porque já encontrei tudo o que mais queria, e me foi tirado. Arrancado. Violentamente, por medo, por orgulho. Que, então, se Deus permitiu, não era meu, não era verdade…

– Não diga isso, Antonella!

Ela não respondeu. Simplesmente saiu. Sem derramar uma lágrima. Sem demonstrar alteração de emoções em seus olhos, apenas um olhar raso e sofrido que nunca mudava. Uma dor tão infinita quanto um dia havia sido seu amor.

Uma semana antes de Rodrigo nascer, soube de seu falecimento. Um amigo em comum o procurou. Louca para voltar a se sentir viva, pulou de bungee jump, mas a corda arrebentou e ela não resistiu.

Finalmente, diante de sua lápide, ele chorou. Como o homem sensível e com fé que um dia fora:

“Antes passar toda a existência na esperança de um dia chegar, que ter toda a vida pela frente após o apogeu”. Ao lado das palavras, uma foto sua “daquela época”, que é como gostaria de ser lembrada, e muitas flores.

Naquele dia, ele também não conseguia acreditar no fato que acontecia. Era uma verdade que não combinava com o que sentia: ela não mais vivia. Não restava mais aquele fiozinho tênue de esperança para quando as crianças crescessem ou os tempos mudassem. Foi obrigado a esconder. Era o filho, que nascia.

Mais de vinte anos depois, ainda via nela as lágrimas que, na verdade, eram de ambos, entretanto, somente ela teve a coragem de deixar escapar.

Haviam-lhe tirado a gravata, mas ainda estava tonto. Colocavam-no na maca. Estava, agora, dentro da ambulância. Mal ouvia o que diziam, porque queria falar.

Desesperador quando o coração, lúcido, não é mais comandado pela mente, contudo, não há mais tempo para consertar. Alguém, que não mais chorava, todavia, o ouvia e entendia seu olhar. Até que a escuridão cessou. E era possível recomeçar…

Fonte imagem: mperatorl.wordpress.com

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Sinopse “Virgem por Acidente”

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Gabriela é uma encantadora assistente editorial, com vida social agitada e cheia de pretendentes. Independente financeiramente, frequenta shoppings, clubes, Cafés, barzinhos, spas, teatros, colabora na sociedade, dirige o próprio carro e mora em um belo apartamento, na cidade de São Paulo. Todavia, apesar dos vinte e nove anos, ainda é virgem! Notamos, porém, desde a primeira página que ela, nem de longe, vive uma castidade adormecida…

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Censura:  16 anos

Observação: Livro aguardando retorno da loja virtual para ser publicado. Formato e-book. Em breve, informações de lançamento.