A Viajante

Boa tarde a todos!

Comecei este conto há meses atrás, numa situação que eu julgava ser perto do pior que eu poderia viver.

Terminei-o há pouco tempo com a mesma sensação. Porém, se a segunda existiu, é porque o sentimento da primeira não é verdadeiro, assim como provavelmente o desta vez… Ainda não estamos em lugares absolutos em nossas vidas, então, tudo pode ficar ainda melhor  ou pior, depende de nós.

O conto está registrado, a fonte da imagem está no final… aproveitem! 🙂

E agora é oficial: dia 15/12, quarta-feira, publicarei online, aqui no blog, meu romance “A Menina que Encontrou o Amor”. Ele será publicado aos poucos, a fim de que ao longo de meses tenham terminado sua leitura. Espero que gostem e compartilhem!

Abraços,

Camila

“                        A Viajante

                Numa cidade de porte médio para grande, vida atribulada, vivia uma mulher que beirava os quarenta anos e estava saturada.

                As férias do trabalho enfadonho se aproximavam e Lucy, recém-divorciada, decidiu ultrapassar todas as fronteiras. Fazer as malas e viajar para onde um passaporte levava.

                Comia uma bolachinha com chá no final de mais uma reunião que nenhuma novidade trazia. O grupo, desmotivado, simplesmente seguia. Voltou à sua mesa tão desconsolada que ao receber o link de um post do amigo num blog bem-bolado, ao ler a propaganda decidiu seguir para aquele destino inusitado.

                Menos de duas semanas depois, férias merecidamente conquistadas, Lucy, sem filhos, família distante, tomou as rédeas de seu destino e viajou para o outro lado do oceano com a meta de entender seu próprio mundo interior.

                Chegando lá, novos costumes, tradições, modo de interagir. Pensou em voltar, desistir, mas ainda de malas a desfazer, a sede de conhecer era tanta que fechou o quarto e saiu pela redondeza. No mosteiro, a primeira pessoa que viu foi um senhor plácido, calmo, barbas longas, feição apaziguadora, e que, ao contrário de muitos com quem ela convivia, quando chegou, olhou-a e passou a sorrir:

                – Bom dia, minha filha. Seja bem-vinda. Fico feliz com sua presença!

                Tímida e surpresa por tamanha acolhida, Lucy deu um meio sorriso e apenas respondeu:

                – Bom dia.

                – Você já sabe o que a infelicita?

                Ainda mais confusa com a maneira de se iniciar a conversa com um desconhecido, a mulher no primeiro instante acionou o mecanismo de defesa. No seguinte, entretanto, refletiu, desarmou-se e entregou-se à tamanha gentileza. Ninguém a conhecia ali, por que não viver o momento e deixar a vida fluir?

                – Meu marido me trocou pela melhor amiga, meu emprego é insuportável, minha família mora longe, estou perdendo a fé em mim, meus amigos cobram demais… Eu acho que fiz uma escolha errada ao decidir mudar de cidade, mudar de profissão… então conheci meu ex-marido e deixei talvez alguém que me amasse de verdade. Fiz tudo errado!

                Deixando que ela desabafasse algo que talvez nunca tivesse verbalizado com tamanha sinceridade, o sábio senhor tinha olhos atenciosos, cheios de bondade, mas o rosto sereno, sem se abalar com toda aquela vulnerabilidade.

                Lucy não se sentia acolhida há tanto tempo que não contente em desabafar, deixou também as lágrimas rolarem sem piedade.

                O bondoso senhor fez a sugestão:

                – Você realmente quer mudar?

                – Sim, eu quero. – respondeu a mulher confusa e fragilizada.

                – Há um lugar perto daqui, um vilarejo no coração das montanhas, que é conhecido por nós como “o caminho da felicidade”. Você deseja conhecê-lo?

                Com um novo brilho no olhar, aliviada por finalmente ser entendida por alguém, ela sorriu abertamente ao bondoso senhor e respondeu decididamente:

                – Sim!

                – Seu emocional está abalado. É preciso que conheça melhor a si mesma. Antes que vá, é necessário receber alguns avisos. A estrada nem sempre será reta, haverá caminhos tortuosos. Todos que iniciam esta busca cedo ou tarde conseguem encontrar o local. Mas numa primeira tentativa, nem todos chegam ao destino final. Muitos precisam voltar, renovar as forças para tentar novamente num outro momento. Haverá sempre habitantes do mosteiro que vão ao vilarejo diariamente para ajudar quem ainda vive uma vida de ignorância espiritual. Ajuda não faltará. Dirija-se à gruta da Esperança pela manhã e ao anoitecer para pedir orientação, assim, conseguirá prosseguir. Cuidado, pois todos ali vivem apenas o momento. Não é proibido desfrutar, pois são essas experiências que a farão crescer e trarão o auto-conhecimento. Mas é necessário saber que você não é de lá, procure sempre a causa, não se perca e faça tudo por fazer. A caminhada é longa, mas quando você encontrar o que deseja, perceberá o quanto valeu à pena. Após 07 dias iremos lhe buscar. Sua vida nunca mais será a mesma. Eu sei que você está pronta. Mas preciso perguntar: você deseja ir?

                Eufórica com o resultado final, desesperada para libertar-se de tamanho peso, Lucy preparou-se cheia de entusiasmo para o que haveria de vir. Colheu as informações, agradeceu o humilde senhor, preparou a bagagem para pouco tempo de viagem e no dia seguinte partiu.

                Amanhecia quando ela afastou-se do pequeno vilarejo ao pé da montanha de um país oriental. A bela paisagem, a luz do sol, o canto dos pássaros, toda aquela paz, enfim, fizeram com que Lucy se enchesse de esperança novamente. Tinha certeza de que após tanto sofrer, entender que precisava buscar ajuda e o fazer, finalmente receberia a recompensa. Já tinha consciência, boa vontade… isso seria suficiente.

                Caminhou cheia de vigor. Agradecia a oportunidade e estava disposta a caminhar rapidamente para chegar mais rápido ao destino final. Queria terminar logo com toda a confusão.

                Quase uma hora após o início de jornada, a planície virou morro e Lucy passou a diminuir um pouco os passos e ofegar. Parou para tomar um gole d’água e, cantando, seguiu. O caminho foi ficando sinuoso. A respiração falhava, mas ela insistia em terminar cada canção.

                Horas depois, exausta, suja e faminta, alcançou o vilarejo de beleza sem igual. Orientada pelos guardiões do mosteiro, na casa de uma família simples foi hospedada. A higiene ainda era rudimentar, mas dava para aliviar a sensação de impureza.

                Acostumada a ter uma alimentação equilibrada, ficou tentada com tanta fartura e riqueza. Pratos salgados dos mais cheirosos e suculentos aguçavam seu paladar. Macarrão com molho branco e especiarias; carnes assadas em molhos das mais variadas iguarias; legumes fritos, batatas de todos os jeitos, sucos adocicados, risotos repletos de todos os temperos… negar esses pratos seria, ela justificava, uma indelicadeza.

                No dia seguinte, logo pela manhã, saiu para caminhar. Ficou encantada com a beleza natural. Cachoeiras belíssimas, árvores de variadas espécies disputavam espaço com as construções de barro, as tendas armadas abrigavam viajantes… contendo homens de beleza fenomenal.

                Lembrando-se da orientação do bondoso senhor, desviou o olhar da possível tentação. Após caminhar, dirigiu-se à gruta e, depois de com o guardião conversar, retirou-se em oração.

                Quando chegou à casa que a hospedava pediu a chance de trabalhar, para não deixar a mente com pensamentos vãos. A partir daquele dia, teria as tardes ocupadas. Teria a noite para repousar, refletir, e a manhã para o local explorar e fazer a caminhada.

                Os nativos gostavam muito de quem vinha de fora, achavam-nos excêntricos, um jeito excepcional. Para tudo o que fazia era fartamente elogiada. Já no terceiro dia, começou a sentir-se especial. Mesmo com o estômago ardendo, colocava ainda mais pimenta na refeição. Trocara a visita vespertina à gruta para agradar a dona da casa, que além de elogios, dava dinheiro local, que ela juntava à coleção.

                Esqueceu-se completamente do quê a trazia ali. Quando passou pelo atraente viajante ao amanhecer do quarto dia, não desviou o olhar quando ele veio em sua direção. Sabia que era preciso evitar, mas ela estava com o ego tão inflado por saber uma fruta descascar ou ter aprendido a dar nó em cordas – algo que em sua vida real não teria muita função – que esqueceu-se de entender o porquê de tudo, e, assim como os nativos, passou a simplesmente aproveitar.

                Inebriada por este novo sentimento, onde somente o imediato e prazeroso era o que contava, sentiu-se poderosa e deixou-se ser cortejada. A conversa ficou tão interessante que ela nem mais fez sua caminhada, muito menos a visita à gruta realizou.

                “Após o trabalho eu compenso”, com dificuldade pensou, já que o belo homem de ombros largos, um metro e oitenta de altura, cabelos ondulados e olhar penetrante não deixava mais sua cabeça em paz…

                Trabalhou naquele dia saltitante. Quando buscava um vestido para a dona da casa, um guardião a chamou na rua, dizendo ter um aconselhamento. Ela disse aquele não ser um bom momento, já que estava ocupada. À noite iria à gruta orientar seus pensamentos.

                Quando Lucy lá chegou, com impaciência para esperar sua vez de falar e um olhar que procurava outro posicionamento, conversou com o guardião da Vila só por conversar, pois sabia que na volta o viajante estaria na região – e só isso já fez todo seu corpo se arrepiar.

                O retorno aconteceu melhor ainda que o esperado: ela não o viu em seu barraco. Começou a sentir a decepção, quando uma mão a puxou para o lado e, entre a casa do dirigente da pequena cidade e o lugar que fornecia o pão, ele deu-lhe um beijo apaixonado e falou: “Amanhã acompanhar-te-ei na festa do povoado”.

                Ela voltou para casa ainda mais encantada e, após ter tido o cofrinho quebrado, decidiu caprichar na produção.  

                Pela manhã precisou sair para se embonecar e não fez nem a caminhada, nem a visita ao local de reflexão. Consciência culpada, trabalhou em dobro para compensar a riqueza que havia gastado, e atrasou-se para a atração.

                A noite era quente. A festa ocorria ao ar livre, em torno da cachoeira mais vistosa da localidade.  Tochas iluminavam as barracas de guloseimas, bebidas alucinógenas, o palco com a banda animada… respirava-se diversão.

                O viajante enamorado já estava com outra moça engraçado, mas quando viu a mulher que mais o interessava, deixou a figurante de lado e conseguiu da protagonista da noite a atenção. Após a dança envolvente, seguiram os dois para uma árvore frondosa, um pouco afastada da multidão. Ali mesmo despiram-se e seguiram seus instintos com perfeição.

                No dia seguinte ela acordou na cama que por aquele espaço de tempo poderia chamar de sua. Tinha a anfitriã ao lado, com uma vasilha de água e uma toalha de rosto na mão. Abaixaria a febre que a estrangeira continha. No meio do dia, apelou para o curandeiro, mas ele muito pouco pôde fazer. Foi necessário chamar o guardião.

                E assim, antes do tempo previsto e num estado deplorável, a viajante foi levada de volta ao mosteiro e recobrou a consciência, depois de receber uma injeção.

                Acordou confusa. O bondoso senhor sorriu e perguntou:

                – Olá, minha filha! Como se sente?

                – O Senhor? Mas eu ainda tinha um dia… como cheguei aqui?

                – Estava inconsciente… precisei trazê-la de volta mais cedo.

                – Mas eu ainda não encontrei a felicidade…

                – Claro que não, querida! Não é à toa que você usava roupas fechadas, de algodão: é para ficar imune às picadas de insetos, que os nativos já nem sentem, mas podem deixar um forasteiro no chão. Além disso, ansiosa para rir com todos na sala ou para ver o homem que você sabia não poder manter, descuidou-se de si mesma e saiu à rua desprotegida. Ao longo dos dias, teve insolação. Isso sem falar no mal-estar em seu corpo devido ao desequilíbrio na alimentação.

                A mulher abaixou o rosto, envergonhada. O bondoso senhor continuou, não em tom acusatório, mas de meditação:

                – Deixou de visitar a gruta por envolver-se em excesso com atividades que sabia não terem a você nenhuma valia. Encantou-se com o dinheiro local e mesmo sabendo precisar se recolher, envolveu-se com quem nem com você se importava, graças à vaidade que os elogios em demasia fez nascer em seu coração. Viveu a alegria do momento e agora, passada a euforia do contexto, nada mais sobrou além de dor e desilusão. Saiu da viagem inconsciente, com a pele avermelhada, cheia de picadas, roupas que não condizem com sua realidade e sem nenhum vestígio de felicidade. Não é errado querer ser amada, elogiada, cuidar da aparência, ter dinheiro e diversão. O problema é o exagero e a falta de ocasião.

             “Nesta jornada, há aqueles que se negam a sair do vilarejo, tão viciados que estão. Há, porém, os que completam a empreitada. Mas estes também nem sempre conseguiram na primeira tentativa. Por ora você precisa descansar. Quer tentar novamente, em alguns dias, para que vença esta etapa e parta com o que veio procurar?

                – Ficarei eternamente agradecida. Tudo o que quero é melhorar!

                – É comum errar quando ainda não temos total compreensão. Faz parte da vida. Não podemos mudar o passado. É mister, entretanto, aprender com os erros e não mais cometê-los. Erraremos muito, mas que seja naquilo que não conhecemos. Todo dia o sol brilha novamente, convidando a todos para o arrependimento e a culpa pela responsabilidade trocar. Reconstruindo, sempre com a energia em movimento, nós, seres em infinita evolução, não só na alvorada de um novo dia, mas a cada segundo, a todo tempo, teremos forças para seguir, não mais desistir, e, assim, novamente, recomeçar…”

Fonte da imagem: planetaemocao.blogspot.com

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Segundo trabalho

Bom dia a todos!

Estou retomando as atividades profissionais virtuais. Terei como regra postar contos às quintas-feiras, salvo algum imprevisto. Quanto aos outros dias da semana, falarei  sobre temas relacionados ao trabalho do escritor e do jornalista, sempre que houver inspiração ou possibilidade. Confiram periodicamente! 🙂

Apesar de ser o terceiro a ser publicado, este texto foi, na verdade, o primeiro produzido desta série que venho escrevendo.   O primeiro conto publicado aqui, “O Político que Não Está Sozinho”, na verdade é o segundo publicado, pois há outro exibido anteriormente em meu  primeiro blog.

Vale lembrar que ele está protegido legalmente e a reprodução de parte ou de todo seu conteúdo por qualquer meio sem a prévia autorização é crime.

Espero que gostem! Abraço,

Camila Lopes Pigato

Contratempos do Caminho

A viagem estava marcada. A rota, traçada. Os objetivos apontados. As promessas, feitas. Os preparativos acertados. Chegam as despedidas, a mudança, a partida. E o recomeço…

O pôr-do-sol era rosado e o céu, limpo. O carro andava a 120km/h, mas era como se tudo estivesse parado. A boneca em suas mãos, recém tirada da caixa que o Papai Noel havia trazido, ainda tinha os cabelos penteados. Era mais um domingo de um final de semana bem vivido. Ela olhava o sol se escondendo nas montanhas enquanto conversava com o novo brinquedo.

Aprendera que havia tempo certo para tudo. Havia aprendido a sentar-se ereta, comer sem fazer barulho, não interromper as conversas dos adultos, a brincar num cantinho da sala quando havia visitas e correria e gritos somente quando no estava quintal da casa da vovó. Agora aprenderia a multiplicar, dividir, formar frases, o clima, os bichinhos.

Ele era mais arteiro. Em uma cidade à beira da estrada, sentado ao lado de seu cabritinho, olhava o pôr-do-sol rosado dar o contraste da ave que voava ao fundo, o barulho calmo e repetido da água que corria no ribeirãozinho. Em sua mente, tudo era movimento.

Aprendera que havia tempo certo para tudo. Pedia a bênção ao chegar em casa, não se metia em assuntos de adultos, ia sempre correr, subir em árvores e roubar frutas do vizinho. Na escola, iria aprender a multiplicar, dividir e formar frases. Sobre o clima, descobriria que aquilo que se aprende nos livros não é tão simples quanto o que vê na mesa ao ter uma boa colheita ou perder a flor por falta de chuva. Em vez de estudar para ver as fotos dos bichinhos com quem ele brincava desde pequenino, iria chamar o amigo para jogar bola.

Quando ainda nem havia ficado mocinha, no aniversário de uma amiguinha que em vez de palhaço tinha DJ, ela teve o beijo roubado por um coleguinha. Sentiu-se estranha, mas as amigas até bateram palminha e sorriram tanto que ela acabou achando aquilo tudo uma gracinha.

Ele tinha uma amiga, mas percebeu que não eram mais tão amigos quando ela havia ficado mocinha. Trocado pelas outras menininhas, cheias de segredinhos, ele voltou a jogar bola com o vizinho. Estudava quando podia, ajudava a mãe em casa e de vez em quando, lia.

Num final de semana os pais dela a levaram à pequena cidade onde os avós moravam. Passeavam juntos pelas lojas quando ela encontra um outro coleguinha que a havia beijado numa outra festinha. Nem vê se aproximar o menino que vinha em sua direção, encantado.

Ele levava o último litro de leite para o cumpadre terminar o bolo que havia começado, quando viu uma linda menina de mãos dadas com um senhor muito bem apessoado. Seu coração bateu levemente descompassado, mas logo outro rapazinho chegou e ele nem fora notado.

Já com o coração partido pelo rapaz mais cobiçado, negando o amigo que a amava e estava sempre ao lado, ela, perdida, fez amizade com quem não devia. Na escola, aprendia história, geografia, química orgânica e biologia.

Apesar de ser um rapaz decidido, ele  foi pressionado pelo amigos a aceitar o gracejo da mocinha que em todo baile para ele sorria. Ela era bonita, mas ele por ela nada sentia. Em pouco tempo, porém, eram namorados. Na escola, aprendia história, geografia, química orgânica e biologia.

Acostumada a fazer os que todos faziam, quando saiu pela primeira vez dirigindo seu carro com os amigos, finalmente dormiu com o namoradinho. Era a última da turma que ainda não havia aprendido na prática a “biologia”.

Ele pegou emprestada a caminhonete do tio para levar a namorada ao baile. Para não fazer feio diante dos amigos e porque seu corpo queria, foi ele também aprender a “prática da biologia”.

Castigada pelos pais por ter dirigido embriagada, ia passar as férias num curso de verão na fazenda do avô. A avó já havia partido.

Ele até aprendeu a gostar da namoradinha e juntos viviam. Se faltava alguma coisa, para ninguém ele dizia. Havia decidido ajudar o pai nas aulas práticas de jardinagem enquanto a namorada trabalhava na padaria.

Ela foi “obrigada” à porta do sitiozinho onde a aula seria iniciada. Mexer com a terra poderia estragar suas unhas e o vento acabaria com o penteado.

Com os cabelos tingidos, bem mais magra, ele não reconheceu aquela menina encantadora nessa jovem mal-humorada.

Seus olhares se cruzaram e ela notou algo, mas logo um rapaz mais alto, loiro e bem apessoado perguntou seu nome e ela, carente e mal amada, deixou-se ser cortejada.

Ele, desanimado, recebeu o convite dos amigos para uma esticada e no dia seguinte perdeu o trabalho. O pai, decepcionado, achou melhor liberá-lo para curtir um pouco mais a vida e ele, porque era jovem, viajou com os amigos mesmo sentindo o peito apertado.

Já na faculdade ela caminhava resoluta, com seu destino traçado. Começaria naquele dia o estágio na Clínica Veterinária da Universidade.

Ele, estudando em outro turno para pagar os estudos na cidade grande, como sempre havia sonhado, decidiu seguir o conselho do pai e trabalharia na Universidade, vaga que já havia arranjado.

No dia em que seria entrevistada, ela perdeu a hora devido ao novo namorado que também já a havia largado. Novamente estava embriagada.

Ele compareceu à vaga preenchida devido a tanto conhecimento prévio, mas precisou voltar ao campo pois pouco antes de ter terminado o namoro, não sabia, mas a namorada havia engravidado.

Com uma turma diferente da que havia começado, canudo na mão, abriu um consultório e, sozinha há dois anos, investindo em si mesma, em seu trabalho, perguntou-se o que faria com as aulas de história e de geografia, conhecimento útil, porém, para a sua realidade, defasado. Para sua vida, muito pouco serviria.

Com o filho entrando na escola e com o casamento atormentado, ele ajudava o primo, veterinário, e dali tirava o sustento de sua família. Sentindo falta de algo que ainda desconhecia, perguntava-se por que havia aprendido tanto na aula de matemática, história e redação que nem em seu trabalho ele uso disso fazia, e por que tão pouco sobre si mesmo ele sabia.

Seguindo em frente sempre confiante, ânimo elevado, ela inscreveu-se para o Congresso de sua especialidade.

Numa tarde de primavera em uma cidade grande, após com o primo ter viajado, ele viu muitos veterinários reunidos e seu sonho foi reavivado. Mas teria que esperar mais um pouco, pois mesmo com falta de carinho e as brigas, o segundo filho estava encomendado.

Ela, novamente elegante, cabelos cumpridos e levemente encaracolados, como havia nascido, não percebeu o rapaz sem jaleco que havia adentrado ao recinto.

Ele, um pouco mais gordo e rosto cansado, em nada mais parecia com o jovem que tanto lia e sonhava acordado. Mas ainda assim seguia. Reparou na linda moça que sempre sorria atrás dos cachos levemente dourados.

Ela, sozinha, havia esquecido no balcão um caderno amarrotado, mas tinha menos de cinco minutos e se saísse, a mesa perderia.

Ele, notando seu pequeno dilema, pois tudo havia observado, aproximou-se por trás com o caderno a salvo.

Sorriram e por alguns minutos conversaram. Outro café foi marcado, e era incrível a afinidade. Com os amigos jantaram e por três dias os encontros eram sempre esperados. E minimamente aproveitados.

Separam-se no corpo, cada um voltou à sua rotina, mas no pensamento continuaram ligados.

Ela pensou em fazer contato, mas lembrou que ele era casado.

Ele tomou coragem para se separar, mas o filho chegou da escola, machucado.

Ela conheceu um homem bacana e começou a namorar, sem nunca deixar de lembrar de seu amado.

Ele entendeu como ainda era primitivo o motivo pelo qual se compromete atualmente e que a isso se chama liberdade, mas se está equivocado. E por não haver uma teoria sobre isso assim como há para as línguas, a matemática e a geografia, precisou aprender com a própria vida. Quando teve maturidade para ser realmente livre, já estava enlaçado.

Ela foi à cidade ao enterro do avô e quase caiu quando o viu com duas crianças e à sua esposa abraçado. Seu namorado julgou ser a emoção da perda e a deixou confortada.

Ele viu o abraço e o beijo e sentiu o peito em chamas, mas após mais uma briga, para tirar o terror do rostinho dos filhos, precisou sorrir para aquela que estava ao seu lado, e que seu braço em volta de si havia minutos antes colocado.

Mais rápido do que seria possível ela exibia o anel de casada.

Quando os filhos saíram de casa e eles nem juntos mais dormiam, ele pediu o divórcio e saiu pela estrada. Foi visitar aquela que nuca saíra do pensamento.

Ela chamava um nome que ninguém conhecia, até o último momento.

Ele encontrou-a deitada, olhos cerrados, escondida sob flores cheirosas, um tapete de grama e seu rosto tinha as lágrimas secas com a ajuda do vento.

Perguntou-se por que havia namorado quando queria ler, passeado quando teria seu avô visitado, feito sexo quando o amor era a única coisa que queria ter vivido.

Talvez, se tivesse primeiro se ressolvido, veria o real sentido de passear, namoraria aquela que fizesse seu coração pulsar e seria feliz somente por ter sido, não observando o que os outros faziam e imaginando o que poderia também estar sentindo.

Apenas uma rosa ele deixou naquele lugar, pois o que realmente importava era que ele a levava consigo. Aceitou o que mais a vida quis lhe mostrar, e ele agora tinha olhos de quem já tinha vivido. Muito mais pôde aproveitar.

Os netos deram o amor que ele não teve. Aprendeu a de sua ex companheira ser amigo e apesar das tristezas, sentia paz por ter aprendido.

Já de jaleco e em seu próprio consultório, parava todo dia naquele mesmo horário para apreciar o cafezinho, como haviam feito naquele tempo. Olhava as montanhas e sorria, porque sabia que tudo isso era o oposto do fim, e muita coisa ainda havia pela frente…

A viagem estava marcada. A rota, rasurada. Os objetivos apontados, nem todos cumpridos, mas o saldo positivo. As promessas, esquecidas, mas em outra oportunidade seriam relembradas. Os preparativos acertados. Chegam as despedidas, a mudança, a partida. E o novo começo, dando continuidade a esta incrível jornada…

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Fonte imagem: http://pensamentoextemporaneo.files.wordpress.com/2009/07/caspar-david-friedrich-viajante-diante-do-mar-de-nuvens-1818.jpg